Top 10: Piores do ano

25 dezembro 2010 12 comentários

Antes da lista dos melhores do cinema em 2010, há de haver, também, a dos piores filmes que chegaram ao Brasil nesse ano de acordo com o “Letters from Louis”. Eis os “vencedores”:

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10. O Príncipe da Pérsia

Surgiu com a intenção de se tornar uma franquia tão poderosa para Disney e Jerry Bruckheimer quanto foi (e é) “Piratas do Caribe”. Mas Jake Gyllanhaal não é nenhum Johnny Depp, e a fita em si é bagunçada e mal estruturada, longa demais para o que se propõe, abarrotada de personagens imbecis e previsível do primeiro ao último frame.

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9. Um Olhar do Paraíso

Peter Jackson dá seu primeiro passo em falso. Tenta adaptar para as telas um livro pesado e díficil, mas ameniza tanto o enredo que tira todo o propósito da ação. O preço por essa infelicidade é um filme frio, sem clima e sem tensão, onde todas as tentativas de emocionar não se concretizam. Ao se voltar para o assassinato e pós-vida de uma garotinha, resulta fraco ao explorar o luto do núcleo familiar, insatisfatório na investigação policial, e nulo quando se volta para o plano espiritual.

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8. Idas e Vindas do Amor

Com altíssimo número de estrelas por metro quadrado, essa comédia romântica ambientada no Dia dos Namorados americano foi bem de bilheteria, mas nem por isso é digna de nota. Seguindo o esquema de personagens múltuplos, cínicos e apaixonados têm espaço no filme, mas são todos retratados da maneira mais preguiçosa que se possa imaginar. Fica faltando, também, um beijo gay entre o casal bafo Eric Dane e Bradley Cooper.

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7. O Caçador de Recompensas

Um tiro no pé de Jennifer Aniston, que não é uma má atriz, e foi se unir com o canastrão Gerard Butler, que não é bom em nada. Nessa comédia romântica fútil e sem-graça, os dois formam um casal divorciado que redescobre o amor frente a uma espiral de confusões. Que Jennifer não tarde a perceber que está se desperdiçando em projetos babacas e dê uma guinada na carreira outrora promissora.

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6. Vírus

No ano em que os zumbis voltaram à moda, “Vírus” veio para lembrar que nem tudo que tem a ver com mortos-vivos é garantia de sucesso. Trata-se de um filme insípido, sem densidade ou intensidade e incapaz de definir a história que está contando. Evitem a todo custo.

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5. O Lobisomem

Uma fita lúgubre, escura, ultrapassada e insuportável protagonizada por Benício Del Toro. Quando acerta, ele é o melhor ator do mundo; quando erra, é um preguiçoso de aspecto macilento e embriagado (as olheiras salientes também não contribuem para sua imagem). A maquiagem que o transforma em lobo é deficiente, os efeitos beiram o amadorismo e até a reconstituição de época é nada mais que neutra. O resultado é decepcionante para os que esperavam grande coisa e banal para os que sempre tiveram um pé atrás.

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4. Alvin e os Esquilos 2

Dá para encarar como um programa familiar inofensivo, mas numa análise mais racional, não tem como ignorar o fato de “Alvin e os Esquilo 2” ser um filme muito, muito ruim. Segue exatamente as mesmas fórmulas do primeiro (aliás, parece estar contando a mesma história), inclusive regravando sucessos descartáveis da música pop nas vozes de taquara dos esquilos-cantores. Quem rangeu os dentes no anterior pode se poupar o constrangimento dessa vez.

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3. Sex and the City 2

O pior filme americano de 2010. A continuação surgiu atrelada à boa bilheteria do primeiro filme e sem qualquer propósito além de converter a franquia em mais dinheiro para o estúdio. Afinal, não há para onde levar a trama e algo mais a ser dito sobre as personagens, que se transformam por completo nas caricaturas que a série de TV impedira que se tornassem. Curioso, também, que “Sex and the City 2” tem quase nada de sexo e de cidade. Que horror.

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2. High School Musical – O Desafio

A Disney precisa perder o hábito de refazer suas franquias de sucesso em países estrangeiros, com elenco e produção local. Já tinham errado ao refilmar a série “Desperate Housewives” na Argentina, primeiro em castelhano e depois em português, com atores brasileiros deslocados nos papeis. Agora inventaram de adaptar “High School Musical” para a nossa realidade, ambientando a trama no Rio de Janeiro e escalando jovens revelados por um programa de TV. O resultado, obviamente, é uma ficção caramelizada e puerill, para não dizer ridícula.

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1. Amor Por Acaso

Mesclar num mesmo filme o profissionalismo do cinema americano e a verve indissolúvel dos brasileiros é, em teoria, um raciocínio válido. Na prática, nem tanto. É o que prova a comédia romântica “Amor Por Acaso”, co-produção entre Brasil e Estados Unidos dirigida por Márcio Garcia e protagonizado por Juliana Paes. Essa miscigenação só herdou das comédias ianques o que há de mais batido e ultrapassado, e do cinema brasileiro, a canastrice que frequentemente o assola. Uma tortura!

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Pelo segundo ano consecutivo, os primeiros colocados da lista dos piores vêm do Brasil (em 2009, elegi “Do Começo ao Fim” e “Salve Geral”). Até quando, eu pergunto?

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Feliz Natal, querido leitor!

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Reverência ao clássico

24 dezembro 2010 7 comentários

Da ilustre coleção de suspenses que compõe a carreira de Alfred Hitchcock, costuma-se destacar, em número e grau, “Janela Indiscreta”, “Um Corpo Que Cai” e “Psicose”, uma trinca de filmes brilhantes que conseguiram preservar suas qualidades intactas ao longo das décadas. Mas, talvez, um quarto exemplar possa ser adicionado a essa seleção, tanto pela atemporalidade como pelos enquadramentos magistrais, que só mesmo um cineasta em pleno domínio da técnica seria capaz de conceber. Refiro-me a “Festim Diabólico”, que Hitchcock rodou em 1948, tendo como base uma peça teatral honônima.

O filme não nega a origem no proscênio: a duração não extrapola os 80 minutos, todos os quais dados em tempo real e num único cenário – a sala de um apartamento -, e os atores desempenham seus papeis com interferências mínimas. Há cerca de dez cortes na metragem, alguns deles ocultos. Em planos-sequência que variam de quatro a dez minutos, a câmera passeia pelo set, se esquivando milagrosamente de objetos decorativos, e capta sempre com precisão as ações e reações dos personagens que interessam para o roteiro. Planos assim, de elaboração complicadíssima, costumam servir apenas como um adereço estético ou sinal de exibicionismo dos diretores. É raro acontecer como aqui: as longas tomadas são imprescindíveis para que a continuidade da narrativa não seja comprometida, e as idas e vindas da câmera traduzem, com particularidade, o estado de espírito dos personagens, que nem sempre parecem andar em terreno firme. Além disso, ajuda a manter o foco num certo baú que esconde muito mais do que sugere.

Na trama, dois homens esclarecidos e graduados cometem um assassinato simplesmente pelo prazer de perpetrar o crime perfeito. A experiência, encarada por ambos como um desafio intelectual, deixa como vítima um ex-colega de faculdade, a quem sufocam com uma corda até a morte logo na cena inicial. Mas, matá-lo apenas pelo ato de matar, para logo em seguida desaparecer com o corpo, não consistiria na excitação que eles – ou um deles – procuram. Brandon, o mais arguto dos rapazes, oferece um jantar no seu apartamento minutos após o crime, para o qual são convidados os familiares, a namorada e o melhor amigo do falecido. Durante toda a festa, ninguém parece desconfiar que, dentro da arca ao centro da sala, está o defunto de alguém tão próximo – mas o público conhece a verdade, e testemunha com tensão crescente o apanhado jogo cênico que se desenrola.

Apenas um personagem começa a acompanhar o raciocínio do espectador: um professor da época da universidade, que é convidado à ocasião justamente para aderir um pouco de vinagre à salada. Brandon, em sua mentalidade distorcida, se inspira nesse professor – foi dele que extraiu os conceitos deturpados com os quais justifica o crime hediondo –, e saboreia as possibilidades do mestre vir a descobrir todo o esquema. Mais que isso, espera ser parabenizado pelo feito (em contrapartida, o cúmplice Phillip, cuja sociopatia é menos acentuada, está sucumbindo à pressão e vencendo os passos que faltam para perder o controle). No papel do professor está James Stewart, por anos o ator mais confiável de Hollywood. Se é fato que Hitchcock não era o diretor mais solícito e afável para com o elenco – é famosa a sua declaração de que “atores devem ser tratados como gado” –, ao menos é indiscutível que ele e Stewart mantinham uma relação de mútuo respeito e, no cunho profissional, de fertilização criativa (ele também protagonizou “Janela Indiscreta” e “Um Corpo Que Cai”, que emplacam entre suas melhores performances).

Mas, é mesmo por trabalhar com um tema que conhece e domina que Hitchcock chega ao resultado extraordinário. Em sua obra, está presente, com maior ou menor sutileza, a constatação de que o cidadão comum é, por natureza, imprevisível em suas ações – o que, contextualizado na explosiva sociedade americana, na qual o crime e a celebridade sempre andaram lado a lado, é receita certa para o desastre. Que o diga “Festim Diabólico”: a trama foi livremente inspirada no caso real de Nathan Leopold e Richard Loeb, dois estudantes superdotados da Universidade de Chicago que assassinaram e incineraram um adolescente em 1924, com motivações idênticas às dos personagens do filme. Uma tragédia à modo americano que, como dita a própria cultura, foi transformada em entretenimento de primeira e, nas mãos de Hitchcock, em pura arte.

.:. Festim Diabólico (Rope, 1948, dirigido por Alfred Hitchcock). Cotação: A+

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Séries 2010

23 dezembro 2010 7 comentários

Dando início ao balanço de melhores e piores de 2010, aqui vai uma lista do que se destacou, por suas qualidades ou defeitos, dentre as séries de TV:

– O mundo inteiro parece ter comentado o final de “Lost”, que, depois de seis anos de mistérios acumulados, foi encarado como um verdadeiro evento. Mas trama a apelou para uma resolução mística e deixou muitos fãs fervorosos indignados!

– Apesar de não acompanhar “24 Horas”, o encerramento da série também deu o que falar.

– “Mad Men” permanece o melhor drama em exibição, e Jon Hamm e Elisabeth Moss, o melhor ator e atriz em qualquer programa.

– “Breaking Bad” cresceu horrores e apresentou episódios épicos na terceira temporada. Bryan Cranston e Aaron Paul continuam arrasando.

– “The Walking Dead” trouxe os zumbis para a TV, mas não correspondeu ao hype.

– “True Blood” se perdeu em subtramas ridículas.

– Muito amor para as sister-wives de “Big Love”, mas a série em si foi terrivelmente irregular na quarta temporada.

– “Dexter” foi constrangedor e covarde.

– A chatinha “The Big C” só vale a pena pela encantadora Laura Linney.

– “United States of Tara” deu um salto criativo na segunda temporada, e a composição de Toni Collette se tornou ainda mais admirável.

– “Weeds” teve altos e baixos, mas se redimiu com o ótimo final de temporada. Mary-Louise Parker em grande forma.

– “Community” conquistou o posto de melhor comédia no ar com a combinação de sátira e desenvolvimento de personagem. Episódios como o da guerra de paintball e aquele em stop-motion nasceram clássicos.

– “Family Guy” e “30 Rock”, outrora as comédias mais geniais da TV, atingiram a mediocridade na maioria dos episódios.

– “The Good Wife” elevou a barra para os dramas de procedimento, com boas histórias e bom elenco.

– Não se pode dizer o mesmo de “House”, que ultimamente só bate ponto.

– “Damages” ressuscitou depois de ser cancelada pelo FX, e ganhará duas novas temporadas na DirecTV. A terceira não foi sensacional, mas ainda assim é digna de atenção.

– “Friday Night Lights”, também produzida pela DirecTV, chegou ao seu quinto ano com a mesma qualidade do início.

– Salvo episódios atípicos como o eletrizante final de temporada, “Grey’s Anatomy” tem dado umas topadas por aí.

– A sétima temporada de “Desperate Housewives”, cujas tramas remetem ao excelente primeiro ano da série, tem superado as expectativas.

– “Gossip Girl” voltou a ser bom – “bom” para o que a série costumava ser em sua melhor forma.

– Perdi gradualmente o interesse por “Glee”. Se antes me empolgava quando Lea Michele abria a boca para cantar, agora reviro os olhos com impaciência.

– Entrementes, a despretensiosa “Greek”, do ABC Family, é sempre uma alegria, igualmente divertida e tocante.

– O final relativamente prematuro de “Ugly Betty” foi triste de ver.

– Já “The New Adventures of Old Christine” terminou e ninguém percebeu.

– “The Big Bang Theory” não faz rir como antigamente, mas Jim Parsons continua inspirado como o neurótico Sheldon.

– “How I Met Your Mother” às vezes erra, às vezes acerta. Quando tudo funciona, é uma das comédias mais engraçadas e emocionantes da TV.

– Betty White empregou todo o amor e prestígio na sitcom “Hot in Cleveland”, que parece uma comédia dos anos 80 ambientada em pleno século 21.

– Pouca gente assiste a “Party Down”, mas essa comédia adulta é das melhores no ar.

– Por falar em comédia adulta, desisti de “Hung” logo no início da segunda temporada.

– “Entourage”, por sua vez, melhorou bastante em relação à temporada anterior.

– As estreias “Caprica” (spin-off da amada “Battlestar Galactica”) e “Parenthood” não emplacaram no meu HD.

– O afastamento do criador prejudicou “Supernatural”, que já não empolga como antes.

– Quando finalmente chegou ao fim, poucos espectadores ainda insistiam em “Nip/Tuck”, que passou de uma das melhores séries da TV (posto que defendeu bravamente nas três primeiras temporadas) para um freak show.

– No comecinho do ano, “Dollhouse”, criada pelo mestre Joss Whedon, teve de apressar a trama para encerrá-la a tempo do cancelamento precoce.

– Encantei-me com duas séries inglesas – “Misfits”, uma mistura irresistível de “Skins” e “Heroes”, e a icônica “Doctor Who”, sobre um alienígena que viaja no tempo.

Acho que mencionei de tudo um pouco. Não?

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O Nosso Lar americano

22 dezembro 2010 4 comentários

À princípio, “Além da Vida”, o novo filme de Clint Eastwood, se assemelha a uma versão do brasileiro “Nosso Lar” feita com as técnicas e recursos do cinema americano. Logo na primeira cena, uma jornalista francesa está de férias na Tailândia quando acontece o fatídico tsunami. Ela se salva, mas é por pouco – o incidente a deixa seriamente machucada, e por breves instantes, faz com que tenha vislumbres do pós-vida antes de recobrar a consciência. No além, as imagens são pouco definidas, mas percebe-se que os que partiram experimentam um certo tipo de paz. Impressionada pelo que viu e sentiu, a mulher se afasta do serviço e se dedica à elaboração de um livro com testemunhos de pessoas que alegam ter visitado o além.

Conforme a trama avança, o escopo de “Nosso Lar” vai se dissipando – para o bem da plateia, as constrangedoras sequências em plano espiritual são limitadas -, mas “Além da Vida” permanece irregular até a conclusão. Isso porque o enredo da jornalista corresponde apenas a um terço do filme: os outros dois apresentam histórias paralelas, uma delas protagonizada por um garotinho inglês que viu o irmão gêmeo morrer atropelado, e a segunda por um vidente que tenta ignorar o dom de se comunicar com os mortos. O personagem, interpretado por Matt Damon, é de longe o menos interessante do terceto – e, ainda assim, é ele quem tem o nome e o rosto em destaque nos materiais de divulgação.

A deficiência parte do roteiro de Peter Morgan, que, quando o introduz, afirma categoricamente que as visões que o atormentam (que chegam involuntariamente em flashs, sempre que ele toca as pessoas) são reais e indiscutíveis. Para o ser humano, sofismar sobre o pós-vida é uma necessidade, e jamais obter respostas concretas para uma infinidade de perguntas é justamente o que constitui o mistério. Ainda que não tome partido de religiões, “Além da Vida” reconhece, pelo papel de Damon, a plena existência de um plano espiritual. É, enfim, uma visão intransigente e em preto-e-branco, que só não anula o filme por completo porque as demais histórias o colorem com tons de cinza.

É de se espantar que Morgan, um roteirista e dramaturgo voltado a causas políticas (foi ele quem escreveu “O Último Rei da Escócia”, “A Rainha” e “Frost/Nixon”, só para citar alguns), tenha optado por abordar um tema teísta, e há indícios de que ele condensa na jornalista várias de suas convicções pessoais (ela, também especializada em reportagens politizadas, é rejeitada no meio editorial quando decide escrever um livro voltado a outro nicho). Também não é um filme que se associaria à Clint Eastwood, que, como de praxe, assina a direção e a produção e compõe a trilha sonora. Ele é bom no que faz, mas imprime pouco de sua marca pessoal: se geralmente preza por cenas econômicas e enxutas, aqui as concebe infladas, emotivas e estendidas além da conta. Rende-se, ainda, a um final convencional que tem um tantinho covarde e um bocado cafona. “Nosso Lar”, ao menos, tinha apenas a cafonice.

.:. Além da Vida (Hereafter, 2010, dirigido por Clint Eastwood). Cotação: C-

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Cisne Negro

21 dezembro 2010 8 comentários

Uma das companhias de ballet mais prestigiadas de Nova York, comandada por um impetuoso e genioso diretor francês (Vincent Cassel), está ensaiando uma versão de “O Lago dos Cisnes”. Porém, a bailarina mais antiga da companhia (Winona Ryder), que costumava protagonizar todas as produções da casa, está se aposentando (muito a contragosto, como evidencia ao destruir seu camarim num acesso de raiva), deixando em aberto uma vaga para o papel principal. Nina (Natalie Portman), uma jovem bailarina contida e precisa que literalmente vive em função da arte, sabe o quanto conseguir esse papel significaria para a carreira. Sabe, também, que não terá outra oportunidade igual a essa, e sua vontade e motivação para ser aprovada, expressas através dos olhos trêmulos e ansiosos, é palpável para o espectador de “Cisne Negro”, o novo e fantástico filme de Darren Aronofsky.

Nele, Portman está em cena em cada segundo de projeção, e não desperdiça nenhum deles: quanto mais a história avança, mais intrigante, complexa e matizada se torna a composição – sem, contudo, que a personagem seja decifrada. A dualidade, nesse caso, é clara: Nina possui graça e lirismo de sobra (o que os mais céticos categorizariam como “frigidez”), de modo que carregaria, sem esforço, o papel do Cisne Branco (na verdade, uma donzela enfeitiçada, que só à frente do amor verdadeiro seria revertida à forma humana). Já a parte do Cisne Negro – a gêmea sombria e mal intencionada da heroína -, Nina não conseguiria sustentar. Num extremo oposto, o Cisne Negro exigiria menos técnica e mais garra, selvageria e desapego. Mas, como fazer uma garota, criada à risca por uma mãe superprotetora (Barbara Hershey), se libertar das amarras que a guiaram durante toda a existência?

O diretor, para quem a linha do profissionalismo é no mínimo tênue, a aconselha a se masturbar – “para se soltar um pouco”, diz. Nina até tenta seguir o conselho, com resultado desastroso e hilário (um dos poucos instantes da película que arranca risos e tira o espectador, mesmo que momentaneamente, da tensão em que foi imerso). Mas seu remédio será outro: basta intensificar os vínculos com Lily (Mila Kunis), uma nova bailarina que, por definição, é tudo o que Nina não é, para que a garota escape do estupor habitual. Lily, entrosada, livre e desbocada, faz com que a garota abrace, pela primeira vez, o lado mais sombrio de uma personalidade que reprimira durante toda a vida – o que confere a “Cisne Negro” o escopo e a força de um suspense que muitos representantes autênticos do gênero não possuem.

Não que essas sombras não tenham tentado burlar a prisão: Nina frequentemente tem visões – muitas envolvendo ela mesma, vista num segundo corpo -, e mais do que ocasionalmente aparece com machucados que não tem nada a ver com o rigor com que pratica as coreografias. Além dos calos inevitáveis nos pés, tem a cutícula dos dedos das mãos horrivelmente inflamadas e arranhões lhe cobrindo as costas. Para todos os efeitos, os machucados foram causados por ela mesma, que tem o tique de se coçar (o que faz com que a mãe lhe apare as unhas até a carne). Em outros casos, as feridas acabam se provando puramente imaginárias: basta lavar a mão ensanguentada para que lhe sarem os dedos!

Vale dedicar um parágrafo à relação de Nina com a mãe, que constitui um dos pontos mais interessantes e escabrosos do filme: para criar Nina, a mulher abdicou da própria carreira no ballet, e hoje parece uma artista frustrada, que tenta atingir os sonhos não-correspondidos através da filha. A rigidez que a garota encontra em casa é evidente, e Nina parece pisar em ovos sempre que na presença da matriarca. Em teoria, é o mesmo tipo de relação fechada, incomum e doentia que a personagem de Isabelle Huppert nutria com a mãe em “A Professora de Piano”, o que pode, ou não, ser coincidência. “Cisne Negro” é similar ao filme de Michael Haneke em vários aspectos: as protagonistas de ambos são comprometidas com a arte; ambas apresentam distúrbios psicológicos; e ambas vivenciam situações cotidianas e banais como se fossem eventos suplicantes e marciais.

Nos dois casos, as atrizes entregam desempenhos irreparáveis, desses poucos que merecem ser alçados à História. Assim como Huppert é uma exímia pianista, Portman é uma bailarina proficiente que convence por completo nas sequências de dança – mas é mesmo no alcance dramático que ela faz a diferença, retratando com precisão desde a garota inocente e infantilizada que encontramos no início, cujo quarto é carregado em cor-de-rosa e lotado de bricabraques, até a mulher descontrolada e incapaz de discernir o real da fantasia (aliás, nem sempre especificar onde um termina e outro começa é um dos maiores acertos do roteiro, escrito a seis mãos por Mark Heyman, Andres Heinz e John McLaughlin).

A direção de Darren Aronofsky é, sem discussões, brilhante e imprescindível para atestar a dualidade constante – não só a mais óbvia (a índole boa contra a índole ruim, cada qual intrínseca, nas devidas proporções, a todo ser humano), mas também aquelas que complementam o enredo e possibilitam novas leituras (a perfeição contra a irregularidade, a menina contra a mulher, o real contra o imaginário e daí em diante). Essa conquista de Aronofsky está aliada ao elenco uniforme, à estupenda fotografia (nunca escolas de dança pareceram tão taciturnas, ameaçadoras e, ao mesmo tempo, reais) e ao fabuloso roteiro (cujo clímax, ao absorver o libreto de “O Lago dos Cisnes” no conflito interno da heroína, faz uma das coisas mais impressionantes que se vê em termos narrativos nos últimos anos). Somados, esses atributos fazem de “Cisne Negro” o filme mais instigante e plasticamente bonito da temporada. Imperdível!

.:. Cisne Negro (Black Swan, 2010, dirigido por Darren Aronofsky). Cotação: A+

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The Crazies

20 dezembro 2010 7 comentários

Não assisti “A Epidemia” durante a curta e limitada temporada nos cinemas brasileiros, mas aproveito o eminente balanço de fim de ano para conferir e resenhar antes que aporte 2011. Em anos recentes, não tivemos filmes memoráveis de zumbis, embora a primeira série de TV sobre o tema, “The Walking Dead”, tenha se provado muito eficaz. “A Epidemia” não ficará gravado como um grande exemplar desse filão, mas passa por um entretenimento decente que quase sempre atinge o que se propõe.

Na trama, um vírus se alastra pelo reservatório de água de uma comunidade rural, causando reações extremas e imediatas aos moradores infectados. Os zumbis do filme são menos selvagens que os tradicionais, mas nem por isso pouco agressivos: eles perdem qualquer senso e noção, e atacam para matar quem quer que encontrem pela frente. Como estão concentrados numa cidadezinha minúscula, dessas em que todo mundo sabe o nome de todo mundo, fica fácil para o governo colocá-los em quarentena.

O problema é que o protagonista, um xerife interpretado por Timothy Olyphant, é colocado no grupo dos não-infectados, enquanto a esposa, uma médica vivida por Radha Mitchell, é diagnosticada com uma febre insistente (que, para todos os efeitos, poderia ser fruto da gravidez) e levada pelas forças armadas. Não resta ao herói outra opção senão invadir o antro dos infectados para resgatá-la, enfrentando quem quer que seja no caminho, aliado apenas a um fiel delegado (Joe Anderson).

Nesse confronto, os militares serão uma ameaça ainda mais cruel que os zumbis, com sua política de atirar primeiro para perguntar depois. Mas fazer qualquer tipo de denúncia não é – e nem deveria ser – a intenção de “A Epidemia”, que acerta quando se volta para as regras implícitas a todo filme de zumbi (elas ditam, por exemplo, que toda infecção deve acabar se espalhando, independente dos esforços do governo, e que nem mesmo os personagens principais estão imunes ao risco). Por outro lado, algumas situações, ao invés de aflitivas, surgem apenas razoáveis, e as saídas são extremamente manjadas (perde-se a conta de quantas vezes os mocinhos se encontram num beco sem saída – metafórico ou não -, para, no último instante, um terceiro elemento vir ao auxílio).

O roteiro sequer tenta desenvolver os personagens em algo além de arquétipos, de modo que o público jamais se importa com eles num nível pessoal. Isso, porém, não desencoraja diretor Breck Eisner, que parece disposto a imprimir no projeto uma marca autoral. Mesmo quando não consegue, sempre deixa evidente essa pretensão, o que basta para diferenciar levemente “A Epidemia” de seus similares. Basta, também, para satisfazer a todos aqueles que se simpatizam com os trâmites desse subgênero. Se esse é o seu baile, dê uma olhada.

.:. A Epidemia (The Crazies, 2010, dirigido por Breck Eisner). Cotação: C+

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Congelados

19 dezembro 2010 2 comentários

Antes de dar início às listas de melhores de 2010, vou comentar sobre o único filme que ficou faltando resenhar dentre os que estrearam nos cinemas brasileiros este ano (dentre os que eu vi, é claro). Trata-se do suspense “Pânico na Neve”, o genérico título brasileiro para “Frozen”, sobre três amigos – um casal de namorados e um outro rapaz – que são esquecidos num teleférico em meio a uma nevasca, durante um passeio de esqui. Pernoitar lá em cima deve bastar para que morram de frio, e mesmo que sobrevivam a noite, há o risco da estação não abrir pelos próximos dias, devido ao clima inóspito.

Em exibições prévias, houve relatos de espectadores que passaram mal ou desmaiaram por conta da tensão. Fico sempre desconfiado dessas histórias, que podem ser puramente inventadas para alimentar o hype, ou exemplos isolados de pessoas muito frescas e melindrosas (não que eu seja sinônimo de resistência e impassividade, mas muita gente – a plateia americana, em especial – realmente se choca com bobagens). Nesse caso, fico na dúvida: o filme pode ser tenso e aflitivo em alguns momentos, mas mesmo em seu extremo, não faz mais que suar a palma das mãos e palpitar o coração. E só as sequências mais grotescas causam essa reação – como aquela em que o herói, num ato de desespero, pula do teleférico, causa fratura exposta nas duas pernas e atrai uma alcateia com o cheiro de sangue!

A tensão psicológica costuma ser o às na manga dessas fitas cuja premissa atípica confina os personagens num cenário limitado. Mas isso o roteiro não sabe atestar, tampouco os atores escolhidos são capazes de corresponder à proposta (Shawn Ashmore, de “X-Men”, e Kevin Zegers, da série “Bud” e “Transamérica”, atraem atenção ao projeto, mas não tiveram maiores chances ou então não souberam criá-la). Perto do que sugeria, o resultado é, no mínimo, decepcionante.

.:. Pânico na Neve (Frozen, 2010, dirigido por Adam Green). Cotação: C-

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