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Archive for the ‘Teatro’ Category

Uma nova Avenida Q

7 novembro 2010 2 comentários

O musical “Avenida Q”, transposto da Broadway para o Brasil por Charles Moeller e Cláudio Botelho, foi o que eu vi de melhor no teatro no ano passado. A ideia original se aproveita dos programas infantis que utilizam bonecos para ensinar o alfabeto e outras lições elementares às crianças – com o diferencial de que os fantoches que povoam a Avenida Q são adultos em desenvolvimento, que cantam, com bom humor e sem papas na língua, sobre problemas palpáveis como falta de dinheiro, frustração sexual, solidão urbana e assim por diante.

A primeira montagem brasileira era quase um triunfo, seja pelo excepcional conjunto de atores, seja pelas modificações acertadíssimas que a dupla de diretores fazia para adaptar uma trama indissoluvelmente americana à nossa cultura. Os fãs de “Avenida Q”, que não são poucos, cobravam um retorno do musical, e eis que acabou acontecendo. Está em cartaz em São Paulo uma nova Avenida, que esteve no Rio por uma temporada e viajou por vários cantos do país, feito inédito para uma produção deste porte. Para baratear os custos, a orquestra foi dispensada e toda a parte instrumental foi gravada previamente. O elenco, todo repaginado, continua cantando ao vivo.

Como não adianta fugir de comparações, devo dizer que tivemos perdas e ganhos em relação aos atores. Destaque para Roberto Donadelli, que tinha a difícil tarefa de substituir o protagonista André Dias e o fez com a maior dignidade, compondo do zero os dois personagens a quem dá vida; Carla Masumoto, que eu tinha visto anteriormente (era stand-in na versão anterior), agora está muito mais confortável e divertida; e Jonathas Joba dá uma inflexão particular e muito correta ao seu papel. Os demais, se não impressionam, ao menos dão conta do recado – com exceção do fraquíssimo Adriano DiSidney, uma péssima escolha para interpretar Gary Coleman (na verdade, o original Maurício Xavier também costumava ser o mais inferior do grupo).

Embora creditados pela direção original, Moeller e Botelho não são responsáveis por essa montagem, que está pior em praticamente tudo o que difere daquilo que eles haviam feito. Felizmente, as alterações são mínimas e algumas poucas chegam a ser bem pensadas. Ainda que não exale o brilhantismo prévio, “Avenida Q” permanece uma delícia de espetáculo e as duas horas de risadas mais garantidas do teatro paulistano. Corra para ver: só fica em cartaz até 28 de novembro!

.:. Avenida Q. Teatro Brigadeiro. Av. Brigadeiro Luís Antonio, nº 884. Bela Vista, São Paulo – SP. Sextas às 21h. Sábados às 18h e 21h. Domingos às 18h. Cotação: A-

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La Cage

6 novembro 2010 2 comentários

A história de “La Cage aux folles” já foi contada inúmeras vezes pelo cinema e pelo teatro, tanto em forma de peça quanto de musical. Basicamente, narra as desventuras de um casal gay que apresenta um show de cabaret muito popular entre a comunidade. Georges, o mais contido, atua como mestre de cerimônias, e Albin, transformista e desmunhecado, é a grande estrela da atração. As confusões começam quando o filho deles – fruto de uma transa casual de Georges, mas criado por ambos – anuncia que vai se casar com a filha de um político conservador, cuja plataforma de governo inclui a segregação completa dos homossexuais. A partir daí, iniciam-se os preparativos para receber os pais da noiva, que não podem sequer desconfiar das procedências “desvirtuadas” do futuro genro.

Minha ligação com a trama veio através de “The Birdcage – A Gaiola das Loucas”, uma comédia de 1996 muito bem executada, favorecida por pelo menos uma performance irreparável: a de Nathan Lane como Albin (amo essa bicha!). Até os dias de hoje, quando não estou de bom humor, coloco esse filme para rodar e sempre fico mais leve e descontraído depois de revê-lo. Esse é, naturalmente, o poder de uma história que consegue ser divertida sem esforço, tocante nos devidos momentos e otimista em seu plano geral. Talvez por isso a versão brasileira do musical “A Gaiola das Loucas”, encenado em São Paulo no Teatro Bradesco do Shopping Bourbon depois de uma temporada no Rio, tenha me contagiado aqui e ali. A fonte de inspiração é rica demais e a essência do enredo é o suficiente para me aquecer por dentro.

Diria que essas qualidades estavam acima de Miguel Falabella, que comprou os direitos para montar o musical no Brasil, traduziu as letras das músicas, assumiu a direção e deu a si próprio o papel de Georges (suas empreitadas anteriores no gênero incluem “Os Produtores”, que eu não vi, e “Hairspray”, que era bastante discutível). Digo isso porque, em tudo o que poderia tornar inferior, o dedo dele estava lá. A tradução das canções está horrorosa – não era familiarizado com a trilha original, mas tenho a impressão de que tampouco é uma maravilha, já que alguns arranjos remetem à circo, certas melodias são pesadas e marciais e há um excesso de músicas aborrecidas, várias delas servindo aos mesmos propósitos. Além disso, por problemas nos microfones, orquestra tocando alto demais, dicção dos atores-cantores ou métrica avacalhada, é fato que a plateia nem sempre vai compreender o que está sendo cantado. Talvez precisem ser ouvidas na ocasião certa, como no comentado revival que está em cartaz na Broadway e que foi premiado com o Tony.

O problema maior é que, na visão de Falabella, o que há de humor tem de pender para o escracho. Azar do público, que perde um material de bom gosto para se deparar com piadas imbecis, do tipo que se encontraria nos programas globais de final de domingo e que certamente não existiam no texto original. Às vezes, a baderna no palco é tanta que a plateia não sabe como reagir, e vira e mexe pude perceber o público rindo não com espontaneidade, mas sim de nervoso! Sem contar que Falabella tem uma persona forte e faz variantes de si mesmo em todos os personagens que interpreta. E ainda tem o péssimo hábito de escalar em papeis relevantes atores sem qualquer preparo para a função. É o caso de Diogo Villella, o Albin brasileiro, totalmente imaturo como cantor e nem um pouco brilhante no que tange à interpretação (o personagem é um prato cheio e ele não soube aproveitar as oportunidades; é um trabalho sem timing, equivocado).

Não faço maiores restrições ao restante do elenco. Pelo contrário: tenho elogios a fazer às Loucas da gaiola (todos excelentes bailarinos, que eu particularmente desconhecia) e prazer em ver rostos conhecidos, como os simpaticíssimos Davi Guilhermme (“O Despertar da Primavera”) e Gustavo Klein (“Avenida Q”), firmes e fortes no ramo. Desconfio que outros atingiriam melhores resultados se não fossem sabotados por piadinhas tão infames e micagens infantis o tempo todo. Em relação à concepção visual, a iluminação está caprichada e já acomodada ao novo teatro, e os cenários são muito bem feitos. As apresentações de cabaret representam ótimos momentos de teatro – bem acima do que eu esperaria de Falabella -, mas não são planejadas com o talento das sequências de teatro burlesco em “Gypsy”, por exemplo. Num apanhado final, “A Gaiola das Loucas” pode muito bem te proporcionar instantes de prazer. Só que também terá sua cota de tortura.

.:. A Gaiola das Loucas. Teatro Bradesco. Rua Turiassu, 2100 (Bourbon Shopping Piso 3). Perdizes. São Paulo – SP. Quinta e sábado às 21h. Sexta às 21h30. Domingo às 19h. Cotação: C+

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Extra, extra! Gypsy estreia em SP

“Gypsy”, clássico absoluto do teatro musical, foi inspirado na história real de uma stripper estimulada desde criança pela mãe a seguir carreira artística. Como faltava talento ou oportunidade, a moça viu-se relegada, com o passar dos anos, ao teatro burlesco, onde as mulheres se despiam no palco (na verdade mostravam apenas as curvas, o que para a época era um escândalo, igualmente vergonhoso, imoral e condenável). Apelidada de “gypsy” – cigana, em inglês – por ter viajado pelos quatros cantos dos Estados Unidos perseguindo a fama (a mãe sonhava em emplacar um hit no extinto teatro de variedades), a heroína fora de início preterida pela irmã caçula, mimada e desafinada, mas loura e com perfil de show biz. Depois que a pequena – que já não era mais tão pequena assim – cansou de ser pau mandado da mãe e foi viver a própria vida, a mais velha – obediente e de temperamento maleável – foi promovida à estrela de uma atração que nunca engrenou. Resignada, aceitou fazer striptease por falta de coisa melhor, mas foi desabrochando, percebendo o que era se sentir querida e desejada, e se tornando uma referência no ramo. A certo ponto, era a stripper mais requisitada do país, nuns tempos em que a profissão, se não era mais valorizada, ao menos era glamurosa para aquelas que, como Gypsy, sabiam lhe extrair classe e elegância.

A vida de Gypsy e de sua mãe foram inteiramente dedicadas ao sonho do teatro, e não há melhor maneira de retratá-las do que nos palcos. A versão musical vem sendo encenada há décadas na Broadway, com revivals ocasionais, e foi baseada nas memórias da própria Gypsy, que publicou um livro após a morte da mãe escancarando os perrengues que passaram e as artimanhas perpetradas pela matriarca para favorecer as filhas. Mama Rose, como ficou conhecida, se tornou o símbolo absoluto das “stage moms” – aquelas que pressionam Deus e o mundo para impulsionar a carreira artística dos rebentos. E é nela, e não em Gypsy, que a história se concentra. O musical pode ser conferido com o público já ciente da sinopse, mas é igualmente curioso quando visto sem maiores informações sobre a trama, já que esta termina num ponto diametralmente oposto ao que começou. Ao mesmo tempo também é simétrica e coerente, como se nota pela repetição da canção “Rose’s Turn”, entoada com ferocidade pela protagonista, com a letra modificada de acordo com seu estado de espírito.

O desafio de trazer este clássico ao Brasil coube à Charles Moeller e Cláudio Botelho, cuja parceira profissional rendeu alguns dos melhores musicais que o país recebeu nos últimos tempos (“A Noviça Rebelde”, “Avenida Q”, “Beatles num Céu de Diamantes” e o recente “O Despertar da Primavera”). A competência dos trabalhos anteriores da dupla também se faz presente aqui – as versões de Cláudio para músicas que pareciam inconcebíveis em outro idioma impressionam, e a direção de Charles é muito segura para sincronizar os elementos que passam pelo palco durante as três horas de espetáculo. E não são poucos: há incontáveis trocas de cenário e figurino, todos de encher os olhos, e uma iluminação extremamente funcional, com os holofotes agindo em favor da narrativa (como não poderia deixar de ser, parte da trama é metalinguística, com teatro encenado dentro de teatro). Às vezes, para dar tempo do cenário ser modificado ou do elenco trocar de roupa, a orquestra – muito bem regida e situada abaixo do palco – tem de enrolar e fazer firulas excessivas. Incomoda um pouquinho o excesso de canções, em especial no primeiro ato (há duas ou três músicas dedicadas à Mama Rose e seu companheiro profissional e amoroso, Herbie, todas servindo ao mesmo propósito). E por vezes também parece que o texto se estende demais para abrir caminho para as canções, mas nada que comprometa a experiência.

O elenco é, a meu ver, o grande acerto desta montagem. Totia Meirelles dá um show como Mama Rose – “Gypsy” está chegando agora em São Paulo, mas já esteve em cartaz no Rio por três meses, e nesse meio-tempo, ela pode se tornar confortável com a personagem e tudo o que lhe é exigido. Adriana Garambone cresce para o final, tornando crível a transformação da insegura Louise na dama do teatro burlesco Gypsy (há uma sucessão de stripteases em que dá para ver literalmente este amadurecimento). Aliás, quando ela e Totia batem de frente, num embate verbal que deixa a plateia num silêncio sepulcral, não tem como não admirar, também, o duelo de interpretações travado ali, do qual ambas saem ganhadoras (o texto sabe se posicionar muito bem, tornando compreensíveis as motivações tanto de Louise quanto de Mama Rose, que com menos cuidado poderia se transformar em vilã ou caricatura). Dentre os demais atores de destaque temos Eduardo Galvão, numa boa performance, Renata Ricci, que manipula as canções para adequá-las às suas limitações vocais, e André Torquatto, craque no sapateado e uma verdadeira revelação (aliás, o libreto falha em dispensá-lo cedo demais e não explorar por completo o que o personagem poderia significar para Louise).

O restante da trupe é composta por crianças muito bem escolhidas, com maior destaque para as garotas que vivem as protagonistas durante a infância, e outros nomes promissores ou consolidados do teatro musical brasileiro. Menção especial para Liane Maya, Sheila Matos e Ada Chaseliov, espetaculares como um trio de strippers decadentes e responsáveis pelas risadas mais fartas do segundo ato. Não falta graça à “Gypsy”, aliás. O musical é dramaticamente estofado, mas também extremamente bem humorado. Muitas dessas piadas são proferidas por Totia com espontaneidade, como se tivessem sido pensadas no momento, ou como se Mama Rose fosse criada especialmente para ela e por ela. O que confirma que Moeller e Botelho são, na verdade, artífices: seus musicais nunca são réplicas exatas, e sim seguem caminhos diferentes (e melhorados!) àqueles em que se basearam. O que faz as produções dos dois se destacarem no nosso cenário é justamente essa habilidade de imprimir algo pessoal no que poderia ser genérico.

.:. Gypsy – O Musical. Teatro Alfa. Rua Bento Brando de Andrade Filho, 722. Tel (11) 5693-4000. Qui, 21h. Sex, 21h30. Sáb, 20h. Dom, 17h. Até 17/10. Preços: de R$60 a R$120 (quinta e sexta) e de R$80 a R$140 (sábado e domingo). Cotação: A-

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Give my regards to Broadway: Billy Elliot

O que o cineasta Stephen Daldry conseguiu com “Billy Elliot”, lançado em 2000, não foi pouco. Ele foi capaz de contar uma história básica – a de um menino com interesse genuíno pela dança, que desafia as tradições da família de boxeadores ao se inscrever em aulas de ballet – sem cair numa pieguice que parece inevitável a quem trabalha com uma temática tão motivacional e surrada. E foi além: situou o drama do personagem durante a greve que os trabalhadores braçais dos subúrbios de Londres conduziram em 1984. Um acontecimento que, por si só, não passaria de uma nota de rodapé da História inglesa, ainda mais considerando que a luta dos mineiros – homens rústicos e pouco instruídos, que bebem demais e tem expectativas de menos – se provou infrutífera. Pois Daldry utilizou as mazelas sociais do período como pano de fundo, e o fez com tanta dignidade que não apenas potencializou o sonho do protagonista – e o esforço hercúleo que era persistir nele -, como também tornou palpável e verossímil o seu leque de coadjuvantes.

Não é de se espantar que “Billy Elliot” tenha sido um dos melhores filmes daquele ano, fato que se refletiu em três merecidas indicações ao Oscar: Atriz Coadjuvante para Julie Walters (no papel da professora de ballet burguesa que estimula o heroi), Roteiro para Lee Hall e Direção para Daldry (ambos vindos do teatro e com pouca ou nenhuma experiência com cinema). Surpreendente é que uma história que só parecia ter dado certo pela feliz combinação do talento singular dos envolvidos tenha repetido o sucesso quando transposta para os palcos. Ainda mais num gênero tão difícil e arriscado quanto o musical tradicional, no qual os personagens desatam a cantar suas falas, substituindo diálogos por canções e externalizando sentimentos que não cabem em meras palavras.

“Billy Elliot – The Musical” estreou no West End londrino em 2005. A trilha fora composta por Elton John, um admirador confesso do filme, que diz enxergar paralelos entre a trajetória de Billy e a sua própria. O libreto foi desenvolvido pelo mesmo Lee Hall que escrevera o longa, e a direção também foi atribuída à Daldry. A aprovação foi instantânea e unânime, em especial aos três garotos que dividiam o papel de Billy em apresentações diferentes. Só em 2008, porém, o musical chegaria à Broadway, graças aos esforços conjuntos do mesmo time responsável pela versão inglesa, e com modificações mínimas (algumas coreografias foram incrementadas). O trio original de Billys na Broadway também foi ovacionado – os meninos, que certamente tinham a mesma verve de Jamie Bell, o Billy do cinema, dividiram o prêmio Tony de Melhor Ator, na mesma cerimônia em que o espetáculo foi contemplado em outras dez categorias (entre elas Direção, Libreto, e claro, Melhor Musical).

Até hoje, este é um dos musicais mais populares da Broadway, e assim deve continuar por um bom tempo (ou ao menos, tempo suficiente para que eu volte para rever). Continua lotando todas as sessões, mesmo que a demanda por ingressos não seja, atualmente, tão grande quanto à da nova sensação “La Cage” (se pronuncia em francês, “Lá Cági”, e é uma versão repaginada de “A Gaiola das Loucas”), ou dos veteranos “Wicked” e “The Lion King”. Mas duvido que a concorrência faça jus à magnitude desta montagem de “Billy Elliot”, perfeita em todas as definições da palavra. A maioria do elenco original já partiu para outros projetos, e os restantes alternam seus papeis com outros intérpretes. Não há, no entanto, uma irregularidade sequer, ou um ator que não esteja muito seguro de suas marcações, falas, músicas e coreografias. Se já é espantoso que tenham encontrado algumas dezenas de artistas – dentre crianças pequenas, pré-adolescentes, adultos com físico e aparência de trabalhadores caucasianos humildes, e até uma idosa para o papel de avó -, muito mais assombroso ainda é que tenham, na reserva, um extenso time B de atores capazes de desempenhar a mesma função.

Essa tradição dos substitutos é antiquíssima e essencial, já que os ingressos se vendem com rapidez e antecedência, e o show deve sempre continuar. Às vezes os subs são até uma exigência: quando o personagem exige muito, em termos físicos ou vocais, dois ou mais atores precisam se revezar em sessões diferentes para aguentar o tranco. Na Broadway a rotina é ainda mais puxada. As apresentações, se não são diárias, ocupam pelo menos seis dias da semana. O mais comum é que folguem na Segunda e se apresentem de Terça à Domingo, com matinês às Quartas e Sábados e uma sessão noturna aos Domingos (quando a sessão vespertina é a tradicional). E sem essa moleza de meia-entrada, que facilita a vida de milhões de brasileiros – o preço é unificado, e para comprar com desconto deve-se ficar atento a promoções na internet ou comparecer à bilheteria TKTS, na Times Square. Ainda assim o bilhete mais barato que se consegue, nas poltronas menos favorecidas, fica na faixa dos 70 dólares.

De qualquer forma, “Billy Elliot” faz jus ao valor pago. Dá para perceber nitidamente que cada centavo foi bem empregado, e não só porque o espetáculo vai te deixar maravilhado e embasbacado. É um show grandioso, bem montado, executado nos trinques, com muita gente suando a camisa no palco. O sistema de som é impecável (deslizes como os que acontecem com os microfones em muitos musicais encenados no Brasil são inadmissíveis), a iluminação é fantástica, e o cenário é de um planejamento meticuloso e fenomenal (a casa de Billy, com uma cozinha, uma escada, e o quarto no andar de cima, literalmente brota do chão, e outros apêndices, como a casa do amigo Michael, são arrastados para dentro e fora do palco com a ajuda dos próprios atores).

A coreografia é a melhor que eu já vi ao vivo, e talvez uma das mais extraordinárias que já testemunhei na vida (contando com muitos vídeos de dança no YouTube, musicais clássicos do cinema, e etapas de reality de competição). Há três sequências particularmente sensacionais: “Angry Dance”, em que Billy extravasa sua frustração colidindo com uma tropa de choques; “Electricity”, em que ele explica como se sente por dentro quando está dançando; e uma redenção do ballet “Quebra-nozes”, de Tchaikovsky, numa sincronia de movimentos impecável do garoto com um bailarino mais velho (um vislumbre do Billy do futuro). O intérprete de Billy, seja ele quem for (não costuma ser anunciado com antecedência), deve ser capaz de desempenhar todos os passos complexos, sem hesitar. Outro grande número é “Solidarity”, no qual policiais armados interagem com as garotinhas da escola de ballet.

Para muitos, o clímax é outro ainda: o momento em que Billy descobre que Michael veste roupas femininas, e iniciam a leve e divertida canção “Expressing Yourself”. Entram ao palco vestidos e calças com pernas, braços e tronco – mas sem cabeça! São perfeitos manequins que passam a integrar a coreografia, um momento deslumbrante e digno de Broadway. Também é incrível quando, em “Born to Boogie”, Billy, a professora, e um pianista acima do peso começam a pular cordas e sapatear ao mesmo tempo. E quando a cortina desce, o show está longe de terminar. O “curtain call”, instante em que o elenco volta ao palco para receber aplausos calorosos do público, reserva um número extra, enérgico e extremamente vibrante, para o qual todos os atores – sem exceção – vestem um tutu (aquela saia de bailarina cheia de fricotes). E dá-lhe um sapateado frenético e interminável, que faz os queixos já caídos se aproximarem centímetros a mais do chão!

A direção de Stephen Daldry é um primor. A boa reputação que ele conseguiu nos cinemas (foi indicado ao Oscar de Diretor três vezes, pelos três únicos filmes que realizou) não é nada comparada ao que o seu nome significa nos palcos. Ele não prioriza as convenções do teatro, e sim os personagens que ilustram a história – e como tem um vínculo forte e duradouro com os personagens em questão, respeita-os como ninguém. Assim, quando Billy se dirige à professora, ele a olha nos olhos, e ela retribui o olhar de frente para ele. Sem os clichês dos diálogos que acontecem com os atores encarando mais a plateia do que um ao outro. Essas pequenas sutilezas fazem toda a diferença na percepção que o público tem do musical como um todo.

Capaz de deixar o espectador profundamente emocionado sem esforço ou apelação, “Billy Elliot – The Musical” é uma tremenda conquista, e sem dúvidas as melhores e mais memoráveis horas que já passei no teatro. Se você é fã de musicais, economize, reserve um dinheirinho no final de cada mês, e presenteie-se com uma viagem à Nova York. Chegando lá, não pense duas vezes: entre na fila do Imperial Theatre e confira esta obra-prima. É fantástico, genial, mágico sob todos os ângulos. E muito dificilmente será trazido ao Brasil, já que, sem desdenhar dos nossos artistas, seria uma verdadeira raridade encontrar um elenco local capaz de dar vida a tudo isso.

.:. Billy Elliot – The Musical. Dirigido por Stephen Daldry. Libreto e letras de Lee Hall. Músicas de Elton John. Imperial Theater, 249 West 45th Street, Manhattan. Duração: 2 horas e 50 minutos. Cotação: A+

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Jekyll & Hyde: O Médico e o Monstro

Apesar de “Jekyll & Hyde: O Médico e o Monstro” ser uma obra mundialmente admirada, eu não conhecia nada além da sinopse elementar. Sabia, por exemplo, que os dois personagens-título são, na verdade, personalidades diferentes de uma mesma pessoa, o Dr. Jekyll. Depois de lhe negarem os fundos para levar adiante sua pesquisa sobre o comportamento humano – mais especificamente, sobre a tendência intrínseca ao homem de praticar o mal -, ele decide se tornar cobaia do próprio experimento. Mas acaba aflorando seu duplo, o Sr. Hyde, sociopata de feições deformadas que passa a cometer assassinatos brutais. Suas vítimas são os membros da alta sociedade que de alguma forma julga hipócritas e imorais: se essas pessoas são de má índole, ele lhes dá o troco na mesma moeda. Não conhecia maiores detalhes da trama, mas apenas a premissa básica já torna quase impossível viabilizar a história como um musical. Pois a produção foi concebida lá fora e é trazida agora para o Brasil, num espetáculo de encher os olhos, encenado para o público paulistano a partir deste dia 9 no Teatro Bradesco do Shopping Bourbon.

Todas as fotos promocionais trazem o protagonista, Nando Prado (tão seguro nos papeis que nem parece que acabou de estreá-los), posando ao lado de Kiara Sasso. Não suponha, porém, que ela será a protagonista feminina. O cargo é ocupado por Kacau Gomes, que no papel da prostituta que se envolve com os dois gumes – o homem e o monstro -, tem mais tempo e proveito em cena. Kiara é relegada a um papel mais ingrato, o da ingênua noiva do Dr. Jekyll. É uma cantora bem preparada, mas fraca como atriz, degraus abaixo dos outros dois. O restante do elenco se alterna em papeis de média e mínima importância, e é competente como um todo. O problema maior, para mim e creio que para boa parte do público, é que as canções – obviamente, o coração e a alma de um musical – são excessivas e pouco memoráveis, para não dizer chatas (as traduções de Cláudio Botelho também parecem menos inspiradas que de costume e nada fazem para engrandecê-las). As melhores, seja pela melodia ou pela intérprete, são as cantadas por Kacau (que, só depois fui descobrir, dublou as músicas de Anika Noni Rose na versão brasileira de “A Princesa e o Sapo”).

Imagino que quem desconheça o enredo um pouco mais do que eu pode ter dificuldade em acompanhar a narrativa, ou então se cansar com facilidade. Certamente é mais acessível àqueles que já são fãs cativos de musicais – não é para ser recomendado de peito aberto a qualquer um, como “O Despertar da Primavera”, que retorna a São Paulo no dia 10. O apelo de “O Médico e o Monstro” é mais estreito, direcionado a um público mais velho e seleto. Quem não conseguir se conectar com a história ao menos verá que o dinheiro do seu ingresso não foi desperdiçado. Nota-se que cada centavo foi muito bem empregado na produção, que empolga por seu estupendo visual. A iluminação é muito boa (apesar de apresentar alguns vacilos mínimos de estreia), os figurinos são belíssimos, e os cenários, ainda que pareçam pesados demais e que “ranjam” durante a transição, são fantásticos. Destaco ainda os efeitos de cena – a transformação de Nando é impressionante e imperceptível, há um personagem que literalmente pega fogo no palco, uma sequência extensa em que chove de verdade, e muitos outros instantes que farão até o espectador mais desligado soltar um “Uau!” de admiração. A orquestra também está de parabéns – já está afiada e não perdeu a deixa uma única vez. Veredito: recomendado sem ressalvas para os fãs de musicais, e com alguns poréns para quem não é familiarizado com o gênero.

.:. Jekyll & Hyde – O Médico e o Monstro. A partir de 09/07 – Sex e Sab. Horário: sex, às 21h30; sab, às 17h e às 21h. Preço: De R$30 a R$190,00. Adaptação: Cláudio Botelho. Direção: Fred Hanson. Elenco: Nando Prado, Kiara Sasso e Kacau Gomes. Teatro Bradesco. Shopping Bourbon, Piso Perdizes. Rua Turiassu, 2100, Pompeia. São Paulo – SP. Cotação: B-

Categorias:Teatro

Os melhores do teatro?

Passou despercebido aos brasileiros, que só tem olhos para as partidas sonolentas desta Copa do Mundo, mas no último Domingo aconteceu nos Estados Unidos a cerimônia de entrega dos Tony Awards, considerado o prêmio mais importante do teatro americano. Tem para os palcos o mesmo peso que o Grammy tem para a música, o Emmy para a televisão e o Oscar para o cinema. Por isso tantos artistas almejam completar esta quadra – a vitória em cada uma dessas competições é coisa que pouquíssimos profissionais do mundo do entretenimento conquistaram. (Isso chegou a virar mote de piadas nesta última temporada de “30 Rock”, quando o personagem Tracy se tornou obcecado por vencer os prêmios mais renomados).

Conferi apenas trechos da festa no YouTube, mas a partir da lista de premiados já podemos fazer algumas considerações. A mais importante delas: o Tony é essencialmente político, e sempre vai priorizar os intérpretes que já estejam estabelecidos em outras mídias (cinema principalmente). Só isso explicaria a vitória de Catherine Zeta-Jones como Melhor Atriz em Musical por “A Little Night Music”. Os críticos apontavam a diva black Montego Glover, estrela do melhor musical “Memphis”, como franca favorita à estatueta. Amigos meus que viram Catherine se apresentar garantem que, ao vivo, ela não demonstra o mesmo vigor de sua performance musical mais conhecida, no filme “Chicago”. A própria pareceu muito surpresa ao ser anunciada vencedora, e fez caras e bocas para o marido Michael Douglas antes de subir ao palco.

E o que dizer de Scarlett Johansson vencendo como Atriz Coadjuvante em Peça? Pode parecer injusto julgá-la sem ter visto a interpretação em questão, mas faz anos que desconfio desta garota que tantos pintaram como um verdadeiro talento. Não percebem que ela é uma atriz limitada, ainda “verde”, e muito favorecida pelos diretores com que trabalhou (em especial Sofia Coppola, que lhe proporcionou o texto sublime de “Encontros e Desencontros”, e Woody Allen, com quem atingiu seu potencial em “Match Point” antes de descambar para a mediocridade em “Vicky Cristina Barcelona”). Bem humorada, Scarlett agradeceu ao parceiro Ryan Reynolds, a quem se referiu como o “canadense com quem eu moro”. Está aí uma maneira inovadora de chamar o marido.

Ouço maravilhas sobre as performances de Denzel Washington e Viola Davis, Melhor Ator e Atriz em Peça pelo espetáculo “Fences”. Mas fico me perguntando se Viola, que já foi premiada anteriormente, não poderia ter sido preterida em favor de Laura Linney, uma intérprete formidável e subvalorizada, que até o presente momento não tem um Tony. E estou muito ansioso por conferir no mês que vem em Nova York o novo “A Gaiola das Loucas”, premiado como Melhor Revival, Direção e Ator em Musical (Douglas Hodge, no papel que foi de Nathan Lane no filme homônimo). Vale lembrar que uma versão diferente da “Gaiola” foi trazida ao Brasil pelo Miguel Falabella (a montagem está sendo encenada no Rio, e à exemplo de “Hairspray”, deve chegar a São Paulo em breve).

Dentre as apresentações que conferi, estava a dos protagonistas de “Glee”, os filhos da Broadway Matthew Morrison e Lea Michele (confira o vídeo aqui). A série foi mencionada por sua importância atual na popularização dos musicais, e por levar à rede nacional astros que tem a fama limitada aos palcos nova-iorquinos. Mas ao menos Lea desapontou, e muito, com sua interpretação de “Don’t Rain On My Parade”. Se num dos episódios da série ela tirou a música de letra, ao vivo soou muito agressiva, exagerada, gritando além da conta, desafinando e quebrando nota. Imagino que estivesse muito nervosa por se apresentar diante de uma plateia repleta de artistas que admira. Um adendo: nos bastidores, fotografaram lado a lado as moças que originaram os papeis principais de “Wicked”, Kristin Chenoweth e Idina Menzel. Depois que solicitaram para participar de episódios diferentes de “Glee”, os rumores de que ambas tem uma péssima relação profissional se intensificaram. Eu, por minha vez, não vejo maldade no coração das duas. E vocês?

Agora sim começa a contagem regressiva oficial para o Emmy – prêmio em que podemos ser muito mais participativos por termos conferido tudo o que está disputando. Até lá, compartilhe suas impressões sobre o Tony!

Categorias:Premiações, Teatro

Copa? Não. Seriado e Teatro.

Eu, ao contrário do restante do Brasil e do mundo, não acompanhei o show de abertura da Copa do Mundo 2010. De fato, dificilmente verei algum jogo que não seja do Brasil – o que eu também só farei porque é inevitável. Não gosto e não entendo de futebol, e acho uó esse falso patriotismo que só existe a cada quatro anos. Sem contar que essa obsessão dos brasileiros por futebol ainda faz com que qualquer outra opção de esporte seja subvalorizada em território nacional. Ah, e até eu que entendo lhufas do que está se passando na África do Sul sei que as chances do timeco do Dunga levantar a taça são as mesmas de Stephanie Meyer escrever um livro bom. Reconheço o senso de união e torcida coletiva que este evento traz ao país, mas insisto que o povo está se vestindo de verde e amarelo pelos motivos errados.

Opção Melhor que a Copa #1: US of Tara

Mas este nunca foi um blog político ou demagogo, e não é a partir de agora que passará a ser. Essa introdução foi só para fazer um apanhado do que tenho feito, assistido ou ouvido nos últimos dias. Como continuo em falta com o cinema, vou comentar brevemente o que tenho acompanhado nas outras mídias. Junto de “Glee”, encerrou sua temporada a excelente “United States of Tara”, cuja evolução em relação ao ano anterior foi notável. Tudo na série criada por Diablo Cody, a premiada roteirista de “Juno”, estava no devido lugar: do drama da protagonista, que sofre de um distúrbio de múltiplas personalidades em função de um trauma que vai sendo revelado aos poucos, à auto-aceitação do filho adolescente gay. Até mesmo Charmaine, que a princípio era um apêndice, se tornou mais integrada ao núcleo da Tara depois de perceber que a irmã realmente foi traumatizada, e que de alguma forma ela compartilhou desse abuso. Rosemarie De Witt esteve maravilhosa no papel. Não deve ter forças pra chegar ao Emmy, mas merece todo e qualquer reconhecimento junto da principal Toni Collette. Apenas o enredo da filha Kate continua parecendo muito desconexo ao restante do plot, mas isso é algo que pode ser corrigido na terceira temporada.

Opção Melhor que a Copa #2: Hairspray

Entrementes, dei uma segunda chance à “Hairspray”, musical que está saindo de cartaz em São Paulo depois de uma temporada bem-sucedida no Teatro Bradesco. E bota sucesso nisso! O Bradesco tem quase dois mil lugares, e tem lotado em todas as quatro sessões semanais. Resultado do ótimo trabalho de divulgação e, é claro, dos nomes conhecidos à frente do elenco, como os globais Edson Celulari, Arlette Salles, Danielle Winits e Jonatas Faro. Pois é: a esmagadora maioria das pessoas só vai ao teatro na tentativa de assistir novela ao vivo. Mesmo “Hairspray” sendo uma produção premiada da Broadway, não manteria a casa cheia com a mesma facilidade se Miguel Falabella, o responsável pela adaptação, não trouxesse o elenco principal da TV (a exceção fica por conta da protagonista, a eficiente Simone Gutierrez). Já comentei na minha resenha original que parte dessa escalação foi equivocada, e que apenas Celulari rende em todo o seu potencial cômico. Na sessão que eu vi dessa vez, Winits e Faro faltaram e foram substituídos, mas os alternantes também não são grande coisa. Devo reconhecer, no entanto, que “Hairspray” é um espetáculo para cima, empolgante, inspirador – sensações que os cenários coloridos, as caracterizações impecáveis e as danças bem coreografadas ajudam a reforçar. Relevando o plot bagunçado, alguns problemas com o microfone, e a pavorosa tradução das canções, dá para se divertir com muito custo.

Mais alguém está boicotando a Copa pra dar prioridade a coisas mais interessantes?

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