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Reverência ao clássico

Da ilustre coleção de suspenses que compõe a carreira de Alfred Hitchcock, costuma-se destacar, em número e grau, “Janela Indiscreta”, “Um Corpo Que Cai” e “Psicose”, uma trinca de filmes brilhantes que conseguiram preservar suas qualidades intactas ao longo das décadas. Mas, talvez, um quarto exemplar possa ser adicionado a essa seleção, tanto pela atemporalidade como pelos enquadramentos magistrais, que só mesmo um cineasta em pleno domínio da técnica seria capaz de conceber. Refiro-me a “Festim Diabólico”, que Hitchcock rodou em 1948, tendo como base uma peça teatral honônima.

O filme não nega a origem no proscênio: a duração não extrapola os 80 minutos, todos os quais dados em tempo real e num único cenário – a sala de um apartamento -, e os atores desempenham seus papeis com interferências mínimas. Há cerca de dez cortes na metragem, alguns deles ocultos. Em planos-sequência que variam de quatro a dez minutos, a câmera passeia pelo set, se esquivando milagrosamente de objetos decorativos, e capta sempre com precisão as ações e reações dos personagens que interessam para o roteiro. Planos assim, de elaboração complicadíssima, costumam servir apenas como um adereço estético ou sinal de exibicionismo dos diretores. É raro acontecer como aqui: as longas tomadas são imprescindíveis para que a continuidade da narrativa não seja comprometida, e as idas e vindas da câmera traduzem, com particularidade, o estado de espírito dos personagens, que nem sempre parecem andar em terreno firme. Além disso, ajuda a manter o foco num certo baú que esconde muito mais do que sugere.

Na trama, dois homens esclarecidos e graduados cometem um assassinato simplesmente pelo prazer de perpetrar o crime perfeito. A experiência, encarada por ambos como um desafio intelectual, deixa como vítima um ex-colega de faculdade, a quem sufocam com uma corda até a morte logo na cena inicial. Mas, matá-lo apenas pelo ato de matar, para logo em seguida desaparecer com o corpo, não consistiria na excitação que eles – ou um deles – procuram. Brandon, o mais arguto dos rapazes, oferece um jantar no seu apartamento minutos após o crime, para o qual são convidados os familiares, a namorada e o melhor amigo do falecido. Durante toda a festa, ninguém parece desconfiar que, dentro da arca ao centro da sala, está o defunto de alguém tão próximo – mas o público conhece a verdade, e testemunha com tensão crescente o apanhado jogo cênico que se desenrola.

Apenas um personagem começa a acompanhar o raciocínio do espectador: um professor da época da universidade, que é convidado à ocasião justamente para aderir um pouco de vinagre à salada. Brandon, em sua mentalidade distorcida, se inspira nesse professor – foi dele que extraiu os conceitos deturpados com os quais justifica o crime hediondo –, e saboreia as possibilidades do mestre vir a descobrir todo o esquema. Mais que isso, espera ser parabenizado pelo feito (em contrapartida, o cúmplice Phillip, cuja sociopatia é menos acentuada, está sucumbindo à pressão e vencendo os passos que faltam para perder o controle). No papel do professor está James Stewart, por anos o ator mais confiável de Hollywood. Se é fato que Hitchcock não era o diretor mais solícito e afável para com o elenco – é famosa a sua declaração de que “atores devem ser tratados como gado” –, ao menos é indiscutível que ele e Stewart mantinham uma relação de mútuo respeito e, no cunho profissional, de fertilização criativa (ele também protagonizou “Janela Indiscreta” e “Um Corpo Que Cai”, que emplacam entre suas melhores performances).

Mas, é mesmo por trabalhar com um tema que conhece e domina que Hitchcock chega ao resultado extraordinário. Em sua obra, está presente, com maior ou menor sutileza, a constatação de que o cidadão comum é, por natureza, imprevisível em suas ações – o que, contextualizado na explosiva sociedade americana, na qual o crime e a celebridade sempre andaram lado a lado, é receita certa para o desastre. Que o diga “Festim Diabólico”: a trama foi livremente inspirada no caso real de Nathan Leopold e Richard Loeb, dois estudantes superdotados da Universidade de Chicago que assassinaram e incineraram um adolescente em 1924, com motivações idênticas às dos personagens do filme. Uma tragédia à modo americano que, como dita a própria cultura, foi transformada em entretenimento de primeira e, nas mãos de Hitchcock, em pura arte.

.:. Festim Diabólico (Rope, 1948, dirigido por Alfred Hitchcock). Cotação: A+

Categorias:Cinema
  1. annastesia
    24 dezembro 2010 às 6:37 am

    Reverência ao mestre de todos, Hitch! Adoro Festim diabólico! Festim e Janela indiscreta são os filmes de Hitch que mais gosto. E por acaso, muito por acaso, os dois tem a presença do fofíssimo Jimmy Stewart. Parabéns pelo texto e pelo blog. Feliz Natal!

  2. 24 dezembro 2010 às 8:37 am

    Este foi um dos primeiros filmes de Hitchcock a que assisti, e certamente preciso revê-lo. No entanto, lembro-me de ter adorado, como é comum com filmes desse maravilhoso diretor. Não sabia que havia uma história real por trás (já que o único filme seu que Hitchcock diz ser baseado em fato verídico é O HOMEM ERRADO), mas isso nem é de se espantar. Ótimo texto. Minha nota para o filme no IMDb está 7/10.

    • 25 dezembro 2010 às 11:45 am

      Annastesia, obrigado pelos parabéns. Sempre bom trocar ideia com uma fã do Hitch😉 Um Feliz Natal pra você também.

      Mateus, não só foi inspirado numa história real, como o mesmo caso baseou vários filmes diferentes e é até hoje conhecido nos Estados Unidos! Obrigado pelo elogio. Minha nota, como você percebe, está um pouco mais alta que a sua rsrs…

  3. Mark
    25 dezembro 2010 às 10:10 pm

    Nooooossa. Eu amo, amo esse filme.

  4. Indara
    27 dezembro 2010 às 5:08 am

    Definitivamente um dos melhores do Hitchcock. Gosto mais dele do que de “Vertigo”, que é bem mais famoso.

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