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O Nosso Lar americano

À princípio, “Além da Vida”, o novo filme de Clint Eastwood, se assemelha a uma versão do brasileiro “Nosso Lar” feita com as técnicas e recursos do cinema americano. Logo na primeira cena, uma jornalista francesa está de férias na Tailândia quando acontece o fatídico tsunami. Ela se salva, mas é por pouco – o incidente a deixa seriamente machucada, e por breves instantes, faz com que tenha vislumbres do pós-vida antes de recobrar a consciência. No além, as imagens são pouco definidas, mas percebe-se que os que partiram experimentam um certo tipo de paz. Impressionada pelo que viu e sentiu, a mulher se afasta do serviço e se dedica à elaboração de um livro com testemunhos de pessoas que alegam ter visitado o além.

Conforme a trama avança, o escopo de “Nosso Lar” vai se dissipando – para o bem da plateia, as constrangedoras sequências em plano espiritual são limitadas -, mas “Além da Vida” permanece irregular até a conclusão. Isso porque o enredo da jornalista corresponde apenas a um terço do filme: os outros dois apresentam histórias paralelas, uma delas protagonizada por um garotinho inglês que viu o irmão gêmeo morrer atropelado, e a segunda por um vidente que tenta ignorar o dom de se comunicar com os mortos. O personagem, interpretado por Matt Damon, é de longe o menos interessante do terceto – e, ainda assim, é ele quem tem o nome e o rosto em destaque nos materiais de divulgação.

A deficiência parte do roteiro de Peter Morgan, que, quando o introduz, afirma categoricamente que as visões que o atormentam (que chegam involuntariamente em flashs, sempre que ele toca as pessoas) são reais e indiscutíveis. Para o ser humano, sofismar sobre o pós-vida é uma necessidade, e jamais obter respostas concretas para uma infinidade de perguntas é justamente o que constitui o mistério. Ainda que não tome partido de religiões, “Além da Vida” reconhece, pelo papel de Damon, a plena existência de um plano espiritual. É, enfim, uma visão intransigente e em preto-e-branco, que só não anula o filme por completo porque as demais histórias o colorem com tons de cinza.

É de se espantar que Morgan, um roteirista e dramaturgo voltado a causas políticas (foi ele quem escreveu “O Último Rei da Escócia”, “A Rainha” e “Frost/Nixon”, só para citar alguns), tenha optado por abordar um tema teísta, e há indícios de que ele condensa na jornalista várias de suas convicções pessoais (ela, também especializada em reportagens politizadas, é rejeitada no meio editorial quando decide escrever um livro voltado a outro nicho). Também não é um filme que se associaria à Clint Eastwood, que, como de praxe, assina a direção e a produção e compõe a trilha sonora. Ele é bom no que faz, mas imprime pouco de sua marca pessoal: se geralmente preza por cenas econômicas e enxutas, aqui as concebe infladas, emotivas e estendidas além da conta. Rende-se, ainda, a um final convencional que tem um tantinho covarde e um bocado cafona. “Nosso Lar”, ao menos, tinha apenas a cafonice.

.:. Além da Vida (Hereafter, 2010, dirigido por Clint Eastwood). Cotação: C-

Categorias:Cinema
  1. 22 dezembro 2010 às 1:47 am

    Que pena que o filme não agrada muito. A gente sempre espera algo excelente de uma obra do Clint Eastwood, ainda mais quando temos roteiro de Peter Morgan! Beijo!

    • 22 dezembro 2010 às 2:06 am

      Ka, pois é. Infelizmente, o timbre pessoal dos dois é quase inexistente nesse filme! Beijo.

  2. annastesia
    25 dezembro 2010 às 10:40 pm

    Quando não gosto de um trailer, normalmente é um sinal dos deuses para que eu fique em casa meditando. Sem contar que há 80% de chances do filme não ser lá essas coisas (o que normalmente acontece). Admiro muito o trabalho de Clint Eastwood, mas esse Hereafter não está me convencendo. Espero sinceramente estar enganada, mas quando não gosto de um trailer…

    • 26 dezembro 2010 às 7:31 am

      Annastesia, geralmente também consigo formar uma boa (ou má) impressão de como o filme será pelo trailer. As vezes me surpreendo. Com esse aqui, acho que você vai mesmo se desapontar😦

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