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Trabalho sujo (e atrasado)

Rose está com problemas: seu filho foi diagnosticado com déficit de atenção e será expulso da escola pública caso não comece a se controlar à base de medicamentos; ela se opõe à solução, mas sabe que o plano B – matriculá-lo numa escola particular – está além de suas posses, já que a ocupação de diarista mal cobre o sustento do lar (e, afinal, é humilhante o suficiente limpar as casas de suas ex-colegas de escola, que contemplam com prazer secreto a cheerleader que não concretizou seus sonhos de adolescente). O ex-namorado, que se casou com outra mulher e agora é seu amante, faz parte da força policial e diz que pode ajudá-la a potencializar o lucro das faxinas: ele a indicaria para a limpeza de cenas de crime. Basicamente, ela colocaria em ordem locais onde ocorreram homicídios e outros incidentes tortuosos, após as autoridades concluírem as investigações.

Rose topa de imediato, mas, como a tarefa não é fácil, chama para auxiliá-la a irmã caçula, Norah, que também não se encontra na vida (ainda vive com o pai e conseguiu ser demitida do emprego de garçonete). Eventualmente, as irmãs conseguem agregar ao trabalho braçal um propósito mais nobre – varrer as evidências físicas de uma perda pode ser o primeiro passo para curar as feridas psicológicas, ou, no mínimo, um estágio inicial para que os familiares das vítimas superem o luto. E ambas entendem algo sobre isso: a mãe cometeu suicídio quando elas ainda eram pequenas, algo que a mais nova, depois do contato esporádico com mortes trágicas, começa a repensar (inclusive, aproxima-se da filha de uma das vítimas com que trabalhou, dando início a um caso lésbico). Expostos esses conflitos, temos a partitura da dramédia “Trabalho Sujo”, que a Europa Filmes estreia no Brasil em 24 de dezembro, com um atraso de quase dois anos em relação ao lançamento original.

Em teoria, este foi um daqueles exemplares do cinema independente americano que festivais como o de Sundance adoram impulsionar para uma carreira mundial. Na prática, porém, não foi bem assim que aconteceu. O filme foi recebido com discrição, não repercutiu em outros círculos, e sequer proporcionou atenção às jovens estrelas Amy Adams e Emily Blunt – respectivamente, Rose e Norah. Em suma, trata-se de é um desses projetos que os atores topam fazer por prestígio, correndo o risco junto do diretor. Afinal, os filmes independentes costumam abrigar os personagens mais humanos e rendem, em detrimento do cachê gordo, possibilidades de prêmios e críticas sólidas.

A diretora Christine Jeffs tinha conduzido anteriormente uma insípida cinebiografia de Sylvia Plath, com Gwyneth Paltrow no papel principal. O filme em questão era, em sua essência, lúgubre e marcial. “Trabalho Sujo” poderia ter ido pelo mesmo caminho e é sintomático que falhe em consistência justamente quando pende para o drama. Não dá para disfarçar que, independente da premissa inusitada, o arco das protagonistas é planíssimo, e o adultério da primeira e a falta de rumo da segunda não servem como propulsores da catarse que o roteiro almeja. Quando suavizada pelo humor, porém, a trama exala calor e empatia. Tivesse Jeffs uniformizado o ritmo, o filme teria correspondido a uma experiência mais agradável. Do jeito que está, é mais um formulaico produto indie. Do tipo que nem todo mundo vai se dispor a consumir.

.:. Trabalho Sujo (Sunshine Cleaning, 2008, dirigido por Christine Jeffs). Cotação: B-

Categorias:Cinema
  1. 17 dezembro 2010 às 12:31 am

    ah, mas com essA elencA lindA, até dá vontade de ver. amo a Blunt e amo ainda mais a Adams.
    fofas.
    😉

  2. 17 dezembro 2010 às 1:34 am

    Adoro Amy Adams e Emily Blunt e conferirei este filme por causa, exclusivamente, delas! Beijos!

    • 18 dezembro 2010 às 3:32 am

      Quéroul, foi por causa das duas que eu acabei vendo também!!🙂

      Ka, mesmo motivo que eu. Mas tem alguns méritos além delas. Beijos!

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