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Rabbit Hole

Nem sempre uma produção da Broadway conta com nomes conhecidos na escala que o cinema exige, de modo que os estúdios geralmente optam por repaginar o elenco quando transformam em filme um drama ou musical aclamado nos palcos. O exemplo mais recente desse esquema é “Rabbit Hole”, peça que venceu o Pullitzer em 2006, sobre um casal que lida com a perda do filho pequeno. A atriz Cynthia Nixon (“Sex and the City”) ganhou pela interpretação todos os prêmios do teatro, incluindo o mais conceituado Tony, – mas, como seria inviável colocá-la como protagonista do filme homônimo (por mais que ela já conhecesse a personagem a fundo e muito provavelmente fizesse miséria em cena), a mais famosa Nicole Kidman entrou em seu lugar.

Nicole foi crucial para que essa adaptação ganhasse forma: ela assina como produtora e basicamente emprega a si mesma. Talvez só mesmo com um trabalho autônomo fosse voltar a se encontrar. Nos últimos anos, vinha sendo vilipendiada por priorizar a beleza estética à expressividade (o botóx excessivo a reduziu a uma caricatura), e já não dispunha dos bons papéis que, somados ao talento, fizeram dela uma das grandes atrizes do início da década passada. “Rabbit Hole” é, portanto, um projeto pessoal – porém, um projeto de vaidade. Durante a projeção, Nicole e Aaron Eckhart, o ator escolhido para lhe fazer companhia, sofrem tanto em silêncio como em alto e bom som. Exibem, enfim, todo o repertório que o público costuma associar a boa atuação. Numa análise mais racional, contudo, essas composições não soam orgânicas: parecem esculpidas de fora para dentro e friamente calculadas para chegar ao radar das premiações.

Aliás, essa é a sensação deixada por todo o filme, que se inicia sem dar indícios da tragédia que se abateu sobre aquele casal (não há fotos do garoto pela casa, mas a sensação de vazio é indelével), para só depois ir se explicando. Fosse sobre uma família brasileira, as demonstrações de luto seriam mais efusivas, mas em se tratando de um núcleo americano, os ressentimentos serão engolidos em seco e as acusações serão caladas. Os personagens têm consciência de que a morte do filho se deve ao acaso – o menino foi atropelado enquanto perseguia o cachorro pela rua -, mas nem por isso deixa de se entrincheirar, comprometendo também as demais relações familiares (a heroína se estranha com a mãe e a irmã grávida, interpretadas por Dianne Wiest e Tammy Blanchard).

Entrementes, ambos desenvolvem seus próprios mecanismos para lidar com a perda: ele começa a frequentar um grupo de apoio para pais em luto, mas passa parte dessas reuniões fumando maconha no carro com uma das mães; e ela vai atrás do rapaz responsável pelo atropelamento, não para culpá-lo, mas por notar o surgimento de um vínculo incomum entre eles (uma das deficiências mais evidentes do filme é o fraquíssimo Miles Teller, o desconhecido que ficou com o papel). Depois de desenhada a ação, os eventos transcorrem num ritmo razoável – não fica a sensação de uma narrativa truncada e episódica, mas às vezes as atitudes dos personagens não são condizentes (parecem estar amadurecendo ou se encaminhando para uma catarse, mas voltam a cair nas mesmas armadilhas).

A direção, dizem que por exigência de Kidman, ficou a cargo de John Cameron Mitchell, cuja experiência teatral era relegada aos musicais (ele concebeu para a Off-Broadway “Hedwig e o Centímetro Enfurecido”) e a cinematográfica, a filmes um quanto subversivos (dirigira um longa baseado em “Hedwig” e o explícito “Shortbus”). Sua inventividade latente é moderada pelas restrições do enredo, mas ele se permite certos floreios visuais discretos e elegantes (repare nas ilustrações de um gibi intitulado “Rabbit Hole”, ou toca do coelho, uma metáfora que é explicada pelos diálogos). Por outro lado, pisa em falso em momentos inadmissíveis – a câmera lenta no flashback do atropelamento é constrangedora, e a trilha que demarca a cena tampouco colabora. Num resumo geral, a ação não parece se dar num proscênio, e embora não possua a verve de uma adaptação como a que teria feito Mike Nichols – que “filma teatro” com mais precisão que qualquer outro cineasta -, tem o suficiente para constituir um drama sólido. Quem sai ganhando é Nicole Kidman, que está mais perto que nunca de conseguir a terceira indicação ao Oscar da carreira. É mesmo vantajoso ser seu próprio patrão!

.:. Rabbit Hole (Idem, 2010, dirigido por John Cameron Mitchell). Cotação: B-

Categorias:Cinema
  1. 14 dezembro 2010 às 2:45 pm

    vi que Nicolão tá na lista do Globo de Ouro por esse filme.
    e meu amoooooooooooor Ryan Gosling tb! por Blue valentine, que eu muito quero ver (ele e a Michelle). e como não vi nada mesmo, vou aqui torcer pelos queridinhos do coração.😛

    • 14 dezembro 2010 às 10:44 pm

      Quéroul, pois é, e também deve entrar na lista do Oscar. É um trabalho sólido, mas não acho que careça de indicação.

      Fiz agora um post sobre os Globos. Fiquei SUPER feliz pela inclusão de Ryan e Michelle🙂

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