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O que deu errado

O primeiro “Crônicas de Nárnia” foi planejado pela Disney como uma resposta ao “Harry Potter” da Warner. O estúdio estava em busca de um material de forte apelo infanto-juvenil – de preferência, baseado numa obra consagrada da literatura britânica – que pudesse ser pasteurizado numa franquia bilionária de fantasia. Essa ambição bem definida deu carta branca à produção de “O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa”, adaptado do primeiro livro de uma série de sete escritos por C.S. Lewis entre 1949 e 1954 (ainda que não tivessem grande reputação no Brasil, os exemplares sempre foram amplamente admirados na Inglaterra, e a própria autora de “Harry Potter”, J. K. Rowling, chegou a citá-los como fonte de inspiração).

No entanto, a série cinematográfica que parecia promissora derrapou já no segundo volume, quando a bilheteria de “Príncipe Caspian” ficou aquém do esperado e mal cobriu os gastos de produção e marketing. Eis que a Disney, que de boba não tem nada, decidiu que não mais seguraria aquela alça de caixão e se desligou da terceira parte, “As Crônicas de Nárnia – A Viagem do Peregrino da Alvorada”, que já tinha sido encomendada. O filme, que estreia no Brasil simultaneamente aos Estados Unidos, foi arcado somente pela Walden Media, e sua recepção será decisiva para a realização dos quatro seguintes (numa jogada mequetrefe, tentaram inflar o preço do ingresso com exibições em 3D, apesar da terceira dimensão ter sido inserida mal e porcamente na pós-produção).

A verdade é que a saga não fará falta. Não tem admiradores fervorosos que a aguardam com ansiedade, tampouco uma história sólida para desenvolver num plano contínuo (a trama deste aqui, assim como a dos anteriores, tem escopo religioso, em especial na figura do Leão Aslam, dublado por Liam Neeson, que seria uma representação de Deus). Os heróis nunca foram carismáticos, e tampouco seus intérpretes – atores deficientes que cresceram muito mal – causam boa impressão. Ao menos, há a presença do galã Ben Barnes, reprisando o papel de Caspian, o comediante Simon Pegg emprestando a voz a um ratinho, e até mesmo uma ponta de Tilda Swinton, a vilã do primeiro filme, que retorna em alucinações.

Assim como nos livros, os protagonistas vão sendo substituídos à medida em que se tornam adultos, e há a deixa para que o primo dos garotos – um menino mimado chamado Eustáquio – seja o herói da próxima parte (para a sorte do público, o ator que o interpreta, Will Poulter, é muito promissor e tem excelente timing para comédia). Não vale a pena discorrer sobre o enredo em si: há uma ladainha sobre uma névoa verde e nobres cavaleiros desaparecidos, mas a plateia absorve apenas uma sucessão de episódios desconexos, envolvendo esgrima (as cenas de “capa e espada” são banais em coreografia e execução) e sequências em alto mar (Peregrino da Alvorada é o nome do navio aonde se dá o clímax da aventura, com momentos até razoáveis).

Os efeitos são displicentes e, frente ao corte no orçamento, satisfatórios. Satisfação, porém, não é uma garantia deste terceiro filme. Aos menos exigentes, pode convencer como diversão supérflua e passageira. Para os demais, vai soar tão desnecessário e esquecível quanto foi para a Disney, o estúdio que um dia acreditou no seu potencial, mas que deixou de vê-lo como sinônimo de credibilidade.

.:. As Crônicas de Nárnia – A Viagem do Peregrino da Alvorada (The Chronicles of Narnia – The Voyage of the Dawn Treader, 2010, dirigido por Michael Apted). Cotação: C-

Categorias:Cinema
  1. Jecik
    12 dezembro 2010 às 1:53 am

    Nossa, tempo que eu não vinha aqui.
    Cheguei em tempo de comentar pela minha atual decepção no cinema. Não vi ainda este último, mas aguardei O Pricipe Caspian com devoção (de verdade) e me decepcionei muito. Vou assistir esse só pra morrer de saudade de quando eu li os livros e me apaixonei pela estória. Pelo que eu vi do trailer, esse tá bem diferente da estória original, da qual parece só pegar o nome e os personagens principais.
    Ah Louis, só pra corrigir rapidinho, O leão, a feiticeira e o quarda-roupa é baseado no segundo livro da série na ordem dos fatos. É o primeiro a ser publicado, mas não é o inicio de verdade da estória. O primeiro (O sobrinho do mago) foi deixado de lado, já que o segundo oferecia mais ação e um possivel sucesso maior.

    ^^

    • 12 dezembro 2010 às 6:20 am

      Jecik, há quanto tempo! Pelo visto, você é bem mais informada em relação às Crônicas que eu🙂 Como fã ou conhecedora da franquia, passe aqui depois de ver A Viagem do Peregrino da Alvorada pra dizer o que achou. Beijo!

  2. 12 dezembro 2010 às 2:02 pm

    nunca assisti, nem li, nem nada. Narnia ainda não me comoveu o suficiente pra me mobilizar…

    em compensação Percy Jackson… AMOR VERDADEIRO AMOR ETEEEERNO.
    (tá, tem nada a ver, mas sinto que minha função de vida é mostrar que Percy pode ser o novo Harry… ainda mais porque é uma cópia descarada mesmo; aquele Rick Riordan é um pilantrinha).

  3. 12 dezembro 2010 às 5:47 pm

    A série “As Crônicas de Nárnia” tinha TUDO pra dar certo…. TUDO! Uma pena isso, porque eu adoro o primeiro filme e acho que, de lá para cá, o universo decaiu demais. Vou assistir o próximo filme mais tarde, com o coração partido, depois de ler seu texto. Beijos!

    • 13 dezembro 2010 às 6:22 am

      Quéroul, preciso pegar Percy Jackson “pra gostar”. Sei que se tiver os livros em mãos, vai ser muito amor. O filme em si deu a entender que eu me conectaria com a história, mas não foi o suficiente pra me ganhar!

      Ka, mesmo do primeiro filme eu não gostei muito, mas concordo que a franquia tinha um potencial imenso, e é uma pena que tenha fracassado dessa maneira! Beijos.

  4. Jecik
    19 dezembro 2010 às 10:55 am

    Pois bem, voltei e aqui vai.
    Eles podiam ter feito como no primeiro e se mantido fieis ao livro (seria uma ideia melhor do que as mudanças que fizeram). O segundo teria sido melhor e esse não teria que inventar tanto pra prosseguir com a sequencia. Assisti em 3D e, como sabia, gastei mais dinheiro do que merecia ser gasto.
    Ao meu ver é um filme bonzinho. A estória ficou um tanto confusa, e em alguns momentos eu me perguntava “mas agora eles estão indo atrás de que mesmo?” Imagino crianças de 10 anos compreenderam a estória (e minha sessão tinha várias delas). Em suma, é realmente um filme esquecível e deixa dúvidas, pela bilheteria e tudo mais, se haverá um próximo. E pelas minhas contas, haveriam apenas mais 2 (“A caderia de prata” e “A última batalha”), visto que os outros já foram cortados na ordem dos fatos. A não ser que, surpreendentemente, eles comecem a dar mais dinheiro e façam as histórias que foram cortadas (que não valem a pena ao meu ver).
    Bjo.

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