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Cabine: Harry Potter e as Relíquias da Morte (Parte 1)

A escritora britânica J.K. Rowling planejou a saga do bruxinho Harry Potter para que o herói crescesse e amadurecesse junto de seus leitores. Isso é muito perceptível quando se folheia a coleção completa, atento às mudanças no tom e na estrutura desde o primeiro livro, lançado em 1997, até o sétimo, publicado dez anos depois. Se, a princípio, a série era assumidamente infantil, com o decorrer dos volumes os problemas enfrentados pelo protagonista se tornaram mais espinhosos, e a narrativa, cada vez mais séria e soturna.

O mesmo pode ser avaliado pelas versões cinematográficas. Os primeiros filmes, dirigidos sem qualquer sopro de inspiração por Chris Columbus, eram solares, coloridos e pueris. Já o terceiro – que deve muito a Alfonso Cuarón, responsável por dar novo escopo à série nos cinemas – começava a sugerir que, num mundo mágico, o que há de sonho há também de pesadelo. O quarto, comandado por Mike Newell, trazia a primeira morte crucial da saga e atestava, por fim, que os personagens, assim como os atores que os interpretam, não eram mais crianças inocentes. A partir do quinto, a direção ficou por conta de David Yates, que não se afastou do cargo desde então e que deve ser louvado por manter a atmosfera crescente (foi no sexto, “O Enigma do Príncipe”, que ele chegou ao ápice e imprimiu algo de pessoal no que poderia ser genérico).

Na sétima e última parte, “As Relíquias da Morte”, Harry atinge a idade adulta e, como tal, tem de abandonar o mundo literalmente protegido em que vivia – os limites encantados da Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts – para abraçar o desconhecido – afinal, o universo que o rodeia está mergulhado no caos, desde que Lord Voldemort, o bruxo das trevas mais poderoso de todos os tempos, instaurou uma ditadura através de seus asseclas. Mas a maior recompensa para o vilão seria exterminar Harry Potter de uma vez por todas, já que uma certa profecia antecipou que, no final, um deles terá de encerrar a vida do outro – e, em todas as ocasiões em que ficaram frente à frente, Harry acabou frustrando os planos do rival.

Não que Harry seja um bruxo excepcionalmente talentoso: ele apenas dá valor às suas virtudes e cultiva amigos preciosos, dos membros da Ordem da Fênix, organização que luta contra a magia negra, aos íntimos Rony e Hermione, que o acompanham na longa jornada do último livro. Forçados a abandonar o castelo de Hogwarts e a viver como fugitivos, os três se deslocam entre as colinas verdes da Inglaterra e as florestas inóspitas da Albânia, enquanto tentam dar continuidade à missão do Professor Dumbledore, morto no encerramento do “Enigma”, que rastreava os esconderijos das Horcruxes de Voldemort (objetos encantados nos quais o lorde depositara fragmentos de sua alma na ambição de se tornar imortal).

“As Relíquias da Morte” chegará aos cinemas dividido em duas partes – a primeira estreia nessa sexta-feira, 19 de novembro, e a segunda, em julho próximo. A posição oficial da Warner é a de que um filme somente não faria jus ao potencial artístico da história. Os mais cínicos insistem que a decisão foi puramente comercial (afinal, “Harry Potter” é a franquia mais rentável da História do cinema, e o estúdio não quer abrir mão da sua galinha de ovos de ouro). Independente das intenções, é fato que “As Relíquias” se trata do livro mais difícil de adaptar, pois, para amarrar as pontas soltas espalhadas pelos seis volumes anteriores, a autora resgata inúmeros personagens e situações, muitos dos quais reduzidos ou suprimidos nos filmes passados.

O roteirista Steve Kloves foi capaz de integrar esses novos fatos à trama, formulando em míseros diálogos o que Rowling levara capítulos inteiros para desenvolver. A divisão dos filmes dá a chance dos acontecimentos ganharem vida sem pressa – a calmaria, aliás, chega a passar da conta, e mais do que ocasionalmente esse sétimo filme resulta lento e monótono. As sequências de ação e aventura, porém, não decepcionam e atingem proporções que a escrita apenas vislumbra. Com mais tempo para dispensar, este é o filme mais fiel ao material original dentre os sete já lançados, e dentro desses limites, Yates até consegue seguir seu próprio estilo (em comparação, as adaptações do Chris Columbus, que também eram regradas em relação aos livros, costumavam ser bem ordinárias). Mas, ainda assim, o diretor fica um degrau abaixo do que demonstrou no “Enigma”.

Entrementes, o trio principal nunca esteve tão bem, e após uma década de relacionamento com os personagens, finalmente parece compreendê-los. Mesmo tendo crescido mal, Daniel Radcliffe começa a reforçar as qualidades mais nobres de Harry Potter, enquanto o ruivo Rupert Grint rouba as atenções como o alívio cômico do terceto e Emma Watson demonstra maturidade, desprovida dos tiques incômodos de outrora (como resumir toda a expressão facial às arqueadas de sobrancelhas). Veteranos consagrados do teatro e do cinema inglês lhes fazem companhia, mas, novamente, são meros coadjuvantes às estrelas juvenis. Ralph Fiennes reprisa o papel de Voldermort, irreconhecível sob a maquiagem pesada, mas não especialmente assustador. Nas breves aparições, alguns, como Jason Isaacs (Lúcio Malfoy) e Helena Bonham Carter (Bellatrix Lestrange), conseguem provar seu propósito; outros, como o recém-chegado Bill Nighy (o novo Ministro da Magia), nem chegam a ter a chance.

Os ares de superprodução continuam evidentes, e claramente o estúdio não fez concessões no orçamento. Os efeitos são convincentes, a direção de arte é de encher os olhos e a fotografia, ora fria, ora sombria, é bastante adequada. O visual como um todo, planejado inicialmente para ser convertido para 3D (as cópias não ficaram prontas a tempo e estréiam nas duas dimensões tradicionais), realmente inspira à grandeza. Um momento em particular, que se utiliza de animação para narrar um conto infantil, é o mais inspirado dessa primeira parte. Por outro lado, a nova trilha sonora, composta por Alexandre Desplat, é neutra e apagada, inferior ao trabalho notável de Nicholas Hooper e ao antigo de John Williams. A edição também parece desleixada, abusando demais da tela preta para simbolizar o término de um ato e não delineando com precisão a quantidade de tempo que transcorre entre evento A e B.

Por fim, o encerramento de “Harry Potter e As Relíquias da Morte – Parte 1” é tão abrupto que sequer cria as deixas corretas para o filme seguinte. Traçando uma comparação inevitável com a saga “O Senhor dos Anéis”, dividida em três filmes, percebemos que a obra de Tolkien originou longas mais auto-suficientes. Mesmo que a história fosse contínua, cada volume de “Senhor dos Anéis” fechava seu próprio ciclo interno antes de dar início ao outro. Nesse quesito, “Harry Potter” fica devendo um pouco em simetria e coesão. Que a segunda parte coloque o ponto final definitivo nessa aventura épica com um pouco mais de certeza e elegância!

.:. Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 1 (Harry Potter and the Deathly Hallows – Part 1, 2010, dirigido por David Yates). Cotação: B-

Categorias:Cinema
  1. 16 novembro 2010 às 6:45 pm

    preciso rever a saga inteira, rs
    já me perdi na história de Harry!

    abs,
    sebosaukerl.blogspot.com

  2. 17 novembro 2010 às 1:33 am

    Devo assistir este filme domingo. E tô sem expectativa alguma. Você sabe que não sou a maior fã dessa franquia. Beijo!

    • 17 novembro 2010 às 1:51 am

      Sebo, pra quem não leu os livros fica complicado mesmo!

      Ka, sei sim, mas não compreendo como você pode gostar de Twilight e ignorar Harry Potter! Hahahaha! Beijo😉

  3. 17 novembro 2010 às 2:02 am

    vou ver na outra semana só… semana de lançamento acho que não vai ser muito saudável.
    😉

    • 18 novembro 2010 às 9:52 pm

      Quéroul, eu que o diga! Sessão com fãzóide é foda, e olha que os pottermaníacos são muito mais maduros e maleáveis que os crepusculetes.

  4. Lucy
    20 novembro 2010 às 4:34 pm

    (fazia tempo q eu não passava aqui – correndo que nem uma doida na vida “real” – mas como eu lembrava de já ter visto comentários do Harry aqui, logo pensei “Louis deve ter visto e eu quero mto saber oq ele achou!”)

    Fui na midnight screening e amei cada minuto.

    Tô indo de novo, hj a noite ou no máximo amanhã (fã neurótica é fogo!)

    Mas tenho que discordar de vc… Eu estava esperando um final muito mais anticlimático do que foi… Na verdade, achei muito boa a forma como eles escolheram cortar o filme… Não dá pra comparar com SdA pq, naquele caso, os livros foram escritos com começo, meio e fim, então era mais fácil colocar nos filmes essa sensação (e, mesmo assim, conheço pessoas que ao verem o final do primeiro filme – sem conhecer os livros – se revoltaram horrores por não terem entendido nada…). Eu não sabia onde ia ser o corte, mas dava pra sentir que o fim estava próximo e me bateu um certo desespero… Mto injusto ter que esperar até o ano que vem, eu diria… =-P

    Mas achei, sinceramente, que essa é a melhor adaptação até agora. Fico feliz pela WB ter definido o Yates para os filmes finais, porque fica claro que ele está seguro e confortável para fazer td da melhor forma possível… Verei, é claro, mais infinitas vezes…

    • 20 novembro 2010 às 9:57 pm

      Lucy, fico feliz que tenha voltado para uma visitinha🙂

      Eu acho que a trama se dilui com essa divisão e que ficou faltando algumas explicações elementares (não chamam atenção para o fato da varinha do Harry ter agido sozinha e não explicam que o nome Voldemort foi azarado, de modo que quem o diz pode ser rastreado). Além disso, alguns detalhes cruciais, como a inscrição no pomo, podem ser esquecidos pelo espectador ocasional nesse ínterim. Como adaptação, porém, acho que ficou digno. Já vi três vezes até agora, e devo aumentar essa margem.

  5. Rafaella Sousa
    25 novembro 2010 às 10:36 pm

    Olá, Louis! Como fã incondicional de Harry Potter há 10 anos, tbm vou contribuir com o meu ponto de vista. Primeiro, eu amei o sétimo livro. Não respondeu tudo, mas eu fiquei satisfeita ao final. E fiquei felicíssima quando disseram q iam fazer 2 filmes. Em relação a esse filme, devo dizer q gostei bastante. Como vc bem reparou, quem não é fã pode ter ficado perdido. Meu namorado nunca leu os livros e se perdeu um pouco, eu tive q explicar umas coisas pra ele. Eu sinceramente não senti as duas horas e meia passarem e a adaptação ficou bastante digna. E as atuações do trio principal estão muito boas na minha opinião. Tbm não gostei da trilha sonora, até pq eu não endeuso tanto os trabalhos do Desplat assim. E como vc tbm reparou, o transcorrer do tempo não é muito nítido, coisa q já vem do livro, eu acredito. JK meio q deixa os três num limbo temporal nessa jornada de ficar mudando de lugar o tempo todo e se embrenhando em florestas e tudo mais. E outra coisa, Voldemort quase não aparece nesse filme. Nem em Godric’s Hollow, nem na casa dos Malfoy. Enfim, é um bom filme e me deixa bastante ansiosa pro último.

  6. 3 dezembro 2010 às 12:54 pm

    ate quantos anos pode assisti o filme

    • 8 dezembro 2010 às 4:40 pm

      Rafaella, concordo em geral com as suas impressões, em especial com a falta de conexão da parte de quem não leu os livros. Vou ver o filme hoje pela quarta vez com a minha mãe e minha irmã, e quero só ver se elas vão ficar tão perdidas quanto eu imagino! Sobre a divisão, acho que poderia ser enxugado num filme de 3 horas, cortando vários excessos que tornam essa primeira parte lenta!

      Gata, qualquer um pode assistir.

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