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Cabine: Amor Por Acaso

Mesclar num mesmo filme o profissionalismo do cinema americano com a verve indissolúvel dos brasileiros é, em teoria, um raciocínio válido. Na prática, nem tanto. É o que prova a comédia romântica “Amor Por Acaso”, co-produção entre Brasil e Estados Unidos dirigida por um nome no mínimo improvável. Márcio Garcia, galã da Globo e apresentador de programas de auditório, tinha assinado apenas a direção de um curta-metragem – “Predileção”, de 2009 – e certamente não estava credenciado a empreitadas maiores. E olha que não estamos nos referindo à uma grande produção hollywoodiana, e sim a uma fitinha B, rodada com apoio de patrocinadores em 18 dias – 3 no Rio de Janeiro e 15 nos vinhedos da Califórnia.

A recém-fundada MGP – Márcio Garcia Produções – é responsável pelo segmento brasileiro. Aliás, desde os créditos iniciais fica evidente que este é um projeto de vaidade: o nome Márcio Garcia aparece insistentemente e ele próprio se arrisca a aparecer numa ponta (justamente durante uma ação de merchandising intrusiva e mequetrefe que só pode ter sido inserida por obrigação contratual). O fato é que essa miscigenação só herdou das comédias ianques o que há de mais batido e ultrapassado, e do cinema brasileiro, a canastrice que frequentemente o assola. Algo similar havia acontecido com “Sabor da Paixão”, no qual Penélope Cruz interpretava uma baiana e Murilo Benício o seu esposo cheio de ginga. Da mesma forma, “Amor Por Acaso” resulta falho, manco, insuficiente e quase amador.

Na trama, Juliana Paes é a balconista de uma loja que se vê atolada em dívidas após a morte do pai. O irmão é problemático e deve para traficantes, e seu namorado é um malandro carioca da pior espécie (Marcos Pasquim neste papel é forte candidato ao posto de pior ator de todos os tempos). Sem opções, a moça, que é fluente no inglês, viaja para a Califórnia com seu advogado britânico para averiguar um certo terreno que uma avó teria lhe deixado. No mesmo lugar, mora um sujeito (Dean Cain, o Superman da extinta série “Lois & Clark”) que acabou de sair de um casamento traumático com uma atriz famosa. Ele ficou com a propriedade depois de um acordo verbal com a velhinha que faleceu e está para inaugurar uma pousada no local. Os dois se apaixonam à primeira vista, depois se desentendem por causa do imóvel, e em seguida descobrem uma ternura mútua.

É facil antever o final dessa história, mas os artifícios manjados, como a heroína andando em câmera lenta para esboçar sua sensualidade involuntária e a trilha demarcando cada instante das cenas, são virtualmente impossíveis de aturar sem revirar os olhos ou ter uma crise de náuseas. As piadas são de uma imbecilidade abismal (envolvem até gracinhas com cachorro) e quase nunca dentro do tom (como o advogado que, enquanto consola a protagonista pela morte do pai, se gaba do seu senso de moda). E, para um filme que celebra a sobreposição de duas culturas distintas, o roteiro demonstra uma ignorância absurda em relação ao que é desconhecido: há uma sucessão de gags envolvendo um casal japonês em lua de mel, que vive se atracando pelos cantos quando, na verdade, os japoneses são conhecidos pela discrição e pela preservação rigorosa da vida privada.

São esses pequenos detalhes incômodos que, quando somados, comprometem toda a experiência e transformam “Amor Por Acaso” numa verdadeira tortura. Para os envolvidos na produção, ver o filme pronto é imensamente mais gratificante do que para o espectador comum. Sequer renderá melhores oportunidades para Juliana Paes no exterior – uma pena, porque, alheia ao texto chinfrim, ela esboça uma boa química com Cain e não parece desconfortável por atuar em língua estrangeira (seu sotaque é bastante compreensível). Já para Márcio Garcia, se esse filme passar em branco – como provavelmente passará -, as chances de que ele seja desencorajado a dirigir novamente são significativas. O público agradece.

.:. Amor Por Acaso (Bed & Breakfast, 2010, dirigido por Márcio Garcia). Cotação: E-

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Categorias:Cinema
  1. 11 novembro 2010 às 12:19 am

    Que esculacho …
    Mas ainda acho que vc foi bonzinho …

  2. 11 novembro 2010 às 2:52 am

    Marcio Garcia + Marcos Pasquim + Juliana Paes + Vaidade + Apenas 18 dias de gravação (?) = BOOOOOOOOOOOOOOMBA!

    • 12 novembro 2010 às 12:29 am

      JP, acho que fui justo! HAHAHAHA

      Alan, a sua soma está correta! MEDO.

  3. 12 novembro 2010 às 3:22 pm

    Só vejo no cinema se for de graça… e olhe lá!

    • 14 novembro 2010 às 12:29 am

      Robson, faça um favor a você mesmo e não veja jamais.

  4. 17 novembro 2010 às 1:59 pm

    Hahahahaha, este é um filme que não posso perder. xDD

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