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La Cage

A história de “La Cage aux folles” já foi contada inúmeras vezes pelo cinema e pelo teatro, tanto em forma de peça quanto de musical. Basicamente, narra as desventuras de um casal gay que apresenta um show de cabaret muito popular entre a comunidade. Georges, o mais contido, atua como mestre de cerimônias, e Albin, transformista e desmunhecado, é a grande estrela da atração. As confusões começam quando o filho deles – fruto de uma transa casual de Georges, mas criado por ambos – anuncia que vai se casar com a filha de um político conservador, cuja plataforma de governo inclui a segregação completa dos homossexuais. A partir daí, iniciam-se os preparativos para receber os pais da noiva, que não podem sequer desconfiar das procedências “desvirtuadas” do futuro genro.

Minha ligação com a trama veio através de “The Birdcage – A Gaiola das Loucas”, uma comédia de 1996 muito bem executada, favorecida por pelo menos uma performance irreparável: a de Nathan Lane como Albin (amo essa bicha!). Até os dias de hoje, quando não estou de bom humor, coloco esse filme para rodar e sempre fico mais leve e descontraído depois de revê-lo. Esse é, naturalmente, o poder de uma história que consegue ser divertida sem esforço, tocante nos devidos momentos e otimista em seu plano geral. Talvez por isso a versão brasileira do musical “A Gaiola das Loucas”, encenado em São Paulo no Teatro Bradesco do Shopping Bourbon depois de uma temporada no Rio, tenha me contagiado aqui e ali. A fonte de inspiração é rica demais e a essência do enredo é o suficiente para me aquecer por dentro.

Diria que essas qualidades estavam acima de Miguel Falabella, que comprou os direitos para montar o musical no Brasil, traduziu as letras das músicas, assumiu a direção e deu a si próprio o papel de Georges (suas empreitadas anteriores no gênero incluem “Os Produtores”, que eu não vi, e “Hairspray”, que era bastante discutível). Digo isso porque, em tudo o que poderia tornar inferior, o dedo dele estava lá. A tradução das canções está horrorosa – não era familiarizado com a trilha original, mas tenho a impressão de que tampouco é uma maravilha, já que alguns arranjos remetem à circo, certas melodias são pesadas e marciais e há um excesso de músicas aborrecidas, várias delas servindo aos mesmos propósitos. Além disso, por problemas nos microfones, orquestra tocando alto demais, dicção dos atores-cantores ou métrica avacalhada, é fato que a plateia nem sempre vai compreender o que está sendo cantado. Talvez precisem ser ouvidas na ocasião certa, como no comentado revival que está em cartaz na Broadway e que foi premiado com o Tony.

O problema maior é que, na visão de Falabella, o que há de humor tem de pender para o escracho. Azar do público, que perde um material de bom gosto para se deparar com piadas imbecis, do tipo que se encontraria nos programas globais de final de domingo e que certamente não existiam no texto original. Às vezes, a baderna no palco é tanta que a plateia não sabe como reagir, e vira e mexe pude perceber o público rindo não com espontaneidade, mas sim de nervoso! Sem contar que Falabella tem uma persona forte e faz variantes de si mesmo em todos os personagens que interpreta. E ainda tem o péssimo hábito de escalar em papeis relevantes atores sem qualquer preparo para a função. É o caso de Diogo Villella, o Albin brasileiro, totalmente imaturo como cantor e nem um pouco brilhante no que tange à interpretação (o personagem é um prato cheio e ele não soube aproveitar as oportunidades; é um trabalho sem timing, equivocado).

Não faço maiores restrições ao restante do elenco. Pelo contrário: tenho elogios a fazer às Loucas da gaiola (todos excelentes bailarinos, que eu particularmente desconhecia) e prazer em ver rostos conhecidos, como os simpaticíssimos Davi Guilhermme (“O Despertar da Primavera”) e Gustavo Klein (“Avenida Q”), firmes e fortes no ramo. Desconfio que outros atingiriam melhores resultados se não fossem sabotados por piadinhas tão infames e micagens infantis o tempo todo. Em relação à concepção visual, a iluminação está caprichada e já acomodada ao novo teatro, e os cenários são muito bem feitos. As apresentações de cabaret representam ótimos momentos de teatro – bem acima do que eu esperaria de Falabella -, mas não são planejadas com o talento das sequências de teatro burlesco em “Gypsy”, por exemplo. Num apanhado final, “A Gaiola das Loucas” pode muito bem te proporcionar instantes de prazer. Só que também terá sua cota de tortura.

.:. A Gaiola das Loucas. Teatro Bradesco. Rua Turiassu, 2100 (Bourbon Shopping Piso 3). Perdizes. São Paulo – SP. Quinta e sábado às 21h. Sexta às 21h30. Domingo às 19h. Cotação: C+

Categorias:Teatro
  1. 6 novembro 2010 às 5:26 pm

    entendo a crítica ao Fallabela; eu gosto dele, mas sei que ele exagera, prefere o escracho, o que é uma pena, porque nem sempre piadinha cabe.
    mas tava eu vendo outro dia Amaury Jr (HAHAHA), e vi a entrevista com ele e com o Diogo Villela – dele eu não gosto – mas achei tão simpáticos, e vi as danças, deu até curiosidade. sei que não vou assistir porque eu sempre deixo teatro pra depois e, já sabe (a saga do Despertar :/), mas acho que eu até assistiria sim.

    =***

    • 7 novembro 2010 às 11:53 pm

      Quéroul, os dois parecem ter boas intenções mas não funcionam no musical de jeito nenhum! Se deixou de ver uma obra-prima como o Despertar, esse é que não vai te fazer falta mesmo.

      Beijo!

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