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A Rede Social

O público custou a notar o talento de Jesse Eisenberg. Alguns só o descobriram no ano passado, como o herói franzino e desajeitado de “Zumbilândia”; alguns, antes disso, lembram-se de tê-lo visto como o filho da Laura Linney e Jeff Daniels em “A Lula e a Baleia”; e outros poucos, como o blogueiro que vos fala, testemunharam seu primeiro grande papel nas telas em tempo real. Lembro-me até hoje de assistir a “Roger Dodger” e me impressionar não apenas com a performance inspiradíssima de Campbell Scott como um publicitário bem-sucedido que tem de rever algumas escolhas que fez para sua vida, mas também com o garoto cujo personagem provocava essas reflexões do protagonista.

Desse momento em diante, Jesse ficou marcado em mim como um ator característico confiável e interessante – e, em tudo o que vi dele desde então, confirmou a capacidade de engrandecer papeis coadjuvantes e de defender com perspicácia os principais. Em “A Rede Social”, o comentado novo trabalho de David Fincher sobre os estudantes de Harvard que criaram o Facebook, ele tem o melhor desempenho de sua carreira até aqui. No último balanço feito pelos sites que abrigam textos de críticos de todo o mundo, essa foi apontada como a interpretação masculina mais elogiada da temporada, com a de Andrew Garfield, que tem aqui um papel secundário, em seus calcanhares. Não se trata apenas de burburinho: Eisenberg é digno de todo reconhecimento que estiver a seu caminho (indicação ao Oscar incluída). E, ainda assim, nem é possível afirmar que ele seja a melhor coisa do filme.

São tantos os acertos que fica difícil enumerá-los por ordem de importância. Adaptado por Aaron Sorkin – o mesmo que concebeu para a TV séries de renome como “The West Wing”, “Sports Night” e “Studio 60 on the Sunset Strip” – a partir de um best-seller de Ben Mezrich, o filme é uma excelente crônica corporativa e extremamente atual no assunto que enfoca (afinal, os números oficiais do Facebook ultrapassam quinhentos milhões de usuários cadastrados). É sempre válido conhecer os bastidores das histórias de sucesso, visto que elas representam conquistas expressivas de pessoas que, pela conjugação de inteligência e oportunidade, se tornaram marcos de excelência para o restante do planeta. Ainda mais admirável é atingir essas metas antes mesmo de ter idade suficiente para se formar na faculdade.

Pois foi o que aconteceu com Mark Zuckerberg. Ele mal tinha saído da puberdade quando desenvolveu um software que foi, posteriormente, aproveitado pela Microsoft, e quando chegou à Harvard conseguiu hacker o sistema da universidade e desenvolver um site amador que atingiu 22 mil acessos em quatro horas antes de ser interditado. Quando desenvolveu o Facebook, planejado inicialmente como uma rede de relacionamentos exclusiva para os universitários, assegurou-se de diferenciá-lo de semelhantes como o MySpace (que foi perdendo usuários e hoje é majoritamente voltado para música). Além de gênio dos computadores, Mark também se revelou um homem de negócios de mãos cheias – e, como não poderia deixar de ser, acabou angariando sua cota de processos. O primeiro foi movido por três estudantes que garantem ter discutido com ele a ideia para uma rede com os mesmos propósitos, e o segundo veio do melhor amigo e parceiro profissional que forneceu ao Facebook o seu capital inicial (é através de depoimentos para esses processos que o filme se desenrola).

Einsenberg torna impossível para o público imaginar Mark Zuckerberg na forma de outro ator, mas os méritos não são exclusivos dele. O texto de Sorkin é esperto o bastante para enxergá-lo por trás da mítica e deduzi-lo a seu aspecto elementar: um nerd com problemas de convívio social que se empenha para trazer ao mundo virtual aquilo que não possui em termos reais. Por mais que adote uma postura de indiferença em relação demais – chega a fazer pouco caso da garota de quem está a fim, pois o nível de instrução dela não corresponderia ao brilhantismo que ele merece -, fica claro o seu ressentimento por se ver excluído de atividades mundanas – percebe-se, por exemplo, que ele desdenha do amigo selecionado para se juntar a uma sociedade apenas porque não foi considerado também.

Com o sucesso crescente do Facebook, Mark é promovido ao status de celebridade, primeiro dentro de Harvard – aonde, pela primeira vez, tem garotas se jogando aos seus pés – e depois em proporções maiores. Ele percebe que, para manter a popularidade e o recém-adquirido senso de realidade, precisa se manter firme ao seu negócio, não fazer movimentos em falso para que ele não decline (abrir espaço para publicidade, como sugere seu sócio, seria inconcebível) e não vender um conceito que hoje vale um milhão de dólares antes que ele atinja cem vezes esse valor. Obviamente, não se passa por tudo isso sem modificar a própria personalidade e sem abrir mão de vínculos pessoais e afetivos, por vezes se esquecendo de pesar as consequências.

Fincher está atento a tudo isso e consegue conduzir a narrativa com maestria, passando com leveza e bom humor por assuntos que se julgariam espinhosos e dando a cada personagem a chance de provar a que vieram. A edição é especialmente bem pensada, estruturada para que as cenas ecoem nas sequências de interrogatório e vice-versa. E o elenco é um show à parte. Não apenas por Eisenberg, a quem já me faltam adjetivos, mas pelos atores que lhe fazem companhia, de Garfield (que está formidável e deve ser lembrado nas premiações como coadjuvante) ao cantor Justin Timberlake (este como um empresário carismático e interesseiro que se aproxima da dupla de criadores) até aqueles de menor peso, que conseguem disparar os diálogos com ímpeto e rapidez (o compasso do filme é acelerado e nunca desigual). Concorrente certo às principais categorias do Oscar, “A Rede Social” é um dos exemplares mais sólidos produzidos pelo cinema este ano. Não perca de vista!

.:. A Rede Social (The Social Network, 2010, dirigido por David Fincher). Cotação: A+

Categorias:Cinema
  1. 3 novembro 2010 às 12:03 am

    Estou no final do livro (que é muito muito interessante) por isso, prefiro não ler nada a respeito por enquanto, mas, espero um grande filme, não só por ser uma história interessante, mas, também por se tratar de Fincher.

  2. 3 novembro 2010 às 12:43 am

    opa, mais um que eu quero ver.🙂
    adoro Timberlake atuando, sabia?

    =***

  3. Kamila
    3 novembro 2010 às 12:52 am

    Não perderei de vista. Tô doida para assistir!! Beijo!

    • 3 novembro 2010 às 1:14 pm

      Cleber, nem sempre gosto do que Fincher faz, mas este filme está entre seus maiores acertos.

      Quéroul, sabe que eu também? Pelo menos tinha adorado o trabalho dele em Alpha Dog🙂 Beijo.

      Ka, quando você assistir comentaremos em detalhes. Beijo.

  4. 3 novembro 2010 às 3:38 am

    I TOLD YOU MANOLEXXXX
    ehehehhe

    Filmão é esse ai …

    Abraços!

  5. Rafaella Sousa
    3 novembro 2010 às 3:38 pm

    Estou doida pra ver esse filme desde q eu soube q o Jesse Eisenberg estaria nele e seria dirigido pelo David Fincher. E olha q eu detesto o Facebook XDDD!
    Quando estréia no Brasil, Louis? Você sabe?

  6. Bárbara :)
    3 novembro 2010 às 4:41 pm

    Estou louca para assistir!

    • 4 novembro 2010 às 1:12 am

      JP, estava bem convencido de que seria mesmo um filmaço😉 Abraço.

      Rafaella, até onde eu sei, estreia na primeira sexta de dezembro. Basicamente, daqui um mês.

      Bárbara, espero que goste! o/

  7. Lelo Brito
    4 novembro 2010 às 7:07 pm

    Tá, tá, tá… Eu vou assistir, L.E. Me convenceu.
    Aliás, além de meu Supervisor de Atendimento, você está contratado oficialmente como meu consultor de “Filmes que Você TEM que Assistir”.

    • 5 novembro 2010 às 2:38 am

      Ahh Lelo !!!

      Tô muito importante. Meu chefe deixa comentários no meu blog hahahaha !

      Pode deixar. Fico sendo seu consultor em tempo integral. Dessas coisas eu entendo😉

  8. Larissa
    27 janeiro 2011 às 7:40 am

    ótima crítica, adorei o filme também!

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