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Mostra 2010: Tio Boomnee, que pode recordar suas vidas passadas

O Festival de Cannes deste ano, cujo júri foi presidido por Tim Burton, optou por conceder a honraria máxima, a Palma de Ouro, a um filme tailandês co-produzido por França e Inglaterra. Trata-se de “Tio Boonmee, que pode recordar suas vidas passadas”, uma das atrações mais disputadas da Mostra deste ano, sem data de estreia prevista no Brasil (a cópia, inclusive, ainda não tem legenda embutida: a legenda é daquelas eletrônicas, projetada num espaço retangular abaixo da tela; isso pode ser um verdadeiro problema para salas como as da Reserva Cultural, que são muito baixas e obrigam as pessoas a espichar o pescoço para ler).

Sobre o filme em si, é muito difícil dar qualquer parecer. É diferente, esquisito, radical, por vezes perturbador e certamente para um público selecionado. O personagem título, tio Boonmee, é um camponês que sofre de falência nos rins. Já à beira da morte, com amigos e familiares ao seu lado na casa em que nasceu, ele vai receber a visita de alguns fantasmas do passado. É o caso da esposa, que faleceu aos 42 anos e que reaparece num espectro para ajudá-lo a cuidar da saúde. Também é o caso de um filho que tinha se embrenhado na floresta para nunca mais ser visto – ele volta transformado num macaco de olhos vermelhos, porque teria copulado com uma das criaturas lendárias que habitam as matas da região!

Entrementes, tio Boonmee terá vislumbres de algumas de suas vidas passadas, primeiro na forma de um búfalo, depois como uma princesa que faz um acordo com um peixe para ficar eternizada no reflexo juvenil que enxerga nas águas, e não na atual velhice em que se encontra. Todas essas excentricidades são recebidas com naturalidade pelos personagens, como se cada ocorrido fosse absolutamente normal. O fato é que todas as regiões, ainda mais essas carregadas de história e tradição, são recheadas de anedotas, e é interessante conhecer essas aqui pela perspectiva do diretor, o tailandês Apichatpong Weerasethakul.

Não era familiarizado com o seu trabalho, mas por este aqui percebo que ele não faz muitas concessões. Se o filme sabe ser leve e bem-humorado, ao mesmo tempo também é arrastado, silencioso e contemplativo. E se a apreciação do resultado depende do gosto de cada um, ao menos é indiscutível que o diretor reserva o maior respeito à trama que está desenvolvendo – que prega que as crendices podem ser reais para aqueles que encontram sentido nelas – e aos elementos de seu país que, indissoluvelmente, estão retratados ali – há menções à situação política da Tailândia e à imigração dos laosianos, e os próprios atores são, em sua grande maioria, moradores locais sem qualquer instrução profissional.

Pode parecer clichê dizer que, mais que um filme, esta é uma experiência, mas realmente não há outra maneira de definir. “Tio Boomnee” não é programa para a Marineide e o Clodoaldo que gostaram da novela “Porto dos Milagres”. Na sua terra, pode ser visto com a melhor das intenções, mas não há como negar que, em países estrangeiros – e muito particularmente no Brasil – chegará com a chancela de um produto cult para plateias alternativas e pensantes (ou seja, é bem elitista). Eu, à uma certa altura, embarquei na viagem e não me arrependo de tê-la realizado. Mas, recomendo que tirem suas próprias conclusões.

.:. Tio Boonmee, que pode recordar suas vidas passadas (Uncle Boonmee Who Can Recall His Past Lives, dirigido por Apichatpong Weerasethakul). Cotação: A-

Categorias:Cinema
  1. 29 outubro 2010 às 3:28 pm

    “Entrementes, tio Boonmee terá vislumbres de algumas de suas vidas passadas, primeiro na forma de um búfalo, depois como uma princesa que faz um acordo com um peixe para ficar eternizada no reflexo juvenil que enxerga nas águas”…

    se fosse filme nacional seria bem merda, né?

  2. 29 outubro 2010 às 11:00 pm

    Pena que obras como essa, dificilmente, chegam nos cinemas de minha cidade. Beijo!

    • 30 outubro 2010 às 11:13 pm

      Quéroul, que observação interessante!! HAHAHAHA.. Lendo assim realmente parece o tipo de coisa que se veria naqueles lixos absolutos que mancham o cinema nacional.

      Ka, a verdade é que, mesmo em centros grandes como São Paulo, essas obras nunca chegam (e se chegam, é com distribuição limitadíssima). Beijo.

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