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Mostra 2010: Não Me Deixe Jamais

Às vezes os diretores se esquecem de que o cinema, ao contrário do teatro e da literatura, é realista demais para que soluções alegóricas, perfeitamente críveis nas outras duas mídias, sejam facilmente digeridas pelo espectador. Foi o que comprometeu “Ensaio Sobre a Cegueira”, de Fernando Meirelles, e também parece ser o principal problema do drama de ficção “Não Me Deixe Jamais”, produção britânica dirigida por Mark Romanek, com Carey Mulligan, Keira Knightley e Andrew Garfield no elenco.

Adaptado de um livro do japonês Kazuo Ishiguro, o filme parte de um conflito completamente inverossímil, para não dizer absurdo. Na trama, crianças são confinadas num orfanato com o propósito de se tornarem doadoras de órgãos quando crescerem. A passividade dos personagens diante disso é incabível, já que todos sabemos que, fora tráfico de órgãos, qualquer doação precisa ser consentida, com uma burocracia dos infernos da parte dos hospitais. Logo, a preocupação dos mocinhos, que não sabem quanto tempo de vida útil terão antes que coletem seus órgãos (ou a quantas cirurgias conseguirão sobreviver), é inaceitável. Há uma justificativa para essas atitudes, reservada como uma surpresa, mas mesmo essa lógica interna é tão mal delineada que fica difícil para o público traçar parâmetros, entrar no esquema e refletir sobre a hipótese de implicações morais que o filme apenas sugere sem se aprofundar.

Para piorar, a criação de um triângulo amoroso entre os três personagens centrais gera um pano de fundo pífio e desinteressante, prejudicado ainda pela trilha sonora excessiva. O fato é que “Não Me Deixe Jamais” me pareceu um filme sem razão de existir. Nem mesmo os jovens atores, todos no auge de suas carreiras, conseguem render em papeis tão unidimensionais (Garfield foi confirmado como o novo Homem-Aranha e está colhendo elogios por “A Rede Social”, mas até então não vi nada dele que seja digno de atenção). Há outro azar: a figura mais calorosa e cativante do elenco – uma professora interpretada pela sempre excelente Sally Hawkins – é dispensada no primeiro terço de projeção. Daí em diante, nada suaviza essa história carregada de melancolia e desprovida de bom senso.

.:. Não Me Deixe Jamais (Never Let Me Go, 2010, dirigido por Mark Romanek). Cotação: D+

Categorias:Cinema
  1. 27 outubro 2010 às 6:58 pm

    Tenso manolo!
    Assim vc me broxou um pouco para esse filme …
    Mas não perca as esperanças para Garfield … esse manolo vai longe por causa de A Rede Social.

    Abraços

  2. 27 outubro 2010 às 7:07 pm

    e essa foto me assustou, pq pensei que fosse aquele filme com a emile de ravin e o vampiro que brilha.
    quero nenhum deles, buhuu. medo.

  3. 27 outubro 2010 às 9:23 pm

    Pobre Sally Hawkings…

    • 27 outubro 2010 às 9:28 pm

      JP, também tenho certeza de que ele vai me ganhar em Social Network! Abraço.

      Quéroul, eu ri!! HAHAHAHA

      L. Vinícius, pobre nada! Sally manda muito e tem tido muitas oportunidades boas.

  4. Rafaella Sousa
    27 outubro 2010 às 9:30 pm

    Poxa… Jura, Louis? Eu estava seca pra ver esse filme, agora murchei um pouquinho… =P

  5. 27 outubro 2010 às 10:40 pm

    Que pena que você não gostou desse filme. Eu confesso que tenho altas expectativas em relação à obra. Beijo!

  6. 27 outubro 2010 às 11:48 pm

    Jura que o filme se trata disso??? Nossa, achava que era sobre um triângulo amoroso e tal e todas aquela frivolidades da juventade, rs.
    Tipo um filme teen meio cabeça, onde os personagens são cheios de conflitos e tal.
    Nunca que eu imaginava essa palhaçada de doação de órgãos…
    Realmente broxante!

    • 28 outubro 2010 às 12:02 am

      Rafaella, de repente eu sou a exceção… Muita gente aprovou o filme!

      Ka, quem sabe o aproveite mais que eu? Beijo.

      Alex, na verdade tem uma justificativa (tola) para os acontecimentos… Não quis entrar nesses detalhes para não entregar demais da trama, mas te garanto que é MUITO mais que só sobre um triângulo (que, aliás, é a pior coisa do longa).

      • Antonella
        19 abril 2011 às 10:42 pm

        caraca eu amei o fime fiquei profundamente tocada… se aquilo mesmo existe em algum tipo de cultura, todas essa pessoas tem reserva em hotel 5 estrelas lá no ceu, ñ existe nenhum pecado…

  7. 28 outubro 2010 às 12:19 am

    mas amado o filme se passa em uma sociedade que aceita isso, alias, lembra até um pouco a história de “a ilha” do michael bay hahahah
    gostei mto do livro, espero que goste do filme…bjusssss

  8. Lucas Alves
    28 outubro 2010 às 1:49 am

    Oi Louis!

    Ainda não vi nenhum dos filmes da Mostra que vc comentou, mas mesmo assim, estou gostando muito das suas resenhas.

    Eu estava c/ uma certa resistência p/ “Atração Perigosa”, porque detesto o Affleck. Mas seu texto me convenceu a dar uma chance p/ esse filme, pois, deixou claro que o trabalho dele como diretor é diferente daquele como ator. Por outro lado, eu estava bem ansioso pela estréia de “Um Lugar Qualquer” e depois de ler seu texto, baixei as minhas expectativas. E vc acredita que até hoje, eu ainda não vi “As Bicicletas de Belleville”? Eu fui deixando p/ depois e depois, e depois… No final das contas, ainda não vi. Vou tentar vê-la antes de conferir “O Mágico”. “O Garoto de Liverpool” pode até ser bacana, mas honestamente, não me atraiu em nada, porque nunca tive a curiosidade de saber sobre essa fase do Lennon. E olha.. Esse argumento da doações de orgãos em “Não Me Deixe Jamais” já é suficiente p/ eu ficar bem longe desse filme.

    Mudando de assunto, eu estou acompanhando Boardwalk Empire. Ok, estou atrasado em relação aos USA (já exibiram 6 episódios e eu assisti 4 até agora). De qualquer forma, estou gostando MUITO da série. Pelo menos, até onde conferi, está tudo um show. Vc não pretende ver? Ainda falando sobre séries, Mad Men terminou a pouco tempo, mas já estou sentindo uma puta falta. Essa quarta temporada foi incrível, The Suitcase foi um dos melhores episódios que já assisti na vida e o season finale me surpreendeu muito.

    Abraços!

  9. Bob
    28 outubro 2010 às 3:31 pm

    Louis, sério que vc achou inverossímel?

    (spoilers)

    As crianças do tal orfanato não são humanos comuns, e sim clones educados especificamente para o fim da doação… A mim, a passividade deles perante seu destino é compreensível, uma vez que foram todos submetidos a uma mega lavagem cerebral desde que nasceram. Programados para aceitar a vida como ela é (ou como disseram a eles que ela é).

    Fora que todos usam um aparelho rastreador, o que dá a entender que qualquer possibilidade de fuga ou rebeldia seria impossível.
    Elas nasceram com um própósito e aprenderam que deveriam aceitar esse destino…

    Adorei o filme, com essa poderosa metáfora sobre nossa busca constante em aprender, desafiar e finalmente, aceitar, nossa própria morte.

    Abração!

    • 28 outubro 2010 às 7:24 pm

      Vivi, mas se no livro isso funciona, no filme é muito sem propósito, inverossímil. Me disseram que, no livro, a ação se transcorre no futuro. No filme, tudo acontece entre as décadas de 70 e 90 – ou seja, é um passado alternativo e os parâmetros dessa sociedade não são bem firmados!

      Lucas, há quanto tempo! Mesmo assim, não me arrependo de ter visto nenhum dos filmes que já conferi nessa Mostra e até te indico, caso você se depare com algum deles no futuro (mesmo esse aqui tem algumas ideias interessantes, ainda que muito má desenvolvidas). Quando a correria da Mostra passar vou pegar firme nas séries de TV, Boardwalk Empire incluída. Abraço!

      Bob, comentando spoilers…

      Essa realidade alternativa em que clones humanos são criados como gado de abate tem muito potencial, mas a meu ver, é muito mal explorada e não justifica a passividade (eles se tornam pessoas complexas, com emoções auto-suficientes e perfeitamente capazes de se rebelarem, o que não acontece). O que achei mal desenvolvida foi a ladainha do “ah, eu tenho uma alma” ou “ah, estamos apaixonados, vamos tentar ganhar mais uns anos de vida levando desenhos pra provar que eu amo você”. Ai, que so-no. E o pior é que imagino isso funcionando muito bem enquanto literatura…

      Abraço!

  10. Larissa
    27 janeiro 2011 às 7:29 am

    concordo plenamente com a sua crítica, eu diria com as mesmas palavras o que eu percebi nesse filme

  11. Victor Cesar
    23 março 2011 às 10:57 pm

    Gostei do filme, apesar da densidade dramática.
    O autor do livro realça a atitude passiva do japonês em relação a sua organização social extremamente conservadora, onde o indivíduo não mede sacrifício pessoal, cortando na própria carne, em função da sociedade.
    O filme é fiel à visão do autor do livro, mostrando com extrema propriedade o perfil contido da sociedade japonesa.

  12. Danielle
    28 março 2011 às 7:18 pm

    Bem se vê que você não entendeu nada do filme.

  13. Juanefez
    7 junho 2011 às 1:02 am

    Critica totalmente descabida.

    É um filme sobre a nossa passividade diante da vida, da aceitacao da vida como ela é, por mais absurda que possa parecer.
    Dentro desse contexto não cabe discussao sobre trafico de orgaos ou doação, o filme nao se trata disso, enfim, o filme é otimo, recomendo.

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