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Mostra 2010: Um Lugar Qualquer

Tinha grandes expectativas para “Um Lugar Qualquer”, tanto que fiz um post há alguns meses apenas para discutir o trailer e comentar a minha empolgação antecipada. Afinal, este é outro trabalho de Sofia Coppola a possuir requintes autobiográficos, agora com ênfase na sua criação em meio aos luxos e às loucuras de Hollywood e no seu relacionamento com o pai, o cineasta Francis Ford Coppola. Como diretora, Sofia já havia provado seu talento em fitas como “Virgens Suicidas”, “Maria Antonieta” e principalmente “Encontros e Desencontros”, que atestava a sua capacidade de sugar acontecimentos da própria vida e de condensar essas experiências nos personagens (a Scarlett Johansson, no filme, seria o seu alter-ego, assim como o marido indiferente era uma alusão clara ao ex Spike Jonze e a atriz que encontravam no hotel era Cameron Diaz).

É fácil explicar porque “Encontros e Desencontros” se tornou um cult instantâneo: com sua visão delicada de menina-moça, Sofia observava os dois personagens centrais preenchendo os vazios existenciais um do outro. E o fazia com sutileza, através de olhares que diziam mais do que sugeriam e de conversas francas que exprimiam, em palavras, sentimentos que todos nós conhecemos, mas nem sempre sabemos definir. “Um Lugar Qualquer” tinha potencial para corresponder a tudo isso em grau maior – dessa vez, com a história de um sujeito infeliz que é revigorado pela presença da filha pré-adolescente. O personagem em questão é um astro de cinema que tem tudo de mãos beijadas e vive num hotel icônico regado à festas e à mulheres interessadas em sexo casual. Mas nada disso o satisfaz, e quando a filha que ele raramente vê vem passar alguns dias em sua companhia, vai finalmente se dar conta do que lhe faltava nessa vida de excessos e aparências.

A narrativa faz bem o estilo de Sofia, apoiada em simbologias simples, mas elegantes, e na observação de uma cultura estranha aos olhos estrangeiros (não só muitos hábitos hollywoodianos podem parecer excêntricos a quem nunca viu um episódio de “Entourage”, mas também o fascínio mundial pelas celebridades é resumido à sua forma elementar: caóticas coletivas de imprensa, corriqueiras viagens internacionais, participações em eventos que beiram ao ridículo e assim por diante). Mas, não vai muito além daí. O filme é mais seco e menos caloroso do que pode parecer, por vezes se estendendo além da conta em tomadas que deixam sua intenção clara em questão de segundos. Ajuda que Stephen Dorff e Elle Fanning tenham conseguido estabelecer uma química deliciosa como pai e filha – diria que ele tem, aqui, o melhor momento de uma carreira que andava em baixa, e ela, como não poderia deixar de ser, é a luz do filme (as cenas em que aparece são até mais coloridas, menos soturnas que as anteriores).

Um drama por definição, “Um Lugar Qualquer” também passa, em alguns momentos, por uma comédia involuntária, mas Sofia já não extrai humor com a mesma naturalidade (uma sequência envolvendo um massagista pelado chega a ser constrangedora). Também há cenas de grande inspiração – a que mais me marcou foi aquela em que pai e filha tomam sol lado a lado, e o ângulo vai se abrindo para mostrar que ambos não estão tão isolados quanto pareciam estar. E há um problema bastante apontado no final: uma metáfora mal planejada que substancia a redenção do protagonista num ato risível e infantil. Numa visão geral, esta é uma fita bonitinha, mas ordinária, e o Leão de Ouro no Festival de Veneza foi, de fato, um exagero. Estou entre os que acreditam que Quentin Tarantino, presidente do júri e ex-namorado de Sofia, não foi imparcial na decisão. Quem sabe ele não pensaria diferente se Coppola o transformasse em objeto de estudo do seu próximo projeto?

.:. Um Lugar Qualquer (Somewhere, 2010, dirigido por Sofia Coppola). Cotação: B-

Categorias:Cinema
  1. Indara
    24 outubro 2010 às 8:12 pm

    Quero muito ver esse filme, pq amei “Encontros e Desencontros”.

    • 24 outubro 2010 às 9:53 pm

      Indara, gostar de Encontros e Desencontros é meio caminho andado para apreciar Somewhere, mas vá assistir tendo a noção de que este aqui não é tão ilustre quanto.

  2. 24 outubro 2010 às 11:21 pm

    Acho a Coppolinha extremamente superestimada. Se eu odiei “Encontros e Desencontros”, devo supor que vou odiar esse aí, né? Beijo!

    • 25 outubro 2010 às 1:08 am

      Ka, não gostar de Encontros e Desencontros é um dos seus maiores pecados! Mas sim, muito provavelmente você vai detestar Somewhere rsrs… Beijo!

  3. 25 outubro 2010 às 4:42 pm

    toda vez que eu vejo algo sobre esse filme me vem um ‘preciiiiiso’ muito grande no coração.
    não sei porque, se é pela Coppola, se é pelo Dorff, se é pela oportunidade de ver uma Fanning pequena (a Dakota era muito meu xuxu de criança, mas criança cresce, né? se bem que quero muito ver Runnaways, pra ver como ela tá adolescendo…).

    mas mesmo lendo um B-, e entendendo muito bem sua crítica, ainda preciso deste filme.😉

    • 26 outubro 2010 às 12:08 am

      Quéroul, eu super te entendo. Se eu tivesse lido qualquer opinião parecida com a minha, ainda assim desejaria esse filme intensamente. Talvez, revendo, ele cresça um pouco em mim… Veremos😉

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