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Sociedade do espetáculo

E aí? Tá emocionado com o resgate dos 33 mineiros chilenos, retirados depois de mais de dois meses soterrados numa mina a 700 metros de profundidade? O mundo inteiro parou pra assistir à saída do primeiro mineiro (estima-se que 1 bilhão de pessoas tenha visto a transmissão em tempo real), neste verdadeiro evento coberto pela mídia com requintes de espetáculo. Brincamos sobre a possibilidade de uma versão hollywoodiana sobre o drama com final feliz – foi o que aconteceu com “O Resgate de Jessica”, clássico da sessão da Tarde dos anos 90, sobre uma garotinha de dois anos que caiu num poço estreito e foi salva depois de 58 horas, graças a uma operação de resgate revolucionária para os padrões da época.

 

O Resgate de Jéssica na vida real

 

O caso gerou tanta comoção nos Estados Unidos que centenas de cidadãos fizeram doações em nome da menina – hoje uma mulher feita, casada e mãe de filhos, que não tem lembranças do acidente. Quando completar 25 anos, Jessica McClure deve receber cerca de 1 milhão de dólares acumulados dessas doações. Outros envolvidos nesse desespero não tiveram a mesma sorte: os pais da garota, sufocados pela vigilância da comunidade após a repercussão nacional – e, a certo ponto, mundial – do ocorrido, mudaram-se para longe e eventualmente se separaram. O policial que desceu por um segundo túnel improvisado e resgatou Jessica por um espaço ínfimo teve seus 15 minutos de fama: foi condecorado, participou de inúmeros programas de televisão, recebeu uma carta assinada pelo Presidente e até um aperto de mão do Vice-Presidente. Mas os holofotes se apagaram eventualmente, mergulhando-o num estágio avançado de depressão que o levaria ao suicídio.

Acho que o frenesi acima dessas situações está atrelado à nossa cultura – em especial aqui no Ocidente, aonde a tragédia e a celebridade sempre foram muito ligados. E, quando o final é feliz, como é o caso dos mineiros resgatados, o efeito é multiplicado. Todos precisamos de uma catarse e costumamos nos agarrar àquelas que encontramos. Faz parte dessa nossa sociedade do espetáculo, e não tenha dúvidas de que, quando todos forem retirados da mina e devidamente examinados (pois problemas médicos e psicológicos vão aparecer, os instantâneos e os que virão à longo prazo, quando a euforia passar), serão pauta do Jornal Nacional e do Fantástico, filmados num alegre almoço comemorativo numa churrascaria. Serão fartamente indenizados pelo sofrimento, que poderia ter sido evitado se a mina tivesse as duas saídas obrigatórias, e poderão ou não abandonar a profissão, de acordo com as conveniências e os interesses (meu palpite é que estarão todos de volta às minas em pouco tempo).

 

Primeiro mineiro resgatado: 1 bilhão de espectadores

 

É irônico pensar que os momentos – nesse caso, dias que se transformaram em semanas que se tornaram meses – mais aflitivos da vida de um homem – ou de trinte e três – serão, também, os mais especiais, únicos e dignos de atenção que eles terão. Enquanto isso, executivos de Hollywood já devem ter escalado, de cabeça, um elenco de ascendência latina para viver os trabalhadores enquanto personagens de cinema. E eu, com os olhos marejados, paro para fazer este texto, na tentativa de rastrear as origens das minhas lágrimas.

Categorias:Diversos
  1. 13 outubro 2010 às 4:42 pm

    tá. eu ia falar das minhas lagriminhas quando vi um dos moços saindo hoje de manhã, que eu acho aquilo tudo muito triste, como você bem disse antes da última foto.
    daí eu li seu último parágrafo e quase morro aqui, de novo.
    bonito texto, Louis.

  2. 13 outubro 2010 às 10:29 pm

    Perdi as contas de quantas vezes assisti a “O resgate de Jéssica”. E esta história do resgate dos mineiros chilenos é sensacional e emocionante! Ver o primeiro resgatado ontem, ao vivo, foi uma das cenas mais lindas do ano. Beijo!

    • 14 outubro 2010 às 12:01 am

      Quéroul, que bom que gostou do texto! A situação é bem emocionante, mas acho importante a gente parar pra refletir de onde vem as nossas lágrimas😉

      Ka, não vi O Resgate de Jessica tantas vezes, mas me lembro de ter ficado super impressionado com a história. O resgate dos mineiros é tudo aquilo multiplicado por 33! Beijo.

  3. 14 outubro 2010 às 2:22 pm

    Não conhecia esse filme.

  4. Caroline®
    14 outubro 2010 às 7:13 pm

    Eu acho que não tenho coração, porque nem me emocionei com o resgate. Minha única reação no caso foi de risos, quando vi o bafão do mineiro infiel, cuja esposa conheceu a outra no acampamento. Ah, O Resgate de Jessica é muito legal – criancinha sofrendo é covardia, né?

    • 14 outubro 2010 às 11:44 pm

      Robson, como não?? Foi reprisado à exaustão por Globo, SBT e derivados!

      Caroline, mesmo tendo me emocionado com o caso, eu ri de muita coisa! Inclusive surgiram várias piadas boas HAHAHA!

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