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Tropa de Elite Osso Duro de Roer

“Tropa de Elite” fez o maior sucesso no Brasil e no exterior em 2007, primeiro quando foi vazado em DVD pirata e depois quando entrou em cartaz nas salas de cinema. Foi a manobra perfeita para gerar burburinho entre a população, que se deliciava com o implacável Capitão Nascimento, o líder do BOPE interpretado com histrionismo por Wagner Moura, e com os insultos que ele proferia contra aqueles que, direta e indiretamente, contribuíam para o tráfico de drogas nos morros do Rio de Janeiro. O dinheiro que movimenta o crime, apontava o filme, partia dos jovens de classe média-alta, os quais Nascimento retalhava com o mesmo ímpeto. O processo de seleção rigoroso e humilhante dos que pretendiam se juntar ao BOPE também deu o que falar – ainda mais pelo hábito de se referirem aos inscritos por números (01, 02 e por aí vai). “Tropa de Elite” conseguiu até mesmo emplacar nas paradas um pavoroso funk carioca que acompanhava a sequência inicial.

Portanto, a continuação “Tropa de Elite 2” – que dessa vez chega “exclusivamente aos cinemas”, como  deixa claro o próprio trailer – era inevitável. Não é sempre que filme nacional é garantia de boa bilheteria, e quando surge a oportunidade, ela tem mais que ser aproveitada. O que se pode dizer é que a sequência não é mequetrefe como “Se Eu Fosse Você 2”, por exemplo. O aval da Globo Filmes, nesse caso, não indica que o público estará assistindo novela no cinema, o que infelizmente parece ser o que motiva os brasileiros a conferir um filme nacional ou uma peça de teatro (repare que só se sustentam os espetáculos com atores famosos, vindos da televisão). Mas não: “Tropa de Elite 2” é muito bom. Dirigido pelo mesmo José Padilha que fez o anterior, tem roteiro co-assinado pelo diretor em parceria com Bráulio Mantovani e montagem de Daniel Rezende (os dois últimos indicados ao Oscar pelo trabalho em “Cidade de Deus”).

Dessa vez, o Capitão Nascimento é designado a tarefa de escritório, numa tentativa dos peixes maiores – policiais corruptos ligados à partidos políticos – de tirá-lo do caminho. Mas, como ele diz na narração em off, acabará percebendo quem são seus verdadeiros inimigos, e a guerra será pessoal (um parêntese para mencionar que essa narração conduz a trama do início ao fim, muitas vezes se excedendo na proposta). Vários integrantes do filme anterior reprisam seus papéis, como Maria Ribeiro, Milhem Cortaz e André Ramiro (este bastante limitado). E tudo é bem amarradinho, com a ação percorrendo vários anos (o filho de Nascimento, que era um bebê no filme passado, agora é apresentado com dez anos e, mais adiante, como adolescente; aliás, o filme abre com um tiroteio nos dias atuais para então retroceder e explicar os fatos que levaram a essa situação).

A narrativa não parece tão truncada quanto a do primeiro “Tropa”, que também perdia pontos pelo desenvolvimento plano de seus personagens mais relevantes, vide a previsível transformação do rapaz estudioso e afável num oficial frio e intransigente do BOPE. Agora, tem-se a sensação de que ninguém ali caminha em terreno firme, e algumas mortes surpreendentes de personagens que pareciam inatacáveis são a maior prova disso. O que incomoda um pouquinho é que o roteiro, ciente de que o filme passado deixou uma porção de falas na boca do povo, tenta criar mais uma série de bordões, todos os quais soam banais e óbvios. André Mattos, no papel de um deputado com um programa de TV sensacionalista (ao estilo José Luiz Datena), substancia quase todas essas investidas. Já o próprio Nascimento fica inativo em boa parte da projeção, mas quando finalmente arregaça as mangas e cai na porrada, leva a plateia ao delírio (aplaudiram e assobiaram na sessão em que eu estava).

À princípio, o filme pode parecer um panfleto de direita, como se balançasse assertivamente a cabeça àqueles que enxergam os problemas sociais do Brasil em preto e branco, como se não houvessem muitas tonalidades de cinza a considerar (obviamente, a esquerda é associada a intelectuais pretensiosos e maconheiros). Mas o roteiro vai repensando essa posição, e o próprio Capitão Nascimento vem a perceber que a banda toca em outro compasso. A transformação do personagem, neste caso, é bastante sutil, conduzida sem que “Tropa de Elite 2” tenha que tomar partidos. O resultado é mais do que satisfatório: é o que se obtém quando se conta uma história integralmente brasileira com disciplina e talento, tornando os tiroteios mais empolgantes que muita sequência grandiloquente de filme hollywoodiano e sem se esquecer de priorizar os personagens que impulsionam a brincadeira.

.:. Tropa de Elite 2 (Nacional, 2010, dirigido por José Padilha). Cotação: A-

Categorias:Cinema
  1. 15 outubro 2010 às 1:52 am

    eu saí chorosa do cinema, Namorado em prantos convulsivos.
    foi uma bela surpresa; diria até uma dolorosa surpresa. o filme chuta a bunda do primeiro com maestria.
    e eu discordo de você: Namorado que me chamou atenção ao fato que os bordões do primeiro filme são colocados agora na boca dos inmigos. antes de querer criar novos bordões pra repetir o sucesso do primeiro, acho que o filme quer mais é mostrar ‘aí, otário, cê achou que o primeiro era maravilhoso, né, ‘pede pra sair’, ‘caveira’, os caramba… agora TOMA!’.
    achei excelente. Wagner Moura é um abuso de bom; o elenco vai muito bem (amei sobremaneira o cara dos direitos humanos e o Rocha, aquele malvado). gostei muito, e olha que nem era um filme que eu queria ver…
    =***

    • 19 outubro 2010 às 1:51 pm

      Quéroul, acho que o filme realmente faz o público pensar sobre como comemorou, no primeiro filme, alguns atos escabrosos de violência, mas que o faz com as próprias ações e não com os bordões em si. Assim como você, nem fazia tanta questão de ver o filme (tenho minhas reservas em relação ao original) e gostei demais da conta! O elenco é realmente excelente.

      Beijo!

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