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Louis reflexivo

Porque, às vezes, um filme-cabeça é tudo o que a gente precisa.

“Blow-Up”, conhecido como “Depois Daquele Beijo” no Brasil, é um dos filmes mais cultuados de Michelangelo Antonioni, e dá para entender porque é objeto de veneração. Certamente não é pra se assistir apenas uma vez. Cada revisitada nos dá a chance de encontrar novas qualidades, fazer interpretações diferentes e entender opções que, a uma primeira vista, podem parecer complicadas ou puramente sem propósito. Mais do que qualquer coisa, é um filme de autor, para ser admirado mais pela perspicácia com que foi realizado do que pelo que tem a dizer (ou seja, para admirar antes de gostar).

Esta foi a primeira incursão de Antonioni longe da sua pátria Itália, e também seu primeiro grande sucesso comercial. Em consequência, ganhou a Palma de Ouro em Cannes e recebeu suas duas únicas indicações ao Oscar, Melhor Roteiro Original e Melhor Diretor (três décadas depois levaria um prêmio honorário, seu único reconhecimento por parte da Academia). A verdade é que Antonioni nada tinha de acadêmico. Seus filmes, apesar de terem um ponto de partida comum, fugiam da tradicionalidade como o diabo da cruz. Sua obra é, portanto, pouco acessível, e seu trabalho é um exercício de contemplação.

No caso de “Blow-Up”, Antonioni cria uma fábula sobre a incomunicabilidade. Seu protagonista é um fotógrafo de modas cheio de idiossincrasias e incapaz de se conectar emocionalmente com alguém. Até seu contato físico é limitado: ele é um ser mecânico, que fotografa por compulsão e só enxerga através da câmera, desaprendido a ver o mundo a olho nu. Até que um dia começa a fotografar às escondidas um casal pelo parque. Depois, revelando e ampliando as fotos (“blow-up” não só significa explosão, mas também essa técnica de ampliação), percebe que pode ter ocorrido um crime: vê o corpo do homem ao chão e a mulher ao lado com uma arma.

Nesse caso, a tecnologia detecta com atraso o que ele deveria ter visto de imediato. E a partir desse ponto nem ele nem o público sabe o que realmente aconteceu. O fotógrafo vai ao parque durante a noite e encontra o corpo. Volta pra casa, seu laboratório foi invadido e as fotos foram levadas. Volta ao parque no outro dia de manhã e o corpo sumiu. O filme fica nessa transição constante entre a natureza (o parque) e a técnica (o estúdio), sem entregar explicações mastigadinhas. E ainda envereda pelo terreno fantasioso, com um grupo de artistas de rua que aparece logo ao início e retorna ao final, para jogar uma partida de tênis sem raquete nem bola, tudo através de mímica (a sequência mais notável de “Blow-Up”, para se aplaudir de pé). Esse grupo interage com o fotógrafo, e da perspectiva deste, ouvimos o som da bola imaginária quicando de um lado pro outro. É como se ele tivesse entrado no clima, aceitado as regras do jogo e embarcado no imaginário, no volátil.

Além dessas alegorias, o diretor também se permite a uma crítica muito perceptível ao chamado “teste do sofá”. Com a figura de duas modelos fúteis que importunam o fotógrafo por uma sessão de fotos, ele explora a relação incômoda entre diretores de sucesso e jovens candidatas ao estrelado. Mais interessante ainda é como ele sabiamente situa a trama em plena Swinging London, registrando a cultura do pop, do sexo livre e da maconha fácil que estava nascendo. Sempre com cuidado excessivo, com planejamento meticuloso e com a visão de um estrangeiro curioso desbravando uma Londres fascinante. Ou seja, um sujeito em pleno controle de sua arte, fazendo cinema em seu estado mais bruto.

.:. Depois Daquele Beijo (Blow-Up, 1966, dirigido por Michelangelo Antonioni). Cotação: A+

Categorias:Cinema
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