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Eu Matei Minha Mãe

Quando escrevi sobre “Aquarela”, comentei que os filmes importados pela Festival, distribuidora voltada ao público GLS, costumam ficar segregados a esse nicho. “Eu Matei Minha Mãe”, que estreou nessa sexta-feira em circuito limitadíssimo, é a feliz exceção que comprova a regra. O protagonista é um adolescente gay, mas o tema é tratado com dignidade e normalidade, de modo que as qualidades da fita jamais se resumem a isso. De fato, este é apenas um detalhe que corre tangencialmente à trama principal: o relacionamento do jovem com a mãe.

O fato do menino ser gay é secundário e não chega a pesar nessa equação que, em sua totalidade, se propõe a discutir uma questão muito mais ampla e universal: a nossa capacidade de, ao mesmo tempo, amar e repudiar as pessoas próximas a nós. Os sentimentos são conflitantes, mas perfeitamente capazes de coexistir – ainda mais no relacionamento que cada um tem com a mãe, que tende a ser o mais especial, e também o mais complicado, que alguém jamais terá. Essa relação foi decisiva para moldar a nossa personalidade, e teremos de carregar seus benefícios e suas sequelas pelo resto da vida. Não é verdade que nós sempre gostamos das nossas mães – mas é indiscutível que, mesmo quando não estamos nos melhores termos, nunca deixamos de amá-las profundamente.

A dualidade está representada em alto e bom tom no roteiro que Xavier Dolan escreveu aos dezesseis anos de idade. Aos dezenove, ele rodou o projeto – que caracteriza como auto-biográfico -, assumindo também o cargo de diretor e o papel principal, seu alter ego. O filme foi ovacionado em Cannes, de onde saiu com três menções relevantes, e colecionou elogios de críticos ao redor do mundo, que se espantaram com a maturidade do rapaz e com a sua compreensão do processo de filmagem. Elogiá-lo seria chover no molhado, mas só para ratificar, ele realmente demonstra ter olho clínico para a coisa, por vezes com sacadas brilhantes.

Pode parecer que às vezes abusa da câmera lenta ou das longas tomadas com a câmera estática (normalmente, com dois personagens conversando lado a lado, sem fazer contato visual, como as várias cenas dele no carro com a mãe). Mas tudo faz parte da estrutura narrativa, de uma simetria que Dolan consegue manter do início ao fim, com admirável disciplina e senso de comando. Apenas algumas sequências de devaneios seriam dispensáveis – uma delas, mais para o final, é de longe o pior momento do filme.

Nada que comprometa a mão cheia de acertos, é claro. Até como ator o garoto se destaca, interagindo lindamente com a excelente Anne Dorval, que ficou com o papel da mãe. Rodado na parte francesa do Canadá, foi a submissão oficial do país para o Oscar de Filme Estrangeiro deste ano. Vale conhecer!

.:. Eu Matei Minha Mãe (J’ai tué ma mere, 2009, dirigido por Xavier Dolan). Cotação: B+

Categorias:Cinema
  1. 3 outubro 2010 às 3:05 am

    tá na lista pra semana do feriado. depois te conto.
    beijo

  2. rahru
    3 outubro 2010 às 3:20 am

    Acho esse filme fenomenal. E não só o filme.

    • 3 outubro 2010 às 3:42 pm

      Quéroul, não perca! Depois passe aqui pra comentar a respeito!😉 Beijo.

      Pedro, não sei se considero fenomenal, mas gostei MUITO e reconheço suas qualidades extensivas…

  3. 3 outubro 2010 às 9:47 pm

    Não tinha ouvido falar deste filme ainda, mas ele parece ser bem interessante.

  4. 4 outubro 2010 às 12:41 am

    Espero que ele chegue nos cinemas de minha cidade, já tem um tempo que quero ver!

    • 4 outubro 2010 às 3:44 pm

      Ka, é sim. Se aportar por aí, confira! Beijo.

      Alan, infelizmente entrou apenas em algumas capitais selecionadas (aqui em São Paulo, mesmo, só está em cartaz em duas salas). Espere pelo DVD ou tente baixar em último caso!

  5. 20 outubro 2010 às 12:44 am

    olha, eu gostei bastante. achei muito bonito, deu uma vontadinha de chorar em algumas partes e tudo.
    me lembrei de Van Sant um pouco, especialmente nas tais cenas em câmera lenta e naquela lindeza de ‘paisagem de outono’ do final. não vou mentir: me deu vontade de tar uns belos tabefes no menino, achei que tem hora que ele exagera tanto, mas TANTO nos gritos que eu duvidei um pouco do drama dele. mas era rápido, a mãe fazia favor de gritar mais, e aí eu achava perfeito; é só um adolescente com sua mãe. aliás, amei a mãe. ótima atriz, adorei.

    agora, fiquei CHOCADA com aquele francês. não entendia NADA! teve hora que parecia que eles tavam falando austríaco arcaico, porque pelamor… nunca nessa vida quero ver um canadense francófano de perto, credo!

    • 20 outubro 2010 às 5:56 pm

      Quéroul, o legal é que o roteiro é tão bem trabalhado que as vezes o público se vê dando razão pro menino, as vezes pra mãe. E as discussões que os dois travam são ótimas oportunidades para os atores se exibirem.

      Não domino francês e não percebi a entonação, mas sei que franco-canadense tem sotaque bem esdrúxulo. Já estive naquela região e isso é fato consumado por lá.

  6. Rosy
    11 janeiro 2011 às 7:06 pm

    Por favor, algueeeemm… não consigo ver o tailer deste filme, como faço p/ ver o trailer??

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