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Archive for outubro \31\UTC 2010

Mostra 2010: Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos

Mesmo que a fase atual de Woody Allen nem de longe remeta aos seus anos de glória, os fãs continuam a prestigiá-lo e a acompanhar seus filmes com um mínimo de simpatia. Os admiradores brasileiros do cineasta não são poucos, e seu novo trabalho “Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos” foi uma atração disputadíssima nessa Mostra, ainda que já tenha data marcada para entrar em circuito (na sessão em que eu estava houve overbooking e os últimos a chegar tiveram que se acomodar nos degraus).

Não carece comparar o filme, que passa por uma diversão honesta, satisfatória e despretensiosa, com as obras-primas que ficaram eternizadas. Mas vale dizer que, dentre os exemplares da nova fase de Allen, este aqui é dos mais interessantes. Geralmente, ele lança um filme por ano, já que é conhecido por filmar com economia, dentro do prazo e do orçamento; aliás, é notório por detestar ensaios e repetição de tomadas, pois já contrata os atores sabendo o que eles renderão. Tanto que a participação de Anthony Hopkins nesse filme é bem conveniente, uma vez que ele próprio é considerado um profissional preciso e direto.

A trama é novamente ambientada em Londres (depois de tanto tempo declarando o amor por Nova York, Woody resolveu admirar paisagens mais européias, e ao que tudo indica, também planeja filmar em breve no Brasil). Algumas marcas registradas do diretor continuam presentes – créditos iniciais sóbrios em fonte serifada, elenco creditado em ordem alfabética, narração onisciente conduzindo a ação -, e o roteiro, como também é bastante típico de Allen, começa atirando para todos os lados antes de se assentar e deixar clara sua linha de raciocínio.

Começa apresentando uma senhora (Gemma Jones) que recorre a uma cartomante depois que o marido (Hopkins) lhe troca por uma garota de programa vulgar. A filha do casal (Naomi Watts) testemunha as ladainhas da mãe após o divórcio, embora ela própria tenha problemas no casamento: o marido (Josh Brolin) é um “escritor de livro só” que, na ansiedade de ter o novo romance aprovado pela editora, começa a passar tempo demais espiando a vizinha musicista do outro lado da rua (Frieda Pinto). Há um outro elemento na história, o dono da galeria de arte em que Naomi trabalha interpretado por Antonio Banderas (erroneamente, o pôster nacional parece vendê-lo como protagonista da história, quando na verdade é um coadjuvante; o título do filme também parece se referir a ele, mas é bem mais abrangente).

Em termos de comédia, é bem eficiente e nunca cansativo – apesar de, às vezes, deixar a sensação de que certas cenas poderiam ter sido suprimidas pela narração e de que, ao contrário, estão narrando passagens que poderiam ser desenvolvidas em quadros. Num balanço geral, esta é uma fita muito agradável que os fãs de Allen receberão de bom grado. Como, aliás, sempre tem sido.

.:. Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos (You’ll Meet a Tall Dark Stranger, 2010, dirigido por Woody Allen). Cotação: B+

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Mostra 2010: Cyrus

A comédia dramática “Cyrus” parece determinada a provar que, apesar da premissa típica de fitas comerciais e descartáveis, é também uma representante ardorosa do cinema independente americano. Afinal, os personagens tem sua dose de disfuncionalidade e o roteiro, escrito pela dupla de diretores Jay e Mark Duplass, observa com bom humor os porvires mundanos. Do ponto de vista técnico, a câmera é sempre mantida à mão, a fotografia é granulada, e os atores são surpreendidos em seus ângulos menos glamurosos por closes excessivos e zooms cafonas. Esse estilo “indie” de filmar costuma cair como uma luva a produções realmente pequenas, rodadas com muita criatividade e poucos recursos – mas, aqui, resulta apenas num fetiche desnecessário e estranho (para o espectador ocasional, a abordagem crua de uma história calorosa vai soar, com razão, conflitante).

Uma pena, porque o filme não é ruim e certamente seria mais desfrutável se narrado com maior sinceridade. Na trama, um divorciado amargurado (John C. Reilly) percebe que precisa superar sua ex (Catherine Keener) quando descobre que ela está prestes a se casar pela segunda vez. Numa festa, depois de muitas investidas fracassadas, vai conhecer uma mulher que finalmente parece compreendê-lo (Marisa Tomei, ainda uma das atrizes mais interessantes em atividade). O problema é que ela tem um filho já adulto chamado Cyrus (Jonah Hill, o gordinho de “Superbad”), com quem nutre um relacionamento íntimo e, sob outras perspectivas, doentio. O garoto não aceita que a mãe esteja abrindo a casa e a vida para outro homem, e vai dar início a uma série de chantagens emocionais para sensibilizá-la. A certo ponto, Reilly percebe com quem está lidando e começa a revidar os ataques, o que sempre rende bons momentos de comédia. Para quem se empolgou, a estreia já está marcada para o próximo dia 5.

.:. Cyrus (Idem, 2010, dirigido por Jay Duplass e Mark Duplass). Cotação: C+

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Mostra 2010: Das Kind – A Criança

29 outubro 2010 2 comentários

Quem participa da Mostra sabe que, em certas ocasiões, vai acabar assistindo a alguns filmes totalmente às cegas, seja porque foi a única opção que se encaixava no horário, seja porque a programação oficial sofreu imprevistos. Foi isso que me levou a “Das Kind – A Criança”, já que o disputado “Homens e Deuses” foi retirado da grade do Espaço Unibanco Pompéia sem aviso prévio. Não tinha qualquer referência sobre o filme, e se tivesse, provavelmente o teria dispensado. Trata-se de um documentário muito pobrezinho, no sentido de que requereu o mínimo de pesquisa (é todo calcado nas lembranças de uma judia romena sobre a época em que servia à Resistência Comunista durante a Segunda Guerra Mundial) e de que não insere nada de novo ou interessante a um assunto explorado à exaustão. No final das contas, a experiência é muito mais gratificante para a senhora e sua família, que se orgulha da postura que ela manteve durante um período de extrema dificuldade, do que para o espectador. Até porque o diretor, um certo Yonathan Levy, parece não ter domínio sobre o que faz e intercala aos depoimentos um monólogo chatíssimo, interpretado por uma atriz sozinha num palco mal iluminado (literalmente, um teatro filmado, e uma peça das mais ordinárias; ao final se descobre que a atriz é neta da velhinha e estava o tempo todo personificando a avó). Aliás, o projeto todo é familiar, já que um dos filhos dessa senhora serve como roteirista e produtor. Todo meu respeito à mulher, que é realmente um pedaço de história viva, mas toda minha rejeição aos envolvidos em “Das Kind”, que não souberam explorar essa fonte em todo seu potencial.

.:. Das Kind – A Criança (Das Kind, 2010, dirigido por Yonathan Levy). Cotação: E+

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Mostra 2010: Tio Boomnee, que pode recordar suas vidas passadas

28 outubro 2010 3 comentários

O Festival de Cannes deste ano, cujo júri foi presidido por Tim Burton, optou por conceder a honraria máxima, a Palma de Ouro, a um filme tailandês co-produzido por França e Inglaterra. Trata-se de “Tio Boonmee, que pode recordar suas vidas passadas”, uma das atrações mais disputadas da Mostra deste ano, sem data de estreia prevista no Brasil (a cópia, inclusive, ainda não tem legenda embutida: a legenda é daquelas eletrônicas, projetada num espaço retangular abaixo da tela; isso pode ser um verdadeiro problema para salas como as da Reserva Cultural, que são muito baixas e obrigam as pessoas a espichar o pescoço para ler).

Sobre o filme em si, é muito difícil dar qualquer parecer. É diferente, esquisito, radical, por vezes perturbador e certamente para um público selecionado. O personagem título, tio Boonmee, é um camponês que sofre de falência nos rins. Já à beira da morte, com amigos e familiares ao seu lado na casa em que nasceu, ele vai receber a visita de alguns fantasmas do passado. É o caso da esposa, que faleceu aos 42 anos e que reaparece num espectro para ajudá-lo a cuidar da saúde. Também é o caso de um filho que tinha se embrenhado na floresta para nunca mais ser visto – ele volta transformado num macaco de olhos vermelhos, porque teria copulado com uma das criaturas lendárias que habitam as matas da região!

Entrementes, tio Boonmee terá vislumbres de algumas de suas vidas passadas, primeiro na forma de um búfalo, depois como uma princesa que faz um acordo com um peixe para ficar eternizada no reflexo juvenil que enxerga nas águas, e não na atual velhice em que se encontra. Todas essas excentricidades são recebidas com naturalidade pelos personagens, como se cada ocorrido fosse absolutamente normal. O fato é que todas as regiões, ainda mais essas carregadas de história e tradição, são recheadas de anedotas, e é interessante conhecer essas aqui pela perspectiva do diretor, o tailandês Apichatpong Weerasethakul.

Não era familiarizado com o seu trabalho, mas por este aqui percebo que ele não faz muitas concessões. Se o filme sabe ser leve e bem-humorado, ao mesmo tempo também é arrastado, silencioso e contemplativo. E se a apreciação do resultado depende do gosto de cada um, ao menos é indiscutível que o diretor reserva o maior respeito à trama que está desenvolvendo – que prega que as crendices podem ser reais para aqueles que encontram sentido nelas – e aos elementos de seu país que, indissoluvelmente, estão retratados ali – há menções à situação política da Tailândia e à imigração dos laosianos, e os próprios atores são, em sua grande maioria, moradores locais sem qualquer instrução profissional.

Pode parecer clichê dizer que, mais que um filme, esta é uma experiência, mas realmente não há outra maneira de definir. “Tio Boomnee” não é programa para a Marineide e o Clodoaldo que gostaram da novela “Porto dos Milagres”. Na sua terra, pode ser visto com a melhor das intenções, mas não há como negar que, em países estrangeiros – e muito particularmente no Brasil – chegará com a chancela de um produto cult para plateias alternativas e pensantes (ou seja, é bem elitista). Eu, à uma certa altura, embarquei na viagem e não me arrependo de tê-la realizado. Mas, recomendo que tirem suas próprias conclusões.

.:. Tio Boonmee, que pode recordar suas vidas passadas (Uncle Boonmee Who Can Recall His Past Lives, dirigido por Apichatpong Weerasethakul). Cotação: A-

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Mostra 2010: Não Me Deixe Jamais

27 outubro 2010 17 comentários

Às vezes os diretores se esquecem de que o cinema, ao contrário do teatro e da literatura, é realista demais para que soluções alegóricas, perfeitamente críveis nas outras duas mídias, sejam facilmente digeridas pelo espectador. Foi o que comprometeu “Ensaio Sobre a Cegueira”, de Fernando Meirelles, e também parece ser o principal problema do drama de ficção “Não Me Deixe Jamais”, produção britânica dirigida por Mark Romanek, com Carey Mulligan, Keira Knightley e Andrew Garfield no elenco.

Adaptado de um livro do japonês Kazuo Ishiguro, o filme parte de um conflito completamente inverossímil, para não dizer absurdo. Na trama, crianças são confinadas num orfanato com o propósito de se tornarem doadoras de órgãos quando crescerem. A passividade dos personagens diante disso é incabível, já que todos sabemos que, fora tráfico de órgãos, qualquer doação precisa ser consentida, com uma burocracia dos infernos da parte dos hospitais. Logo, a preocupação dos mocinhos, que não sabem quanto tempo de vida útil terão antes que coletem seus órgãos (ou a quantas cirurgias conseguirão sobreviver), é inaceitável. Há uma justificativa para essas atitudes, reservada como uma surpresa, mas mesmo essa lógica interna é tão mal delineada que fica difícil para o público traçar parâmetros, entrar no esquema e refletir sobre a hipótese de implicações morais que o filme apenas sugere sem se aprofundar.

Para piorar, a criação de um triângulo amoroso entre os três personagens centrais gera um pano de fundo pífio e desinteressante, prejudicado ainda pela trilha sonora excessiva. O fato é que “Não Me Deixe Jamais” me pareceu um filme sem razão de existir. Nem mesmo os jovens atores, todos no auge de suas carreiras, conseguem render em papeis tão unidimensionais (Garfield foi confirmado como o novo Homem-Aranha e está colhendo elogios por “A Rede Social”, mas até então não vi nada dele que seja digno de atenção). Há outro azar: a figura mais calorosa e cativante do elenco – uma professora interpretada pela sempre excelente Sally Hawkins – é dispensada no primeiro terço de projeção. Daí em diante, nada suaviza essa história carregada de melancolia e desprovida de bom senso.

.:. Não Me Deixe Jamais (Never Let Me Go, 2010, dirigido por Mark Romanek). Cotação: D+

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Mostra 2010: O Garoto de Liverpool

26 outubro 2010 5 comentários

A carreira musical dos Beatles dispensa introduções, mas muitos desconhecem detalhes sobre a concepção do grupo e a ascenção acelerada no início dos anos 60, época em que serviram como a maior influência para a juventude inglesa e mundial. Esse é apenas um dos pontos curiosos de “O Garoto de Liverpool”, cinebiografia de John Lennon em seus tempos de adolescente dirigida por Sam Taylor-Wood e com Aaron Johnson no papel principal. O longa retrata Lennon como um rapaz inquieto, extrovertido e criativo, que resolve montar uma banda de rock na esperança de, um dia, ser tão bem sucedido quanto Elvis Presley.

À medida em que essa banda vai passando por várias mudanças até a formação do quarteto que ficaria eternizado, Lennon vai explorando seu talento para a música, desvencilha-se do caminho do ídolo e chega a um som autêntico e original, um rock leve e cheio de texturas que o faria alcançar, por méritos próprios, a fama internacional. O diferencial do filme é mostrar, também, a sua pouca comentada convivência familiar. No caso, quando se dividia entre duas mães, a biológica – que abriu mão do filho quando ele ainda era criança por conta de seus problemas emocionais – e a adotiva – uma tia que o criou desde os cinco anos de idade, num misto de rigidez e afeto.

As atrizes que as interpretam, Anne-Marie Duff e Kristin Scott Thomas, são sensacionais, e é com as duas que Aaron compartilha os melhores momentos. A reconstituição de época é convincente e o roteiro de Matt Greenhalgh, que já tinha biografado outro ícone da música (Ian Curtis, do Joy Divison, em “Control”), é menos truncado do que se esperaria, justamente por ter essa trama familiar contínua se desenvolvendo paralelamente à formação da banda. Curtinho – tem hora e meia de duração – e fácil de assistir e de digerir, o filme estreou aos Estados Unidos na semana em que Lennon, se estivesse vivo, completaria 70 anos, e chega ainda em 2010 no Brasil (está agendado para a primeira semana de dezembro). Uma boa pedida!

PS: Momento fofoca de bastidores para quem ainda não sabe! Durante as filmagens, Johnson e a diretora iniciaram um relacionamento e permanecem juntos até hoje, apesar de uma diferença de idade de 23 anos!

.:. O Garoto de Liverpool (Nowhere Boy, 2009, dirigido por Sam Taylor-Wood). Cotação: B+

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Mostra 2010: O Mágico

25 outubro 2010 2 comentários

Os especialistas garantem que “O Mágico”, desenho co-produzido por França e Inglaterra, é um concorrente garantido ao próximo Oscar de Melhor Filme de Animação – e a julgar pelas credenciais impecáveis do diretor e roteirista Sylvain Chomet, que já adentrou nessa categoria com “As Bicicletas de Belleville”, as chances disso acontecer são realmente expressivas. Aliás, não se espante se “O Mágico” te remeter a muitos detalhes de “Bicicletas”. Trata-se de outra fita curiosa, talentosa e peculiar, cuja história é contada quase que inteiramente sem diálogos.

Baseado em texto original de Jacques Tati, o filme é sobre um velho mágico francês que viu seus dias de glória ficarem para trás. Nos anos 60, a Europa e o mundo se renderam a atrações mais sensacionalistas e os bons e velhos shows de variedade ficaram obsoletos. Sem emprego nos grandes centros, aonde seus truques são desacreditados, o senhor, que não perde a pose e a elegância, se refugia num vilarejo distante, finalmente trazendo, com sua apresentação, frescor e alegria aos habitantes do lugar. Mas a impressão mais forte ele causará numa garota pobre e ingênua, que acredita que os truques correspondem à magia de verdade. Ela vai segui-lo até Londres quando a temporada chega ao fim, e se transforma imediatamente numa figura filial, responsável por tirar o mágico de seu insulamento emocional. Daí em diante, o filme o acompanha tentando emplacar sua arte, enquanto a menina se torna mocinha, se interessa por vestidos e sapatos, fica próxima de um rapaz e percebe, enfim, que nem tudo na vida pode ser resolvido com ilusionismos.

A identidade visual do filme é um de seus principais atributos. A concepção dos personagens com traços amaneirados e rústicos e os cenários simplificados e estáticos são charmosos e eficazes, contrariando a noção atual, em especial no que diz respeito à animação, de que alta definição e senso tridimensional são indispensáveis à narrativa. Segundo “O Mágico”, nem toda tradição pode ser descartada, já que muito do que se diz ultrapassado possui beleza e pureza ímpares (caso dos vários artistas circenses vivendo como párias num pensionato caindo aos pedaços). Infelizmente, esse é o mundo em que vivemos, e nada mais justo que o desfecho do filme seja melancólico, triste e pessimista. Ainda que a trama dê sinais de cansaço, esta é uma obra que merece ser vista e celebrada. Os cinéfilos devem lacrimejar com um momento específico: quando o personagem entra no cinema e os desenhos estão assistindo aos atores de carne e osso.

.:. O Mágico (L’Illusionniste, 2010, dirigido por Sylvain Chomet). Cotação: B+

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