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Johnny Got His Gun

Tem filmes que funcionam como diversão sem compromisso, para ver e esquecer. Tem filmes que funcionam como forma de reflexão e permanecem na nossa cabeça por muito tempo depois de assistidos. E tem filmes que, nesse processo, são tão invasivos que acabam funcionando como uma tijolada na testa, deixando-nos transtornados a ponto de abalar nossa percepção de mundo. “Johnny Vai à Guerra” (no original, “Johnny Got His Gun”) é um raro exemplar dessa última categoria.

É um filme de 1971 lançado em DVD no Brasil, mas acredito que seja mais difícil de encontrar do que estudante de Cinema que não seja maconheiro. Baseado no livro homônimo de Dalton Trumbo lançado em 1939, é uma das poucas adaptações cinematográficas a contar com um envolvimento total do autor – Dalton assina o roteiro e a direção, sendo essa sua única realização como cineasta (mas antes disso ele já tinha se firmado como roteirista de sucesso e ganhado dois Oscars). Fica claro que é um projeto bastante pessoal, já que Trumbo foi uma figura politizada e, de fato, uma das maiores vítimas do macarthismo nos anos 50. Mas nem a reputação dele como escritor poderia ter preparado o espectador para uma obra de tanta intensidade e profundidade.

A trama de “Johnny Vai à Guerra” é centrada em um soldado da Primeira Guerra Mundial (o nome Johnny também funciona para generalizar o personagem, que substancia todos os soldados feridos na batalha). Johnny se acidenta numa mina terrestre, e acaba com as pernas, os braços e parte do rosto amputados. Perde também a maioria dos seus órgãos sensoriais. Ele se reduz a um tronco – mas um tronco que pensa! Com uma memória lúcida e clara, Johnny vai se alternando entre o horror indescritível do presente (filmado num impiedoso preto-e-branco) com aquilo que a sua memória preserva (mostrado em cores). Nisso se confundem lembranças com sonhos e delírios, sem nunca deixar claro quando um termina e o outro começa. Uma premissa bastante parecida com a história (real) de “O Escafandro e a Borboleta”, mas muito mais estarrecedor que o filme de Julian Schnabel.

“Johnny Vai à Guerra” é praticamente um manifesto contra a guerra, as que já aconteceram, as que acontecem e as que ainda acontecerão. Mais do que isso, é um teste ao nosso senso de humanidade – até quando é possível preservá-la? O que nós faríamos numa situação como aquela? Até quando gerações vão ser perdidas lutando por algo que nem parecem entender? E as indagações não param, as ponderações não deixam de abalar, e o filme não permite a indiferença do público. É intimista, poético e perturbador. Para assistir quando estiver a fim de mergulhar fundo nas próprias emoções.

.:. Johnny Vai à Guerra (Johnny Got His Gun, 1971, dirigido por Dalton Trumbo). Cotação: A-

Categorias:Cinema
  1. 18 setembro 2010 às 7:01 pm

    LOUIS RICARDO FERREIRA DE BRAGANÇA & ORLEANS!
    meu deeeeeeeus. meu deeeeeeus. eu PRECISO desse filme, mas preciso tanto! eu consegui baixar uma vez, tenho em casa, mas a legenda não funcionou e eu não conseguia entender o bigodudo no começo, tava muito difícil aquele inglês texano-style, não assisti mais pra não perder muito.
    mas tudo o que eu já vi do filme – trechos e, claro, o clipe do Metallica, heh, eu AMO.
    onde vc achou essa maravilha?

    beijos, aloka.

    • 19 setembro 2010 às 1:10 am

      Quéroul, senti que você ficou levemente empolgada com o filme! HAHAHA

      Então, eu soube que foi lançado em DVD no Brasil, mas a verdade é que eu baixei em 2008, por torrent, no extinto Mininova, e nunca deletei o arquivo. Deixei salvo numa pasta e revi dia desses. Como parece que a gente vai se encontrar em breve (eu quero!), gravarei num CD pra te dar de presente🙂

      Beijo!!

  2. 19 setembro 2010 às 1:27 am

    empolgada, eu? imagina só.😛
    eu vi pra vender na 2001 e demais lojas virtuais. mas era uns quarenta reais, dvd simprão, sem nada além do filme, e eu com tantas coisas pra comprar, hahaha. sua versão é legendada? eu não entendo o bigodudo, Louis, é um sofrimento.
    e, ai, fico ruborizada com essa sua gentileza. que fofo.
    =***

    • 19 setembro 2010 às 5:33 pm

      É mesmo, Quéroul, esqueci do detalhe da legenda!! Pelo que eu me lembro, quando baixei o arquivo há alguns anos, também baixei a legenda, mas ela estava zoada, de modo que acabei vendo sem. Vou estudar algumas possibilidades para te levar o filme legendado. Minha fofura não tem limite😉

      Beijo!

  3. 19 setembro 2010 às 5:34 pm

    Já ouvi falar bastante desta obra. Preciso conferir!

    • 19 setembro 2010 às 6:05 pm

      Ka, pra você, que eu dificilmente encontrarei pessoalmente, eu posso enviar o filme pelo correio! Beijo.

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