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Nosso Lar

Religião é, e sempre será, um assunto delicado, pessoal e indiscutível. Justamente por se tratar de algo tão íntimo e particular, são desnecessárias as pregações que encontramos em cada esquina, nas quais os ditos profetas incitam a intolerância àqueles que tem uma crença diferente da que defendem. Os filmes com escopo religioso costumam evidenciar este problema, e tendem a ser mais um veículo de conversão do que uma obra cinematográfica auto-suficiente e bem intencionada.

“Nosso Lar”, filme nacional em cartaz nos nossos cinemas desde sexta-feira, não chega a sofrer deste mal, mas não escapa de um outro. Não é uma tentativa de converter a plateia, e sim um trabalho específico para aqueles que já foram convertidos – no caso, os adeptos do espiritismo. Enquanto os fiéis vão se identificar de imediato, os seguidores de outras religiões e os inteiramente céticos podem debochar da história, ou, no máximo, encarar a fita como uma mera ficção – e, tomando por esses parâmetros, o filme não passa do bom, pendendo ao regular.

De qualquer forma, os espíritas, também chamados de kardecistas, devem corresponder à maior parcela do público que colocou “Nosso Lar” no topo das bilheterias brasileiras. O filme foi divulgado com a premissa muito clara, chamando atenção para o fato de ser baseado num livro do médium Chico Xavier (1910-2002), ditado a ele pelo espírito André Luiz. Também é muito conveniente que tenhamos visto, no início do ano, uma cinebiografia de Chico, para reforçar a admiração e o carinho que tantos nutrem por ele.

“Nosso Lar” teve, na melhor das hipóteses, uma equipe empenhada e dedicada, que se não acreditava na história que estava contando, ao menos lhe atribuía o maior respeito. Tomem como exemplo a presença da atriz Ana Rosa, uma representante ferrenha do espiritismo (ela se converteu nos anos 90, depois que uma das filhas morreu atropelada, e adaptou para o teatro o livro espírita “Violetas na Janela”, com o qual excursiona até hoje). A direção de Wagner de Assis também é competente, considerando que tinha em mãos um tema difícil de transpor para qualquer tela, e pesando contra si a inexperiência (só tinha no currículo o fraco “A Cartomante” e roteiros de filmes da Xuxa).

A trama gira em torno de um médico (Renato Prieto, também espírita na vida pessoal) que, após falecer, vai parar numa espécie de purgatório, ao qual se referem como Umbral. Lá não encontra o descanso eterno, a paz ou a tranquilidade, pois a iluminação precisa ser conquistada pelo espírito, que não se livra das dores e aflições do mundo físico até se arrepender das falhas cometidas. O roteiro, escrito pelo próprio diretor, acompanha os ensinamentos que este espírito receberá até a gradual compreensão da existência humana, tanto lá quanto cá. O faz, porém, com um didatismo excessivo, incômodo e redundante, que pode testar a paciência do espectador ou irritá-lo por completo.

Deve-se reconhecer, no entanto, que não é fácil ilustrar este imaginário, o Além, sem cair no kitsch. Tanto que outros filmes com essa mesma proposta dificilmente escaparam do lugar comum (figurinos exotéricos, cenários predominantemente brancos, fotografia clara etc). O que causa maior estranheza, pelo menos aos que não estejam familiarizados com o espiritismo, é a estrutura moderna do pós-vida, como se as almas que partiram fizessem parte de uma civilização avançada! Ao menos, os efeitos especiais que ajudam a construir este mundo são realmente expressivos, quase sempre convincentes e bastante evoluídos para os nossos padrões – foram concebidos por uma empresa canadense que colaborou com os efeitos de “Watchmen” e “Fonte da Vida”, entre outros.

Se ainda restam dúvidas quanto ao pedigree da produção, basta saber que a trilha foi composta pelo americano Phillip Glass, que tem três indicações ao Oscar na bagagem e credenciais impecáveis. Os atores também dão conta do recado. Embora Prieto não chegue a marcar no papel central, o restante do elenco – que engloba de desconhecidos a veteranos como Othon Bastos e Paulo Goulart – consegue segurar as pontas. Num balanço final, temos um filme satisfatório do ponto de vista cinematográfico, mas que deve tocar o público por questões que não estejam relacionadas aos méritos técnicos. Assim como a religião, “Nosso Lar” está aberto a interpretações pessoais, e daí partem as chances de se envolver com a história ou de rejeitá-la por completo.

.:. Nosso Lar (Nacional, 2010, digirido por Wagner de Assis). Cotação: C-

Categorias:Cinema
  1. 10 setembro 2010 às 2:20 pm

    Achei a mensagem do filme muito bonita. Acredito que a obra quer reforçar a fé de quem já a possui e sensibilizar aqueles que não creem nisso. Se ela vai ser bem sucedida nisso, depende de cada pessoa. Como filme, no entanto, a obra é bem ambiciosa, tem efeitos muito bons.

    Beijo!

    • 11 setembro 2010 às 2:56 am

      Ka, concordo em termos de ambição, mas simplesmente não fui tocado pela mensagem bonita do filme e tive que me ater a seus termos técnicos. Ou seja: roteiro ruim e algumas atuações constrangedoras vs efeitos, fotografia, as demais atuações convincentes… De fato, não consigo recomendar a ninguém além dos próprios espíritas.

      Beijo!

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