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Inception

Com “A Origem”, o britânico Christopher Nolan dá a prova definitiva de talento aos poucos que ainda não estavam convencidos de que ele é um dos diretores mais brilhantes em atividade. Ele se mostrara capaz de conceber mundos completos e complexos, de administrar orçamentos gigantescos (só neste aqui foram empregados 200 milhões de dólares) e de envolver o público em experiências formidáveis. Mas mais do que qualquer outra coisa, Nolan tem o dom de contar uma história com a precisão que falta a qualquer outro diretor hoje em dia. Alguns de seus filmes anteriores, como os ótimos “Batman Begins” e “O Cavaleiro das Trevas” e os excelentes “Amnésia” e “O Grande Truque”, se destacavam pela fluência narrativa – e, no caso dos dois últimos, pela maneira com que as reviravoltas e os emaranhados da trama ganhavam forma junto do espectador.

Essa habilidade de envolver, instigar e surpreender sem subestimar a inteligência do público – ao mesmo tempo em que não o inferioriza, plantando sempre as pistas para que a história seja desvendada e bem explicada – é levada a outro nível em “A Origem”, o péssimo título nacional para “Inception” (que a legenda inclusive tenta adotar). Trata-se de uma ficção científica inventiva e bem executada, num mundo em que os sonhos podem ser invadidos e mapeados. Assim, o personagem de Leonardo diCaprio é um espião industrial que, junto do parceiro Joseph Gordon-Levitt, penetra na mente de executivos importantes e rouba segredos preciosos que lá estejam armazenados. Até que recebem a proposta de um desses executivos (Ken Watanabe) para fazer o oposto e “inserir” uma ideia na cabeça de alguém: convencer o herdeiro de um magnata da indústria de energia (Cillian Murphy) a dividir a empresa do pai e acabar com a hegemonia deste império.

Leonardo aceita o serviço em troca do direito de entrar nos Estados Unidos – afinal tem um casal de filhos pequenos que não pode ver, já que teve de fugir do país quando passou a ser procurado pelo assassinato da esposa (a bela Marion Cotillard). Mais adiante iremos descobrir as verdadeiras circunstâncias em que ela morreu, mas a personagem continua aparecendo como projeções do subconsciente do herói, invadindo sonhos alheios e se voltando violentamente contra ele. A equipe escolhida para penetrar na mente do jovem bilionário inclui um profissional experiente (Tom Hardy) e uma arquiteta que fica deslumbrada ao ser apresentada a esta realidade volátil (Ellen Page). Esta última, aliás, se tornará cúmplice dos traumas internos do protagonista – e o roteiro, que não pretende sugeri-los como par romântico, é esperto em associá-la, ainda que timidamente, ao personagem de Gordon-Levitt.

Enfim, para tornar a empreitada possível, bolam um plano bem elaborado em três níveis: sonho dentro de um sonho dentro de outro sonho. Cada um deles ocorre em tempos diferentes, pois quando sonhamos nossa noção de tempo é distorcida (uma situação que pareceu durar uma hora completa pode não ter passado de cinco minutos adormecidos no mundo real). Este raciocínio, aliás, é um dos pontos mais destacáveis do roteiro, escrito pelo próprio diretor: todos sonhamos, percebemos que esses sonhos tem uma lógica interna, não conseguimos nos lembrar direito de como começaram, descobrimos possuir habilidades desconhecidas, e temos a sensação de que tudo é extremamente vívido – por mais absurdo que tenha sido – até o momento em que despertamos. Nolan não é o primeiro a dar vida a este fenômeno, mas deve ser quem melhor o justifica. O filme também tem sua lógica própria, e por não se render a pretensiosas viagens de ácido (os cenários, apesar da arquitetura fantástica, não chegam a ser mirabolantes), torna a ação crível e aceitável.

O timing com que os acontecimentos paralelos são sincronizados é nada menos que genial. Aliás, apesar do final em aberto ter dado o que falar (não é filme pra ser visto uma vez só; estou ansioso pela próxima assistida e aguardando novas interpretações), “A Origem” não é difícil de acompanhar. Pelo contrário: o primeiro ato é cheio de explicações, que vem naturalmente através de Page, uma novata no ramo (como não havia modo de escapar do clichê dos diálogos expositivos, Nolan ao menos os incorporou ao andamento da trama). E de um ponto em diante a ação e a aventura engrenam para não mais decair. São sequências de uma coreografia admirável, seja pelos efeitos digitais e de som, seja pela extraordinária montagem, todos dignos de Oscar. A trilha musical de Hans Zimmer é o único elemento que pode não soar adequado a um contato inicial, mas em geral pondera bem as cenas, sendo incisiva e lancinante, mas se refreando antes de incomodar. Ou seja, produção de altíssimo nível, com elenco competente e diretor inspirado, que consegue entreter e fazer pensar. Até então, o filme do ano.

.:. A Origem (Inception, 2010, dirigido por Christopher Nolan). Cotação: A+

Categorias:Cinema
  1. 7 agosto 2010 às 4:07 pm

    De fato, é um filme excelente e que fará muitos indagarem sobre o poder dos sonhos. Até os 120 minutos, a trama parece ser mastigada para os cinéfilos, mas depois vai tomando rumos estranhos e que desafia quem assiste a formular teorias sobre o epílogo, muito interessante por sinal. Quero ver novamente esse, Louis. Abraço🙂

  2. Lucy
    7 agosto 2010 às 10:39 pm

    Fui ver Inception hj (me recuso a chamá-lo pelo nome em português, sou chata mesmo) e estou encantada até agora. Foi um pouco de tudo: a genialidade do roteiro, da direção, da trilha sonora, das atuações. Não consigo nem formular pensamentos direito, de tão desafiada que me sinto pelo que assisti. Preciso ir ver de novo, o quanto antes, pra tentar pegar detalhes e confirmar algumas suspeitas e teorias que ficam aparecendo na minha mente o tempo todo…

    • 7 agosto 2010 às 11:01 pm

      Jeniss, concordo com tudo, mas acho que desde antes do final o Nolan já planta alguns indícios de que a coisa não é tão simples assim!🙂 Abraço.

      Lucy, assim como você, vou morrer chamando o filme de Inception, nome muito mais lindo e coerente! E assim como você também vou rever em breve – e mais de uma vez!

  3. 7 agosto 2010 às 11:16 pm

    preciso muito.

  4. ana paula
    8 agosto 2010 às 3:56 am

    Finalmente um onda gigantesca de inventividade nesse mar de mediocridade que se transformou o cinema atual.

  5. 8 agosto 2010 às 3:46 pm

    Ter revisto no IMAX não tem preço … só confirmou que é o melhor filme do ano … minhas duvidas foram tiradas, e te digo ainda mais meu amigo … dificilmente um filme terá a magnitude da experencia que ele pode propor ao espectador quanto foi entrege em a origem … FUDIDO DE FODA …

    • 8 agosto 2010 às 4:23 pm

      Quéroul, foi o filme mais esperado por mim nos últimos meses! Necessitava.

      Ana Paula, concordo que o filme é extremamente inventivo, ainda que não dê o cinema atual como caso perdido.

      JP, assim como você eu assisti em IMAX. Experiência extraordinária, e sim, melhor filme do ano!!!

  6. 8 agosto 2010 às 7:01 pm

    Como ainda não conferi o filme, tenho evitado ler os textos sobre ele. De qualquer maneira, parece ser unânime que “inception” é o filme do ano. Beijo!

  7. Rafaella Sousa
    8 agosto 2010 às 11:06 pm

    Ê filme bom! Andaram reclamando em algumas resenhas que eu li, que o filme teria muitos diálogos explicativos, estaria bastante mastigado e não havia sido deixado muito para que o espectador pense. Eu discordo totalmente e estou tão entusiasmada com esse filme quanto você! Os efeitos especiais e talz, nem comento. Incríveis. Roteiro ótemo! E atuações maravilhosas. Eu sempre confiei no Leonardo DiCaprio mesmo quando meteram o malho nele em Titanic. Ele ainda vai ganhar um Oscar! O elenco foi mesmo escolhido a dedo, porque todos estão ótimos. Quando saí da sala, pensei até ter entendido o filme, mas acho que vale muito ir mais uma vez ao cinema. Porque filme bom assim é pra ser visto e revisto no cinema, né?

    • 9 agosto 2010 às 12:55 am

      Ka, eu entendo as suas precauções. Acho bom embarcar neste filme com o mínimo de informação possível! Beijo.

      Rafaella, essas resenhas não são pra levar a sério. O filme, pelo contrário, sabe moderar muito bem os diálogos e entrega só o suficiente para que o público acompanhe a trama. Compartilho seus elogios ao elenco, e confirmo que o filme tem que ser visto mais de uma vez, de preferência ainda no cinema!

  8. Tiago
    9 agosto 2010 às 4:42 pm

    Preciso ver esse filme logo, senão eu vou merecer um #fail grandao na minha cara😀

  9. Bárbara :)
    12 agosto 2010 às 10:31 pm

    Assisti hoje! Adorei esse filme!! Quero ver de novo. FATO !

  10. 14 agosto 2010 às 4:13 am

    Ainda estou num misto de êxtase e incredulidade…realmente, é do tipo de filme que tem toda uma subjetividade e simbolismo que se tornam mais impressionantes que as próprias cenas de efeitos visuais ou de ação.

    Confesso que tive que pensar muito em diversas cenas – ainda mais no segundo ato do filme, quando um sonho se submete ao outro(os estágios das camadas do subconsciente)…

    por isso, me perdia constantemente…deixei passar certos diálogos e contextos…é, as primeiras impressões não bastam e preciso rever o filme, creio que vá ainda hoje…ontem a sala lotou…

    Achei DiCaprio merecedor de uma certa estatueta dourada, mas acho difícil…mais fácil Marion Cotillard ter indicação. Page, além de graciosa, teve momentos de pura inspiração na atuação. O elenco funcionou muito bem, de fato…e concordo que há cenas que são impactantes, mas pra mim o psicológico falou mais alto e o simbolismo, enfim.

    Bem, o filme mexeu comigo e muito…sem palavras!

    abraço

    • 15 agosto 2010 às 1:43 am

      Bárbara, já vi quatro vezes até o presente momento.

      Cristiano, também fiquei muito envolvido pela estrutura narrativa do filme. Só duvido que o elenco tenha forças para chegar ao Oscar (e, ao contrário de você, não vi maior brilho na performance de Ellen Page, que eu considero a mais inferior do elenco, de muito longe). Abraço e volte sempre!

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