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O pior Tarantino

“À Prova de Morte” é certamente o pior filme da carreira de Quentin Tarantino, e seu imenso fracasso nos Estados Unidos justifica o atraso de três anos para chegar ao Brasil. Lá fora, o filme era exibido numa sessão dupla com “Planeta Terror”, de Robert Rodriguez – um projeto à moda antiga dos diretores, já que um ingresso valia para as duas fitas. Mas o público desacostumado a esse esquema de exibição acabou ignorando o longa de Tarantino, exibido após o primeiro.

Aqui foram mais espertos: optaram por dividir os filmes, mas acabaram deixando “À Prova de Morte” pendente depois que os brasileiros não se mostraram receptivos à “Planeta Terror” (que era igualmente fraco). Era bem provável que o filme ficasse permanentemente no limbo se a PlayArte não o tivesse comprado e lançado agora. De certa forma essa estratégia deixa um gosto amargo para os brasileiros: depois de “Á Prova de Morte” Tarantino rodou “Bastardos Inglórios”, um dos melhores do ano passado e de toda a década, e limpou sua reputação com os americanos. Nós, porém, ficamos com essa má impressão ainda fresca na memória.

Dizem que o resultado não era tão desastroso originalmente: a versão que chega aos nossos cinemas foi extendida em quase 20 minutos, muitos deles desperdiçados nos diálogos mais cansativos que você irá encontrar. Não que os diálogos sejam batidos – são aqueles diálogos que se pretendem descolados e estilosos, do tipo que Tarantino tanto adora escrever. Na maior parte das vezes, atinge o que se propõe. Nesta ocasião, falhou miseravelmente. Falando em estilo, o filme é, em sua totalidade, um veículo para Tarantino masturbar o repertório trash que armazenou no cerebelo.

Mesmo sendo contemporânea, a trama é filmada em toda sua primeira metade com a película granulada e desgastada, como se fosse mesmo uma cópia resgatada dos anos 70 (há inclusive pulos de eixo propositais, como se alguns fotogramas tivessem se perdido com o tempo). No início do segundo ato, há uma sequência rodada em preto e branco, e daí em diante as cores se tornam mais saturadas. A excêntrica seleção musical, as referências à filmes B, e as tradicionais tomadas de pés femininos (o diretor é assumidamente podólatra) também deixam evidente que estamos diante de um autêntico Tarantino. Só que como todo cineasta de personalidade forte, ele eventualmente teria de errar a mão ao transpor para as telas suas idiossincrasias.

A premissa é tão irreal quanto secundária: um dublê (Kurt Russell, veterano subestimado que Tarantino tentou sem sucesso trazer à tona) vai de cidade em cidade com seu carro cinematográfico à prova de morte, e elege mulheres bonitas para colidir e assassinar. Primeiro mata cinco mulheres de Austin e faz parecer que foi um acidente inofensivo – a cena da colisão é realmente muito boa, com a ação registrada sob vários ângulos diferentes, que chocam pela violência explícita (com direito a decapitação e desmembramentos). Em seguida acaba errando o alvo: persegue mulheres de uma equipe de filmagem que também tem treinamento de dublê, e que decidem contra-atacar. As personagens femininas conversam interminavelmente, sendo retratadas de maneira fútil, frívola, exagerada, vulgar e irritante – como se Tarantino induzisse o público a torcer para que todas fossem aniquiladas de uma vez!

Talvez com seus 87 minutos originais a fita fosse mesmo mais enxuta e desfrutável. Mas a que vemos agora passa bem longe disso. A experiência pode ter sido divertida para o diretor, mas para o público chega a ser quase torturante. Claro que Tarantino ainda tem crédito na praça pra dar e vender – mas não consigo recomendar a ninguém este projeto em particular.

.:. À Prova de Morte (Death Proof, 2007, dirigido por Quentin Tarantino). Cotação: D-

Categorias:Cinema
  1. 5 agosto 2010 às 4:46 pm

    nossa, nossa! vi o link da postagem na minha lista e já comecei ‘noooossa, noooossa, Louis, um menino tão querido, vou ter que cortar relações agora’.
    veja bem, não li a postagem toda ainda, mas preciso manifestar meu DESAPREÇO por essa opinião do título. hahaha.
    ok, eu sou groupie de Tarantino e sei que posso me comportar como fãxiitadeloshermanos quando o assunto é ele, mas pense comigo: como pode ser pior um filme que – sim – tem os primeiros 40 minutos mais dormitivos do cinema e, em seguida, PAM!, jorra sangue por todos os lados? como pode ser pior um filme que tem Kurt Russel bad ass? quando o diretor tem Jack Brown no currículo – esse sim, o pior filme tarantinesco do universo inteiro?

    no no no, Louis, no no no. esse filme é muito legal!!!! eu amei quando o vi há anos atrás, e tô morrendo pra dar tempo de pegar o Catraca Livre no Belas Artes e poder assistir na telona OUIÉ!!!!

    Louis, Louis… ah, Louis…
    (e não, não vou nem terminar de ler o post, tô de mal : P)

    • 5 agosto 2010 às 4:51 pm

      Quéroul, NÃÃÃÃO… Antes de ficar de mal, leia o texto com calma e carinho: eu não gostei nadinha do filme, mas meu primeiro contato com ele foi ontem, no cinema. Você pelo visto baixou a versão original, que foi exibida lá fora e que tinha 87 minutos, quase 20 minutos a menos do que esta que estreou aqui. Nesse caso a versão extendida foi uma desvantagem: tem MUITO diálogo besta e irritante, chato mesmo. As cenas cool – que existem sim – ficam perdidas e se tornam insignificantes frente à tanta bobagem. Acho que se quiser preservar sua boa lembrança do filme não deve vê-lo no Belas Artes. Aí vai poder se manter groupie do Tarantino (como eu de certa forma também sou, apesar deste lapso colossal).

      VOLTE LOGO pra me avisar se já ficou de bem!🙂

  2. 6 agosto 2010 às 5:18 am

    Gostei de filme… considero um Tarantino meia boca, mas mesmo assim melhor que Jackie Brown.

  3. 6 agosto 2010 às 11:01 am

    É uma tortura assistir ao filme, afê!

  4. markhewes
    6 agosto 2010 às 2:51 pm

    Louis também estou de mal de você, hahaha. E é a primeira vez que li um texto seu e descordei com quase tudo, hahahaha. Ok, ninguém precisa entrar em acordo com você com todas suas postagens, mas pensa bem, veja de novo se possível, nem que seja a versão original que eu vi. Não assisti essa versão lançada no Brasil com minutos a mais, incluise nem sabia disso. Desses dois filmes do Grindhouse, eu sou muito mais Planeta Terror, diferente de você que achou bem fraco, eu me diverti bastante. Acho que os filmes foram feitos pra entretenimento e ambos conseguiu isso, apesar que o começo do A Prova de Morte é bem morninho, mas depois fica bem empolgante e divertido.

    • 6 agosto 2010 às 3:08 pm

      Bruno, não acho Jackie Brown essas coisas, mas ainda assim superior a Death Proof!

      Cleber, até que enfim concordamos.

      Mark, repito o que disse pra Quéroul: eu bem que poderia ter concordado com vocês, se não tivesse visto um filme tão longo e inflado. Porque Death Proof tem sim muito potencial cool, mas se sabota com sequências intermináveis de diálogo. De qualquer forma, assim como Planeta Terror, tem mais forma que conteúdo, e isso me dá nos nervos um pouquinho.

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