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Shrek, o Capítulo Final

As pessoas costumam ter boas recordações do primeiro “Shrek” e de sua bem-sucedida continuação lançada em 2004. Afinal, a série foi responsável por alavancar o departamento de animação da DreamWorks, além de ter conquistado o Oscar de Melhor Filme Animado no ano em que a categoria estava sendo inaugurada (uma vitória um tanto injusta sobre o concorrente da Pixar “Monstros S.A.”). Ainda que “Shrek” seja uma boa comédia – muito favorecida pelo Burro Falante cheio de virtuosidade de Eddie Murphy, e no volume seguinte, pelo Gato de Botas de Antonio Banderas -, só é plenamente satisfatório para aqueles de repertório limitado aos cartoons, às novelas, aos reality shows e às fofocas de celebridade, de onde o roteiro extrai todo o seu senso de humor satírico e suas piadas datadas.

É, no máximo, um programa legal, que brinca com as convenções dos contos-de-fada e com a planíssima estrutura narrativa dos filmes em que o cavaleiro resgata a donzela em perigo. Isso, mais o charme dos coadjuvantes pitorescos, explica o sucesso inicial da franquia, embora não justifique alçá-la entre os melhores exemplares do gênero, como fazem seus admiradores mais fervorosos. A própria DreamWorks, que faz animações muito parecidas e não especialmente inteligentes, mostrou-se superior em outros projetos, como “Kung-Fu Panda” e o recente “Como Treinar Seu Dragão”, certamente a obra-prima do estúdio. No terceiro “Shrek”, a fragilidade do plot já não conseguia ser disfarçada – o que ditava a trama não eram os personagens, que não tinham nada de novo e relevante a oferecer, e sim todos os elementos desfavoráveis citados acima: as piadas com cultura descartável, as paródias nada elegantes aos filmes da Disney (aos quais “Shrek” parece se julgar superior), e os truques humorísticos que não rendiam ao seu potencial. Até mesmo a qualidade da animação parecia desleixada.

Como convinha para os cofres do estúdio prosseguir com a saga, mas não havia para onde levar a história, o que se vê neste quarto filme, “Shrek Para Sempre”, em cartaz nos cinemas do Brasil, é pura enrolação. Não havia como dar continuidade ao enredo do protagonista, pois o ogro verde Shrek já dera uma volta completa em seu arco dramático – depois que salvou a Princesa Fiona da guarda de um dragão, eles se casaram, foram conhecer os pais, e tiveram filhos. Agora Shrek é um pai de família, e famoso no mundo dos contos de fada. Já não fogem quando o vêem na rua, e sim param para pedir autógrafo, já que sua aparência monstruosa inspira mais simpatia do que medo. Ou seja, não há conflito que possa ser criado, e por isso decidem começar tudo do zero: infeliz com a tranquilidade de sua rotina, Shrek assina um contrato com o vilão Rumpelstiltskin, que lhe concede um dia para viver como um ogro livre e selvagem. Mas toma no lugar o dia de seu nascimento.

Sem a existência de Shrek, o reino é devastado ao estilo de “A Felicidade Não Se Compra”. O Burro não lhe reconhece e é tratado como um animal indigno; o Gato de Botas está gordo; Fiona nunca fui resgatada de torre e assumiu sua identidade ogra, que só pode manter durante a noite, conduzindo uma aliança rebelde de ogros contra o Rumpelstiltskin, que agora controla o reino com mãos de ferro. Tudo muito banal e esquecível, sendo que as poucas piadas risíveis funcionam graças aos dubladores (conferi no áudio original, mas a versão brasileira também costuma ser boa). Um elogio também para as canções – clássicas ou inéditas – que compõe a trilha. O diretor Mike Mitchell não tinha experiência com animação – de fato, nem nos seus filmes anteriores de live-action dera sinais de competência, o que comprova o descaso da DreamWorks com a qualidade da série. Ou que “Shrek” deveria ter se encerrado na segunda parte, para que o público ficasse apenas com lembranças agradáveis, e a franquia, com sua reputação intacta.

.:. Shrek Para Sempre (Shrek Forever After, 2010, dirigido por Mike Mitchell). Cotação: D+

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Categorias:Cinema
  1. 26 julho 2010 às 12:20 am

    Que pena que Shrek chegou a esse ponto. Nem lembro qual vi no cinema, acho que foi o terceiro e achei muito chato.

  2. Tiago
    26 julho 2010 às 12:41 am

    Não tive vontade de ver acredita? e você falando assim acho que vou esperar uma alma bondosa me trazer em um dvd, pirata ainda AHAHAHA oO

    • 26 julho 2010 às 8:30 pm

      Mark, o terceiro consegue ser tão inexpressivo quanto este – de repente ainda pior!

      Tiago, acho que essa é uma decisão muito sábia a tomar! HAHAHA

  3. 26 julho 2010 às 11:40 pm

    Uma pena que a série tenha que terminar com este filme. Achei uma obra que, apesar da bonita mensagem, carece de uma maior inspiração por parte do diretor.

    • 27 julho 2010 às 5:19 am

      Ka, de fato, a mensagem é bonita, mas já foi passada com muito mais criatividade em outros projetos – como o clássico A Felicidade Não Se Compra, que mencionei no texto. Sem ter como evoluir a história, Shrek tentou se aproveitar da fórmula sem muito sucesso!

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