Início > Teatro > Extra, extra! Gypsy estreia em SP

Extra, extra! Gypsy estreia em SP

“Gypsy”, clássico absoluto do teatro musical, foi inspirado na história real de uma stripper estimulada desde criança pela mãe a seguir carreira artística. Como faltava talento ou oportunidade, a moça viu-se relegada, com o passar dos anos, ao teatro burlesco, onde as mulheres se despiam no palco (na verdade mostravam apenas as curvas, o que para a época era um escândalo, igualmente vergonhoso, imoral e condenável). Apelidada de “gypsy” – cigana, em inglês – por ter viajado pelos quatros cantos dos Estados Unidos perseguindo a fama (a mãe sonhava em emplacar um hit no extinto teatro de variedades), a heroína fora de início preterida pela irmã caçula, mimada e desafinada, mas loura e com perfil de show biz. Depois que a pequena – que já não era mais tão pequena assim – cansou de ser pau mandado da mãe e foi viver a própria vida, a mais velha – obediente e de temperamento maleável – foi promovida à estrela de uma atração que nunca engrenou. Resignada, aceitou fazer striptease por falta de coisa melhor, mas foi desabrochando, percebendo o que era se sentir querida e desejada, e se tornando uma referência no ramo. A certo ponto, era a stripper mais requisitada do país, nuns tempos em que a profissão, se não era mais valorizada, ao menos era glamurosa para aquelas que, como Gypsy, sabiam lhe extrair classe e elegância.

A vida de Gypsy e de sua mãe foram inteiramente dedicadas ao sonho do teatro, e não há melhor maneira de retratá-las do que nos palcos. A versão musical vem sendo encenada há décadas na Broadway, com revivals ocasionais, e foi baseada nas memórias da própria Gypsy, que publicou um livro após a morte da mãe escancarando os perrengues que passaram e as artimanhas perpetradas pela matriarca para favorecer as filhas. Mama Rose, como ficou conhecida, se tornou o símbolo absoluto das “stage moms” – aquelas que pressionam Deus e o mundo para impulsionar a carreira artística dos rebentos. E é nela, e não em Gypsy, que a história se concentra. O musical pode ser conferido com o público já ciente da sinopse, mas é igualmente curioso quando visto sem maiores informações sobre a trama, já que esta termina num ponto diametralmente oposto ao que começou. Ao mesmo tempo também é simétrica e coerente, como se nota pela repetição da canção “Rose’s Turn”, entoada com ferocidade pela protagonista, com a letra modificada de acordo com seu estado de espírito.

O desafio de trazer este clássico ao Brasil coube à Charles Moeller e Cláudio Botelho, cuja parceira profissional rendeu alguns dos melhores musicais que o país recebeu nos últimos tempos (“A Noviça Rebelde”, “Avenida Q”, “Beatles num Céu de Diamantes” e o recente “O Despertar da Primavera”). A competência dos trabalhos anteriores da dupla também se faz presente aqui – as versões de Cláudio para músicas que pareciam inconcebíveis em outro idioma impressionam, e a direção de Charles é muito segura para sincronizar os elementos que passam pelo palco durante as três horas de espetáculo. E não são poucos: há incontáveis trocas de cenário e figurino, todos de encher os olhos, e uma iluminação extremamente funcional, com os holofotes agindo em favor da narrativa (como não poderia deixar de ser, parte da trama é metalinguística, com teatro encenado dentro de teatro). Às vezes, para dar tempo do cenário ser modificado ou do elenco trocar de roupa, a orquestra – muito bem regida e situada abaixo do palco – tem de enrolar e fazer firulas excessivas. Incomoda um pouquinho o excesso de canções, em especial no primeiro ato (há duas ou três músicas dedicadas à Mama Rose e seu companheiro profissional e amoroso, Herbie, todas servindo ao mesmo propósito). E por vezes também parece que o texto se estende demais para abrir caminho para as canções, mas nada que comprometa a experiência.

O elenco é, a meu ver, o grande acerto desta montagem. Totia Meirelles dá um show como Mama Rose – “Gypsy” está chegando agora em São Paulo, mas já esteve em cartaz no Rio por três meses, e nesse meio-tempo, ela pode se tornar confortável com a personagem e tudo o que lhe é exigido. Adriana Garambone cresce para o final, tornando crível a transformação da insegura Louise na dama do teatro burlesco Gypsy (há uma sucessão de stripteases em que dá para ver literalmente este amadurecimento). Aliás, quando ela e Totia batem de frente, num embate verbal que deixa a plateia num silêncio sepulcral, não tem como não admirar, também, o duelo de interpretações travado ali, do qual ambas saem ganhadoras (o texto sabe se posicionar muito bem, tornando compreensíveis as motivações tanto de Louise quanto de Mama Rose, que com menos cuidado poderia se transformar em vilã ou caricatura). Dentre os demais atores de destaque temos Eduardo Galvão, numa boa performance, Renata Ricci, que manipula as canções para adequá-las às suas limitações vocais, e André Torquatto, craque no sapateado e uma verdadeira revelação (aliás, o libreto falha em dispensá-lo cedo demais e não explorar por completo o que o personagem poderia significar para Louise).

O restante da trupe é composta por crianças muito bem escolhidas, com maior destaque para as garotas que vivem as protagonistas durante a infância, e outros nomes promissores ou consolidados do teatro musical brasileiro. Menção especial para Liane Maya, Sheila Matos e Ada Chaseliov, espetaculares como um trio de strippers decadentes e responsáveis pelas risadas mais fartas do segundo ato. Não falta graça à “Gypsy”, aliás. O musical é dramaticamente estofado, mas também extremamente bem humorado. Muitas dessas piadas são proferidas por Totia com espontaneidade, como se tivessem sido pensadas no momento, ou como se Mama Rose fosse criada especialmente para ela e por ela. O que confirma que Moeller e Botelho são, na verdade, artífices: seus musicais nunca são réplicas exatas, e sim seguem caminhos diferentes (e melhorados!) àqueles em que se basearam. O que faz as produções dos dois se destacarem no nosso cenário é justamente essa habilidade de imprimir algo pessoal no que poderia ser genérico.

.:. Gypsy – O Musical. Teatro Alfa. Rua Bento Brando de Andrade Filho, 722. Tel (11) 5693-4000. Qui, 21h. Sex, 21h30. Sáb, 20h. Dom, 17h. Até 17/10. Preços: de R$60 a R$120 (quinta e sexta) e de R$80 a R$140 (sábado e domingo). Cotação: A-

Categorias:Teatro
  1. Nenhum comentário ainda.
  1. No trackbacks yet.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: