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Enfim, Eclipse!

O sucesso da saga “Crepúsculo” dispensa comentários. Todos sabem que a série da autora mórmon Stephanie Meyer é a razão de viver de milhões de pré-adolescentes ao redor do mundo, que deliram com as juras de amor açucaradas do vampiro Edward Cullen e da mocinha Bella Swan. Difícil é entender como algumas mães não apenas deixam as filhas devorarem um material misógino e ofensivo, mas também se juntam a elas como ávidas e entusiasmadas leitoras. Afinal, Bella renuncia a cada aspecto de si mesma – inclusive à sua humanidade – para seguir seu amado. Uma entrega completa e doentia para uma garota de 18 anos ou de qualquer idade.

E mesmo sendo absolutamente comum e até irritante em seu jeito de agir, Bella também é cobiçada pelo lobisomem Jacob Black, que está sempre desfilando sem camisa e expondo o peitoral bem definido. Só no terceiro volume da dita saga, “Eclipse”, o triângulo amoroso ganha forma e quase chega a interessar. É só neste filme, também, que são inseridos alguns elementos autênticos das histórias de vampiro. A lenda fora subvertida por Meyer a ponto de atingir o ridículo (os vampiros podem caminhar à luz do sol, que não lhes é nociva, apenas faz com que a pele brilhe feito diamante!). Mas dessa vez tem mais personagens, e não apenas vampirinhos camaradas – alguns deles são vampiros recém-transformados, com sede de sangue, que estão aterrorizando Seattle e formando um Exército à mando da vilã ruiva Victoria. Eventualmente irão também à Forks, cidadezinha em que a ação se transcorre. Apesar do início morno, “Eclipse” tem mais ação e é menos sonolento e mais entertaining que os volumes anteriores.

Não que o diretor David Slade (que trabalhara com vampiros em seu filme anterior, o lúgubre “30 Dias de Noite”) tenha conseguido imprimir sua marca na série, mas certamente a ajudou a evoluir um pouquinho, com ajuda da roteirista Melissa Rosenberg (que se esforça bravamente para extrair o sumo da fraquíssima fonte de inspiração). As menininhas que veem o mundo em cor de rosa vão fazer beicinho e soltar exclamações com a melação entre Bella e Edward, mas também vão ficar chocadas com algumas coisas de gente grande. Relatam pela primeira vez, por exemplo, a história de alguns dos irmãos adotivos de Edward – uma delas tinha sido estuprada, espancada e deixada à beira da morte antes de ser transformada em vampira. Tudo é mais insinuado do que mostrado, mas ainda assim já impressiona por destoar do nível infantil e pueril que a série vinha seguindo. De qualquer forma, nem todos os flashbacks do filme fazem sentido. Um deles – a história da aldeia indígena e sua disputa de longa data com os vampiros – é constrangedor, e envolve um sacrifício feminino totalmente fora de lugar, que reforça a total submissão da mulher ao homem.

O público-alvo se empolga com a disputa de Edward e Jacob por Bella, a ponto dos fãs se dividirem em dois times, um para cada herói. De qualquer forma, estes conflitos não devem em nada para o que “Malhação” vem mostrando há quinze temporadas. Independente disso, “Eclipse” teve uma bilheteria exorbitante no final de semana de estreia, ainda que a chama tenha se extinguido rapidamente (afinal, as fãs histéricas que gritam dentro do cinema fizeram questão de ver nos primeiros dias de exibição, e a esse ponto resta pouca gente que ainda não assistiu; a sessão em que eu fui estava quase vazia). Se tanto sucesso é merecido não vem ao caso. Basta dizer que o orçamento foi maior – afinal, a saga trouxe muito dinheiro para o estúdio Summit, que está subindo de nível e não é mais sinônimo de fita B. Agora os efeitos estão mais caprichados (os lobos digitais são mais elaborados e convincentes), a maquiagem que empalidece os vampiros não causa revertério, e até a trilha, composta por Howard Shore e com muitas canções ótimas compiladas, é envolvente.

Já o elenco continua sem dar sinal de vida, em especial o trio principal. Muito se fala da falta de expressividade de Kristen Stewart, que mantém a boca sempre aberta e o rosto sem reações. O engraçado é que, enquanto não confere uma partícula de luz à Bella Swan, ela parece render em outros projetos. Prova de que a personagem não lhe dá oportunidades, ou de que ela não tem espaço para criá-las. Seu par romântico (nas telas e na vida pessoal) Robert Pattinson vive um Edward um tanto afeminado pela maquiagem – e a cena em que ele se recusa a transar com Bella antes de se casarem, feita sob medida para propagar a filosofia mórmon da escritora, não faz nada em defesa de sua masculinidade. Com Taylor Lautner, o Jacob, acontece o oposto: o personagem é um símbolo de virilidade, mas o ator tem a homossexualidade tão impregnada em seu ser que deixa transparecer a voz mole e algumas desmunhecadas. O quarto nome de destaque nos créditos é o de Bryce Dallas Howard, que assumiu o papel de Victoria. Mas também temos Dakota Fanning, feia e sem conseguir marcar como adolescente, e até a indicada ao Oscar Anna Kendrick (“Amor Sem Escalas”), numa ponta que deve ter sido filmada em um ou dois dias. Para ver quando for inevitável.

.:. A Saga Crepúsculo – Eclipse (The Twilight Saga – Eclipse, 2010, dirigido por David Slade). Cotação: C+

Categorias:Cinema
  1. 23 julho 2010 às 6:46 pm

    não, Louis. NÃO!

  2. markhewes
    23 julho 2010 às 7:43 pm

    Adorei o post, muito bem detalhado.

  3. 24 julho 2010 às 12:31 am

    Eu gosto do livro, acho o melhor da série, mas o filme não correspondeu às expectativas que eu tinha. É o mais fraco da série, apesar de acertar mesmo no retrato do triângulo amoroso. Beijo!

    • 24 julho 2010 às 3:58 pm

      Quéroul, eu compreendo sua objeção! HUAHUAHUA…

      Mark, que bom que gostou😉

      Ka, tomando só pelo filme e esquecendo dos livros, achei este facilmente o mais satisfatório dos três até agora! Beijo.

  4. 24 julho 2010 às 4:30 pm

    Em primeiro lugar Luis, não podemos avaliar a qualidade da série com o que foi feito dela nos filmes. É claro que o novo assusta, e que mudar um pouco estes seres mal encarados que eram os vampiros deve ter feito o cabelo de muita gente arrepiar. Só que, em sua exposição de opiniões, rebaixou demais o verdadeiro sentido da Bella a alguma coisa parecida com as garotas de comercial de cerveja, mas ela não é isso, absolutamente não!
    Bella é uma adolescente que teve a coragem de tomar decisões, de fazer opções em sua vida. Na verdade, ela é mais forte que o vampiro e o lobisomem, que são indecisos e no caso do lobisomem manipulador. Eu não sei por que as pessoas hoje têm tanta dificuldade em lidar com isso – tomar decisões que muitas vezes são para sempre.
    A série é adolescente sim, mas tem muitos aspectos positivos, e um deles é o trabalho de superação dos preconceitos e do diferente. É uma pena que o filme colocou Jacob andando semi-nú o filme todo, chegou à beira da apelação. Ficou sem sentido mesmo, e nisso eu concordo com você. Mas infelizmente, com raras exceções, os roteiristas destroem as maiores obras da literatura, não fariam diferente com a saga.
    Para quem não leu, vale a pena perder um pouquinho de tempo e dar uma folheada. Sem preconceitos.

    • 25 julho 2010 às 3:45 pm

      Soraya, não vejo como extrair algo de muito positivo dessa série, não importa como ela seja avaliada. Porque como literatura, pelo pouco que eu li (não critico sem ter tido contato nenhum – li uma parte do primeiro livro, até abandonar a leitura, e o último), é muito fraca, mal escrita e maleável à doutrina mórmon e moralista da escritora, e como cinema é fútil e mal feitinha. Se a mocinha é mais “forte” que o vampiro e o lobisomem se deve ao fato de que ambos são igualmente medíocres (Edward em especial, tem 109 anos e não tem qualquer bagagem cultural ou intelectual, agindo por vezes com mais infantilidade que Bella e Jacob). E não muda o fato de que a entrega de Bella a seu namorado é completa e doentia! Faço o possível, porém, para encarar sem preconceitos, mesmo uma obra abarrotada deles.

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