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Give my regards to Broadway: Billy Elliot

O que o cineasta Stephen Daldry conseguiu com “Billy Elliot”, lançado em 2000, não foi pouco. Ele foi capaz de contar uma história básica – a de um menino com interesse genuíno pela dança, que desafia as tradições da família de boxeadores ao se inscrever em aulas de ballet – sem cair numa pieguice que parece inevitável a quem trabalha com uma temática tão motivacional e surrada. E foi além: situou o drama do personagem durante a greve que os trabalhadores braçais dos subúrbios de Londres conduziram em 1984. Um acontecimento que, por si só, não passaria de uma nota de rodapé da História inglesa, ainda mais considerando que a luta dos mineiros – homens rústicos e pouco instruídos, que bebem demais e tem expectativas de menos – se provou infrutífera. Pois Daldry utilizou as mazelas sociais do período como pano de fundo, e o fez com tanta dignidade que não apenas potencializou o sonho do protagonista – e o esforço hercúleo que era persistir nele -, como também tornou palpável e verossímil o seu leque de coadjuvantes.

Não é de se espantar que “Billy Elliot” tenha sido um dos melhores filmes daquele ano, fato que se refletiu em três merecidas indicações ao Oscar: Atriz Coadjuvante para Julie Walters (no papel da professora de ballet burguesa que estimula o heroi), Roteiro para Lee Hall e Direção para Daldry (ambos vindos do teatro e com pouca ou nenhuma experiência com cinema). Surpreendente é que uma história que só parecia ter dado certo pela feliz combinação do talento singular dos envolvidos tenha repetido o sucesso quando transposta para os palcos. Ainda mais num gênero tão difícil e arriscado quanto o musical tradicional, no qual os personagens desatam a cantar suas falas, substituindo diálogos por canções e externalizando sentimentos que não cabem em meras palavras.

“Billy Elliot – The Musical” estreou no West End londrino em 2005. A trilha fora composta por Elton John, um admirador confesso do filme, que diz enxergar paralelos entre a trajetória de Billy e a sua própria. O libreto foi desenvolvido pelo mesmo Lee Hall que escrevera o longa, e a direção também foi atribuída à Daldry. A aprovação foi instantânea e unânime, em especial aos três garotos que dividiam o papel de Billy em apresentações diferentes. Só em 2008, porém, o musical chegaria à Broadway, graças aos esforços conjuntos do mesmo time responsável pela versão inglesa, e com modificações mínimas (algumas coreografias foram incrementadas). O trio original de Billys na Broadway também foi ovacionado – os meninos, que certamente tinham a mesma verve de Jamie Bell, o Billy do cinema, dividiram o prêmio Tony de Melhor Ator, na mesma cerimônia em que o espetáculo foi contemplado em outras dez categorias (entre elas Direção, Libreto, e claro, Melhor Musical).

Até hoje, este é um dos musicais mais populares da Broadway, e assim deve continuar por um bom tempo (ou ao menos, tempo suficiente para que eu volte para rever). Continua lotando todas as sessões, mesmo que a demanda por ingressos não seja, atualmente, tão grande quanto à da nova sensação “La Cage” (se pronuncia em francês, “Lá Cági”, e é uma versão repaginada de “A Gaiola das Loucas”), ou dos veteranos “Wicked” e “The Lion King”. Mas duvido que a concorrência faça jus à magnitude desta montagem de “Billy Elliot”, perfeita em todas as definições da palavra. A maioria do elenco original já partiu para outros projetos, e os restantes alternam seus papeis com outros intérpretes. Não há, no entanto, uma irregularidade sequer, ou um ator que não esteja muito seguro de suas marcações, falas, músicas e coreografias. Se já é espantoso que tenham encontrado algumas dezenas de artistas – dentre crianças pequenas, pré-adolescentes, adultos com físico e aparência de trabalhadores caucasianos humildes, e até uma idosa para o papel de avó -, muito mais assombroso ainda é que tenham, na reserva, um extenso time B de atores capazes de desempenhar a mesma função.

Essa tradição dos substitutos é antiquíssima e essencial, já que os ingressos se vendem com rapidez e antecedência, e o show deve sempre continuar. Às vezes os subs são até uma exigência: quando o personagem exige muito, em termos físicos ou vocais, dois ou mais atores precisam se revezar em sessões diferentes para aguentar o tranco. Na Broadway a rotina é ainda mais puxada. As apresentações, se não são diárias, ocupam pelo menos seis dias da semana. O mais comum é que folguem na Segunda e se apresentem de Terça à Domingo, com matinês às Quartas e Sábados e uma sessão noturna aos Domingos (quando a sessão vespertina é a tradicional). E sem essa moleza de meia-entrada, que facilita a vida de milhões de brasileiros – o preço é unificado, e para comprar com desconto deve-se ficar atento a promoções na internet ou comparecer à bilheteria TKTS, na Times Square. Ainda assim o bilhete mais barato que se consegue, nas poltronas menos favorecidas, fica na faixa dos 70 dólares.

De qualquer forma, “Billy Elliot” faz jus ao valor pago. Dá para perceber nitidamente que cada centavo foi bem empregado, e não só porque o espetáculo vai te deixar maravilhado e embasbacado. É um show grandioso, bem montado, executado nos trinques, com muita gente suando a camisa no palco. O sistema de som é impecável (deslizes como os que acontecem com os microfones em muitos musicais encenados no Brasil são inadmissíveis), a iluminação é fantástica, e o cenário é de um planejamento meticuloso e fenomenal (a casa de Billy, com uma cozinha, uma escada, e o quarto no andar de cima, literalmente brota do chão, e outros apêndices, como a casa do amigo Michael, são arrastados para dentro e fora do palco com a ajuda dos próprios atores).

A coreografia é a melhor que eu já vi ao vivo, e talvez uma das mais extraordinárias que já testemunhei na vida (contando com muitos vídeos de dança no YouTube, musicais clássicos do cinema, e etapas de reality de competição). Há três sequências particularmente sensacionais: “Angry Dance”, em que Billy extravasa sua frustração colidindo com uma tropa de choques; “Electricity”, em que ele explica como se sente por dentro quando está dançando; e uma redenção do ballet “Quebra-nozes”, de Tchaikovsky, numa sincronia de movimentos impecável do garoto com um bailarino mais velho (um vislumbre do Billy do futuro). O intérprete de Billy, seja ele quem for (não costuma ser anunciado com antecedência), deve ser capaz de desempenhar todos os passos complexos, sem hesitar. Outro grande número é “Solidarity”, no qual policiais armados interagem com as garotinhas da escola de ballet.

Para muitos, o clímax é outro ainda: o momento em que Billy descobre que Michael veste roupas femininas, e iniciam a leve e divertida canção “Expressing Yourself”. Entram ao palco vestidos e calças com pernas, braços e tronco – mas sem cabeça! São perfeitos manequins que passam a integrar a coreografia, um momento deslumbrante e digno de Broadway. Também é incrível quando, em “Born to Boogie”, Billy, a professora, e um pianista acima do peso começam a pular cordas e sapatear ao mesmo tempo. E quando a cortina desce, o show está longe de terminar. O “curtain call”, instante em que o elenco volta ao palco para receber aplausos calorosos do público, reserva um número extra, enérgico e extremamente vibrante, para o qual todos os atores – sem exceção – vestem um tutu (aquela saia de bailarina cheia de fricotes). E dá-lhe um sapateado frenético e interminável, que faz os queixos já caídos se aproximarem centímetros a mais do chão!

A direção de Stephen Daldry é um primor. A boa reputação que ele conseguiu nos cinemas (foi indicado ao Oscar de Diretor três vezes, pelos três únicos filmes que realizou) não é nada comparada ao que o seu nome significa nos palcos. Ele não prioriza as convenções do teatro, e sim os personagens que ilustram a história – e como tem um vínculo forte e duradouro com os personagens em questão, respeita-os como ninguém. Assim, quando Billy se dirige à professora, ele a olha nos olhos, e ela retribui o olhar de frente para ele. Sem os clichês dos diálogos que acontecem com os atores encarando mais a plateia do que um ao outro. Essas pequenas sutilezas fazem toda a diferença na percepção que o público tem do musical como um todo.

Capaz de deixar o espectador profundamente emocionado sem esforço ou apelação, “Billy Elliot – The Musical” é uma tremenda conquista, e sem dúvidas as melhores e mais memoráveis horas que já passei no teatro. Se você é fã de musicais, economize, reserve um dinheirinho no final de cada mês, e presenteie-se com uma viagem à Nova York. Chegando lá, não pense duas vezes: entre na fila do Imperial Theatre e confira esta obra-prima. É fantástico, genial, mágico sob todos os ângulos. E muito dificilmente será trazido ao Brasil, já que, sem desdenhar dos nossos artistas, seria uma verdadeira raridade encontrar um elenco local capaz de dar vida a tudo isso.

.:. Billy Elliot – The Musical. Dirigido por Stephen Daldry. Libreto e letras de Lee Hall. Músicas de Elton John. Imperial Theater, 249 West 45th Street, Manhattan. Duração: 2 horas e 50 minutos. Cotação: A+

Categorias:Teatro
  1. 22 julho 2010 às 4:02 pm

    ok, estou com inveja! daria tudo pra assistir ao musical, eu quero, rs!

    • 23 julho 2010 às 5:17 pm

      Cleber, se seu desespero for muito, tem algumas filmagens amadoras de gente que foi ao teatro com a câmera escondida, mas obviamente nada se compara à emoção de ver ao vivo!🙂

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