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A fofura do cinema francês

Sem mais: “O Pequeno Nicolau”, fita infantil francesa em cartaz nos nossos cinemas, é delicioso. Leve, divertido, despretensioso, perfeito para as crianças e inofensivo para os adultos (no sentido de que verão com simpatia, sem dar sinais de irritação ou impaciência, como podem reagir diante de muitos filmes endereçados primariamente aos pequenos). Trata-se de uma comédia muito doce e inocente, com um humor tão puro que remete à Jacques Tati. O roteiro foi inspirado num livro famoso na França, e basicamente, não faz mais do que narrar as pequenas contravenções de um grupo de garotos no início dos anos 50. Cada qual com suas idiossincrasias, eles frequentam uma escola só para meninos e enxergam com ingenuidade tudo o que os rodeiam. A ênfase maior é no Nicolau do título, que deduz que os seus pais estejam esperando um outro bebê, e com medo de ser preterido pelo irmão caçula, planeja uma maneira de se livrar dele.

O trailer prometia um filme gracioso, mas particularmente, eu tinha tudo para me antipatizar com ele. Não acho justo quando se recordam com saudosismo de uma infância que se resumia à pular corda e jogar pião, ao mesmo tempo em que menosprezam as crianças atuais e seus videogames e computadores. Acho que cada um deve viver o seu tempo, sem essa de que um modelo de infância é melhor do que outro. Também não consigo me atrair por essa nostalgia açucarada à velha França, que de certa forma era muito similar ao Brasil no tratamento dispensado às crianças – nos anos 50, a educação era mais rígida e os menores apanhavam como se fosse normal, até mesmo na escola, onde eram submetidos a puxões de orelha e palmatória (parte disso é mostrado no filme, mas sem deixar o clima carregado).

A minha surpresa, obviamente, foi bastante positiva. O propósito do filme não é idealizar uma infância que não existe mais, e sim retratar como as crianças reagem a determinados assuntos de maneira universal e atemporal. A graça advém do estranhamento com que os personagens percebem as situações mais triviais – alheios às regras do mundo adulto, imaginam que tudo é possível e aceitável (como quando pensam que os pais de Nicolau vão abandoná-lo no bosque, pois é isso que os casais fazem com os filhos mais velhos quando tem um novo)! Considerando que todo e qualquer ser humano já se comportou dessa maneira numa fase distante da vida, “O Pequeno Nicolau” fala ao espectador muito mais que por seus méritos cinematográficos – que não são poucos, aliás. Além do impecável elenco mirim, a produção é caprichada, bem cuidada e bem fotografada. E o resultado, realmente encantador.

.:. O Pequeno Nicolau (Le Petit Nicolas, 2009, dirigido por Laurent Tirard). Cotação: A-

Categorias:Cinema
  1. 9 julho 2010 às 11:42 am

    Os elogios para este filme não foram poucos. Sem chances de estrear por aqui, mas sempre bom ressaltar a qualidade de um filme pouco conhecido e que pode passar baido por muitos cinéfilos, como é o caso de “O Pequeno Nicolau”.

    ficarei de olho neste.

    abs, Louis! o/

    • 10 julho 2010 às 10:20 pm

      Tom, infelizmente chegou em circuito muito pequeno mesmo, mas não perca as esperanças de ver um dia. É muito bacana!! Abraço.

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