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Recordar É Viver

Não sei quanto a vocês, mas pelo menos eu, quando era pequeno, costumava rever meus filmes favoritos à exaustão, a ponto de rebobinar o video cassete quando a fita chegava ao fim e começar a assistir tudo de novo. Claro que quando somos crianças não vemos Cinema com olhar clínico (aliás, muitas pessoas passam a vida inteira sem encará-lo dessa maneira, e não há nada de errado nisso). É comum, portanto, que nos assustemos ao conferir, depois de crescidos, aquele filme que víamos com tanto carinho a alguns anos atrás. Descobrimos que ele não exerce mais o mesmo fascínio sobre nós, como se a sua mágica ou encanto não surtisse efeito agora que a nossa bagagem está mais extensa. Pois tive o prazer de rever recentemente dois dos filmes que mais assisti na vida – na época, tinha entre oito e nove anos -, e que depois tanto tempo intactos em minha memória, resolvi descobrir sob uma nova percepção. Surpresa: fiquei imensamente satisfeito com o resultado de ambos! Vamos a eles:

* As Patricinhas de Beverly Hills (Clueless, 1995, dirigido por Amy Heckerling): Conheci este filme quando ele foi exibido na Sessão da Tarde e adorei de imediato. Aluguei o VHS legendado e gravei uma cópia para mim, revendo a ponto de decorar todas as falas. Só agora percebo que o filme era bem fortinho para uma criança. As personagens são desbocadas, falam de sexo, de “pinto torto”, e fumam maconha pra chulé. Também tenho certeza de que não entendia todas as citações, porque os diálogos são repletos de referências à cultura pop, marcas, estilistas e afins. Na época, encarava “Clueless” como uma comédia divertida e despretensiosa, mas agora percebo que os méritos da diretora Heckerling (a mesma de “Picardias Estudantis”) vão muito mais além. Ela conseguiu se focar num nicho real que nunca tinha sido explorado pelo cinema: as adolescentes ricas de Beverly Hills, bairro chiquérrimo de Los Angeles. Meninas que não conhecem dificuldades, que sempre tiveram tudo na mão e nada na cabeça. Tipos como estes só eram retratados de maneira pejorativa, geralmente servindo de alívio cômico em filmes que lhes davam espaço limitado e tratamento indigno. Aqui, essas “patricinhas” (como o título nacional define muito bem) são as protagonistas da história, e não negam a futilidade e a frivolidade. Só que a diretora e roteirista as examina com carinho, e as torna simpáticas a um público que, caso contrário, as rejeitaria. É muito bem delineado, ainda, o tom satírico e os recursos narrativos utilizados por Heckerling. Reparem, por exemplo, na cena em que a heroína Cher espera por uma ligação: o telefone é filmado de baixo para cima, exatamente como a Nova Pedra é introduzida em “2001: Uma Odisseia no Espaço”. Ao mesmo tempo começa a tocar ao fundo a trilha do filme de Kubrick – um modo inteligente e elegante de mostrar que todo o universo da personagem girava em torno de receber aquela ligação do pretendente. O longa revelou a então promissora Alicia Sylverstone, impecável no papel principal, e a falecida Brittany Murphy, ruiva e gordinha, antes de se tornar anoréxica e viciada em comprimidos. Originou ainda uma série de TV honônima com muitos dos atores reprisando seus papeis (mas não Alicia e Brittany). Uma ótima pedida! Cotação: A+

* Abracadabra (Hocus Pocus, 1993, dirigido por Kenny Ortega): Outro descoberto na Sessão da Tarde. O diretor Ortega é hoje um coreógrafo conhecido, responsável pela franquia “High School Musical”. Mas antes disso já tinha trabalhado com a Disney neste “Abracadabra”, que foi um fracasso retumbante em sua estreia (custou 28 milhões de dólares e rendeu menos de 40 nos Estados Unidos). Mas sua popularidade cresceria com o tempo, quando o público teve a chance de redescobri-lo em home video ou na televisão. De fato, hoje é um cult, e um dos filmes mais reprisados nos EUA, em especial no mês de Outubro, já que tem tudo a ver com o Halloween. No Brasil não se comemora esta data, para o meu imenso desgosto. Sempre quis sair fantasiado pedindo doces pela vizinhança quando era criança (tenho até um top 3 de fantasias que sempre quis usar)! O mais aproximado que temos por aqui é o Dia de São Cosme e Damião, que ainda assim não é tão celebrado no Estado de São Paulo (onde moro). O Halloween foi disseminado lá fora em função da crença de que, na véspera do Dia de Todos os Santos, os espíritos dos mortos poderiam vagar pela Terra. No filme, três garotos acendem uma vela enfeitiçada e trazem de volta à vida três bruxas do século XVII, enforcadas por capturar as criancinhas de um vilarejo. Para que não virem pó até o final da noite, porém, elas precisam sugar a vida de novas crianças – mas vão encontrar empecilhos no caminho, como as modernidades do século XX que desconhecem. A comédia e a aventura são muito bem equilibradas no filme, que é leve, divertido, movimentado (não tem enrolação: a ação não fica concentrada no final, há sempre alguma coisa acontecendo). O roteiro não dá maiores chances ao uso de efeitos, empregados com evidência apenas nas sequências de voo. Mas não falta cuidado à produção, da qual destaco a fotografia (mesmo ambientado à noite, o filme é bastante colorido e vívido) e os vibrantes figurinos. Ou seja, um entretenimento de qualidade para toda família. A escolha do elenco é outro acerto. Como o trio de bruxas, temos Bette Middler (excelente e subestimada comediante), Kathy Najimi e Sarah Jessica Parker (antes de sua fase perua). E como as crianças, temos Omri Katz (que, segundo a pesquisa, desistiu da carreira de ator e hoje é cabelereiro), Thora Birch (que anos mais tarde faria “Beleza Americana”, “Ghost World” e outros) e Vinessa Shaw (a namorada judia de Joaquin Phoenix em “Amantes”). Delicioso! Cotação: B+

Aproveite o espaço para lembrar também dos filmes que você não cansava de assistir quando era menor!

Categorias:Cinema
  1. 6 julho 2010 às 2:46 pm

    Adoro os dois filmes, em especial Abracadabra, filme de minha infância! Outro que gosto muito é Matilda do Danny DeVito, toda aquela “magia” me encantava.

  2. 6 julho 2010 às 4:04 pm

    eu já era bem grandinha quando lançou Patricinhas, sempre gostei desse filme desde a primeira vez que vi, e sempre detestei Alicia Silverstone, yey.
    já Abracadabra eu não assisti, e não lembro se minha irmã via muito (lembro que ela assistia demais aquele outro de bruxas, que eu esqueci o nome, com a Anjelica Houston, que a criançada virava rato… Ah! Convenção das Bruxas, acho. e eu assisti muitas vezes com ela, e achava um barato! minha irmã é 7 anos mais nova, e era com ela que eu via esses filminhos…).
    meus filmes de infância mais repetidos na vida eram Tubarão e Platoon. hahaha. entraram pra sempre no meu coração como os filmes da vida. aí, uns dois anos atrás, eu revi Platoon depois de muuuito tempo e achei booooring. mas não consigo dizer que ele saiu do meu coração.
    Tubarão não. pra sempre vou amar. : )

    • 6 julho 2010 às 6:24 pm

      Alex, também adorava Matilda, apesar de não ter visto tantas vezes assim…

      Quéroul, que ótima lembrança! Convenção das Bruxas era SUPER legal. E acho que a minha idade é mais aproximada à da sua irmã huahua… Platoon acho que só vi uma vez. Tubarão vi várias e sempre achei perfeito!🙂

  3. 6 julho 2010 às 10:41 pm

    Este é um dos meus filmes de infância que adoro ver, rever e ver mais quantas vezes for possível! Mas para mim nada ganha da versão antiga e original da “A Fantástica Fábrica de Chocolate”, com o Gene Wilder como o Wonka! Este eu assistia toda dia depois que chegava em casa!

  4. Caroline®
    6 julho 2010 às 11:35 pm

    Louis, a cada post eu te amo mais…. Clueless é um dos meus filmes da vida! Tinha toda uma lógica própria, as maluquices e futilidades de Cher e companhia pareciam fazer todo sentido do mundo! E Abracadabra é muito bacana mesmo. Mas meus “filmes pra rever mil vezes” são “Curtindo a vida adoidado” (John Hughes é meu pastor, amo todos os filmes dele), “Os Goonies” (tem como não amar Slot?), Dirty Dancing, Caravana da Coragem (eu queria ter um Ewok), O Feitiço de Áquila, Um tira da Pesada (só o 1 e o 2, Eddie Murphy tem vários filmes que eu gostava), Rocky (e Rambo), Karate Kid (amoooooo), Te pego lá fora, Quero ser Grande…. Nossa, são tantos! Os anos 80 foram profícuos pra crianças…

    • 7 julho 2010 às 6:43 am

      Felipe, ao contrário de você, não tenho uma ligação tão forte com A Fantástica Fábrica de Chocolates, mesmo sabendo que este filme alegrou a infância de muita gente!

      Caroline, obrigado!🙂 Pelos seus comentários também sinto que você é uma pessoa para ser amada huahuahua… A começar pelo fato de que gosta de Clueless, filme perfeitinho e nem sempre reconhecido pelo achievement em comédia que realmente é. Dos outros que você citou, também amo de paixão Curtindo a Vida Adoidado, Os Goonies e Quero Ser Grande – mas só devo ter visto umas dez vezes cada um, perto das cinquenta que vi os outros dois que eu mencionei! Queria ter vivenciado boa parte dos anos 80 como você…

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