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Ponyo

Se há um consenso de que nenhum estúdio faz longas de animação computadorizada melhor que a Pixar, também parece ser de comum acordo que ninguém faz filmes de animação tradicional tão bem quanto o estúdio japonês Ghibli. Enquanto os estúdios americanos parecem considerar os desenhos convencionais obsoletos – a própria Disney passou anos sem apostar no gênero, e mesmo quando retornou a ele com “A Princesa e o Sapo”, lançado no ano passado, não obteve maior repercussão -, o Ghibli emprega a técnica com razão e beleza, sempre realçando o que há de mais único e diferente na cultura oriental.

John Lasseter e Hayao Miyazaki

Não por acaso, John Lasseter, um dos artistas pioneiros da Pixar e atual executivo da Disney, faz juras de admiração à Hayao Miyazaki, o desenhista que fundou o Ghibli e que escreve, dirige e supervisiona todas as obras do estúdio. Notem, por exemplo, que no novo “Toy Story” há um boneco Totoro – animal do folclore japonês que protagonizou um dos filmes de Miyazaki e que serve de mascote para o Ghibli -, homenagem clara da Pixar ao melhor animador em atividade. Vale mencionar que a Disney também é responsável pela distribuição dos filmes recentes de Miyazaki nos Estados Unidos. Foi assim com “A Viagem de Chihiro”, vencedor do Oscar de Melhor Animação em 2003, com “O Castelo Animado”, indicado na mesma categoria três anos mais tarde, e agora com “Ponyo: Uma Amizade Que Veio do Mar”, que estreia em Julho nos cinemas brasileiros.

Dos três filmes mencionados, “Ponyo” deve ser o menos eficiente, ou o que menos repercutiu nas premiações ianques (falhou em receber indicação ao Oscar deste ano, apesar da Disney ter caprichado na transposição para o inglês, contratando Melissa Matheson, a roteirista de “E.T.”, para adaptar os diálogos, e reunindo astros como Liam Neeson, Cate Blanchett, Tina Fey, Matt Damon, Cloris Leachman, Lily Tomlin e Betty White para fazer a redublagem). De fato, o filme deve um pouquinho ao padrão Ghibli de qualidade, ainda que as crianças devam desfrutá-lo com facilidade – o apelo infantil é mais claro do que em qualquer outra animação de Miyazaki, com exceção de “Meu Vizinho Totoro”.

Na trama, um garotinho chamado Sosuke mora com a mãe num casebre ao topo de um penhasco. A casa tem vista para o mar, e Sosuke tem uma ligação muito forte com o oceano, já que seu pai é marinheiro e manda sinais de luz para a família sempre que o seu barco pode ser avistado do horizonte. Ponyo é uma peixinho dourado que Sosuke encontra na praia e pega para si. Cuida dela com amor e carinho, o que faz com que a afeição seja mútua. Mas Ponyo não é um peixe qualquer. É filha de uma deusa dos mares, e até ter sido descoberta pelo menino, passara toda a vida prisioneira no fundo do oceano, assim mantida por um feiticeiro que outrora fora humano. O mago manipula os mares para ir atrás de Ponyo – mas não imagina que o amor dela por Sosuke possa transformá-la numa garotinha humana.

Deve ser o roteiro mais frágil de Miyazaki, que não consegue balancear as ações paralelas no fundo do mar e na casa de Sosuke. Aliás, quando o garotinho é focalizado, o filme se torna mais vivo e interessante – e como o próprio título é “Ponyo”, a história da peixinho deveria ser, no mínimo, tão interessante quanto. É Sosuke quem dita todo o terço inicial do longa, já que o retrato da infância pueril e inocente, que poucos cineastas compreendem tão bem quanto o japonês, é mais agradável e fascinante do que toda a porção mística do enredo. Ponyo só consegue se igualar a isso quando deixa o mar de vez para se tornar humana e fazer companhia ao garoto.

Apesar do plot irregular, o capricho do animador e o pleno controle que ele tem de seus traços (reparem na riqueza de detalhes em todos os cenários, do submarino do feiticeiro aos objetos na casa de Sosuke) bastam para que “Ponyo” se torne um filme visualmente espetacular. Os filmes orientais tendem a ser mais “bonitos” – no sentido mais elementar da palavra – que os ocidentais, e este não é exceção. A beleza ímpar (a cidade litorânea em que a história se passa é nada menos que idílica), e o desvelo com que os hábitos do povo japonês são relatados (como na cena em que a mãe de Sosuke lhes prepara macarrão instantâneo), compelem o público a se encantar e se envolver com aquele estilo de vida.

Outra coisa muito bacana nas obras de Miyazaki é a compreensão que os personagens adultos tem das crianças. Se em “Meu Vizinho Totoro” o pai das garotas estimulava suas crenças nas lendas da região, aqui é a mãe de Sosuke quem surpreende ao aceitar de imediato a transformação de Ponyo em garota. Ela se comunica com as crianças de igual para igual, sempre atenta ao que os pequenos tem a dizer. Isso, por si só, atesta o quanto os filmes Ghibli se diferenciam dos americanos – lá, uma regra quase implícita dita que as crianças e os adultos devem se estranhar e bater de frente, para só no desfecho haver a reconciliação. É muito especial, ainda, a maneira com que Miyazaki trata seus personagens infantis. Em “Ponyo” e nos seus outros filmes, as crianças se comportam com a inocência devida da idade, mas também são submetidas a privações, a testes de caráter, coragem e responsabilidade. Ao final, essas dificuldades as amadurecem, mas não as endurecem. Uma moral simples e coerente, que apenas reforça a nossa admiração pelo gênio japonês.

.;. Ponyo – Uma Amizade Que Veio do Mar (Gake no ue no Ponyo, 2008, dirigido por Hayao Miyazaki). Cotação: B-

Categorias:Cinema
  1. 5 julho 2010 às 11:22 pm

    Que pena que o roteiro tem suas falhas. Mesmo assim, “Ponyo” é um longa que quero muito conferir. Beijo!

    • 5 julho 2010 às 11:53 pm

      Ka, acho que você deve mesmo conferir. O roteiro é falho, mas não compromete a experiência como um todo. Beijo!

    • Gustavo Silva
      30 julho 2010 às 6:45 pm

      O FILME É PERFEITO, mas ainda prefiro A VIAGEM DE CHIHIRO. O filme realmente é mais infantil, fui com meus primos pequenos, e eles ficaram entretidos do comeco ao fim. Realmente cumpre todo o comentário internacional… pena nao ter sido indicado ao oscar, que por falar nele… foi bem ruim esse ano, alguns filmes nem mereciam… enfim. VEJAM, PERFEITO!

  2. Ewerton Rodriguez
    6 julho 2010 às 4:29 pm

    esperei 2 anos pra ver nos cinemas e agora só tá passando em uma sala longe da minha casa, que bizarro, e eu achava que esse filme tinhe potencial bilheteiro por causa das crianças, mesmo sendo animação 2D.

    mas enfim, espero poder ver no cinema, senão vou ter que baixar.

  3. Jonathan zZZzZZz
    6 julho 2010 às 4:31 pm

    esperei 2 anos pra ver nos cinemas e agora só tá passando em uma sala longe da minha casa, que bizarro, e eu achava que esse filme tinhe potencial bilheteiro por causa das crianças, mesmo sendo animação 2D.

    mas enfim, espero poder ver no cinema, senão vou ter que baixar.

    • 6 julho 2010 às 6:18 pm

      Jonathan, pelo visto vc fez o mesmo comentário com a sua conta e a do Ewerton!🙂 Então, até onde eu sei a estreia oficial do filme é só no dia 17! As vezes ainda vai lançar em circuito maior…

  4. lucas henrique
    27 novembro 2010 às 1:15 am

    ponyo é um filme muito interesante mais oque eu mais gostei foi o barco eu esto querendo ver como fazer esse barco eu ja sei uns detalhes boms para fazer mais ainda falta mais por favor me ajudem email lukinhas.luz@hotmail.com

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