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Todos gostam, menos eu

Encontrei esse texto que tinha escrito há algum tempo sobre um filme que todos idolatram, mas que eu rejeito com todas as forças. Conversando a respeito dele com um amigo, lembrei dessa minha aversão e decidi postar aqui as minhas impressões…

“Elefante” é considerado um dos melhores filmes de Gus Van Sant, e o grande triunfo de sua carreira mais experimental e menos comercial (porque sim, ele faz cinema dos dois jeitos, por comodidade, conveniência ou falta de estilo próprio). A boa reputação do longa começou no Festival de Cannes, de onde saiu com a honra máxima, a Palma de Ouro, e persistiu após seu lançamento nos outros países. Os Estados Unidos, curiosamente, foi um dos que menos demonstrou interesse na fita, que supostamente é incômoda e auto-acusatória demais para uma plateia tão melindrosa. Já eu vejo de outro modo. Não acho “Elefante” nem de longe tão ousado e incisivo quanto pintam seus defensores ferrenhos. Imagino que a recepção fria na América se deve ao fato de que parte do público percebeu que o filme é, na verdade, um blefe, corriqueiro e mal realizado.

Van Sant se propõe a narrar, aqui, o massacre em um colégio americano perpetrado por dois estudantes. Não dá nome aos bois, mas a inspiração clara foi a tragédia em Columbine, onde dois alunos esconderam bombas no refeitório e invadiram a escola com metralhadoras, causando a morte de onze colegas e um professor antes de cometerem suicídio. Um episódio chocante que dá margem a discussões variadas, desde o bullying a que os adolescentes são submetidos – mal-tratados e humilhados pelos outros alunos, podem provocar uma vingança descontrolada desse tipo -, até o fácil acesso a armas e munição. Foi tudo devidamente explorado no documentário “Tiros em Columbine”, do Michael Moore, um relato definitivo do caso, atento à todas as ramificações.

A ênfase de “Elefante” é o cotidiano dos alunos envolvidos neste incidente, pouco antes da matança ter início. O filme sugere que aquilo poderia ter se sucedido em qualquer lugar, que os jovens dali não eram em nada diferentes dos outros jovens do país. Tenta, portanto, sintetizar toda a atual juventude americana nas figuras que apresenta. Só que o faz de maneira preguiçosa e descuidada, aproveitando-se de personagens estereotipados e sem nuances – um trio de adolescentes anoréxicas, uma garota tímida que evita se despir no vestiário, um casalzinho, um garoto que gosta de fotografar, um rapaz desleixado, e claro, os dois individíduos que cometeram o crime. Como se o assunto não fosse sério o bastante, o diretor afirma categoricamente que os psicopatas foram influenciados pelo nazismo, e que talvez fossem frustrados em sua orientação sexual (eles transam no chuveiro antes de sair para matar, já que não queriam morrer virgens).

Até o ato final, quando o massacre acontece, tudo o que o filme faz é ganhar clima. Mostra os atores – em sua grande maioria amadores, usando inclusive seus nomes reais – fazendo caminhadas intermináveis pelos corredores da escola, seguidos por uma câmera passiva e nada intrusiva. Mas não há maior propósito nessas tomadas longas, que resultam num exercício aborrecido e enfadonho, ou num truque para aumentar a metragem, já que sem a enrolação tudo poderia ser dito e condensado num curta qualquer. Para os admiradores, essas caminhadas, registradas sob perspectivas diferentes, são necessárias para registrar o nada, o vazio – e o fato do espectador, já a par da sinopse, saber o que está para acontecer, canaliza a tensão e a densidade.

Mas são, em geral, muito fracos os indícios da tragédia que se aproxima. Exemplo: sem inspiração para criar metáforas bem elaboradas, Van Sant filma o céu límpido se tornando cinzento e carregado, imagem que estampa os créditos iniciais. Até mesmo a chacina não é explorada como deveria, já que o roteiro estende a situação a ponto de torná-la absurda – na realidade, a polícia nunca demoraria tanto a ser acionada -, além de não saber posicionar os personagens (alguns, ao invés de fugir, vão se esconder no refrigerador)! A intenção maior de “Elefante” seria chamar a atenção para os problemas evidentes que a sociedade prefere ignorar (o título, inclusive, foi baseado naquela expressão “um elefante na sala de estar”, ou seja, um incômodo colossal). Ainda que alguns vejam o longa sob esses critérios, há de se reconhecer que muita gente pode encará-lo como uma afronta à inteligência e à paciência. E eu faço parte do segundo grupo.

.:. Elefante (Elephant, 2003, dirigido por Gus Van Sant). Cotação: D-

Categorias:Cinema
  1. 4 julho 2010 às 10:01 pm

    Eu sou uma das pessoas que gosta bastante de “Elefante”. Acho uma obra bem contundente e corajosa. E acredito que o Gus Van Sant sabe muito bem compreender os jovens, como ele também provou posteriormente em “Paranoid Park”. Beijo!

  2. rahru
    4 julho 2010 às 10:32 pm

    Não consigo concordar nunca em Cristo.
    O massacre ocorreu das 11:19 até o meio-dia e pouco. Não lembro quanto dura no filme (que tem menos de hora e meia), mas não chega a uma hora. Chutes assim sempre dão errado, e esse, factualmente, deu.
    Os estereótipos e caricaturas são simples: são irreais? Não. De maneira alguma van Sant exagerou ou inventou, aquele tipo de comportamento e personalidade está em tudo quanto é lugar. E são personagens irritantes para irritar, mesmo. Pra dar raiva e ficarmos com real vontade de matar todo mundo, como num videogame, que é quase o que o filme é. Aí todo mundo toma tiros na cabeça e você reflete naquele desejo que teve antes.
    Quanto às andanças, não sei dizer bem o que são ou se são alguma coisa, possível que sejam bobagem. Mas mostra os jovens totalmente vulneráveis, com alguém seguindo-os sorrateiramente e pronto para atirar pelas costas. Como se nem soubessem o que os espera.
    Filme A- com folga.

    • 4 julho 2010 às 10:55 pm

      Ka, sequer vi Paranoid Park, já atento às semelhanças que teria com este aqui, que odiei. Beijo!

      Pedro, mas em Columbine a polícia CHEGOU antes, só não conseguiu conter a situação. Pelo contrário, um dos alunos acabou sendo morto por fogo policial enquanto corria pra fora da escola. Isso não existe no filme, que ignora a presença da polícia. Mas é de menos. O que mais me incomoda são os personagens, nada além de caricaturas, como você mesmo disse. Não há profundidade em nenhuma das histórias, e o roteiro se guia sempre pelo lugar comum para apresentar as personalidades de cada um. Não vejo mérito nesse painel, e ainda sei que personagens idênticos, expostos num filme mais leve e menos pretensioso, seriam encarados como ridículos pelos que admiram “Elefante”. Mantenho o D-, que achei aliás caridoso.

  3. cleber eldridge
    5 julho 2010 às 2:16 am

    Particularmente acho o melhor filme de Gus Van Sant, mas, é perfeitamente “aceitavel” quem não gosta devido a todo um processo que o filme nos faz passar, toda a lentidão e o roteiro pode não agradar a todos. Felizmente, ele me agradou até demais, já vi o filme umas 4 ou 5 vezes e sempre tenho a mesma percepção, ele é sempre ótimo, digno de uma Palma D’Ouro mesmo.

  4. 5 julho 2010 às 3:28 am

    o/
    (calma, que eu vou ler seu texto direito, mas me emotivei tanto em saber que não estou só que já quis comentar pelo título da postagem!!! nunca gostei de Elefante; mas aí eu assisti Last Days e reassisti Elefante, e minha birra passou um pouco, porque Last Days é a maior porcaria que eu já vi. meu problema com Van Sant é que ele fez Paranoid Park, que é a coisa mais linda do meu coração. aí que eu fico nesse impasse: amo ou odeio esse tiozinho???).

    volto logo.😉

    • 5 julho 2010 às 4:55 am

      Cleber, vi esse filme duas vezes. Da primeira, tinha dito que seria pra nunca mais assistir. Da segunda, pra confirmar se a minha impressão tinha sido tão ruim mesmo. Foi. Não abro mão: rejeito esse filme com todas as minhas forças!

      Quéroul, estou aguardando o seu retorno! Não sabia que amava tanto Paranoid Park. Vale dar uma chance, é? Beijo.

  5. 5 julho 2010 às 10:36 pm

    ontem eu já tinha lido seu texto e tentado escrever aqui, mas tava meio confuso, e eu desisti. vai continuar confuso porque eu queria escrever melhor o porquê do filme me irritar tanto, quando seria suficiente dizer ‘não gostei e pronto’. mas vamos lá.
    meu problema com Elefante – e depois com Last Days – foi uma só coisa: a mão pesada na hora de colocar de qualquer maneira relações homossexuais para justificar alguma coisa. a cena do chuveiro me incomoda sobremaneira; empobrece a causa, ridiculariza as consequências. já li muita coisa sobre o filme e sobre a cena: que o filme seria uma tentativa do diretor de entender o que havia acontecido, uma busca pela compreensão do ocorrido em Columbine; que a cena seria necessária porque explicaria que a repressão sexual ou whatever poderia estar ligada à violência, bláblá.
    me lembro que fiquei bravíssima em ver que o diretor precisou colocar alguma insinuação sexual para justificar os atos daquelas pessoas. depois fiquei brava porque a cena leva a interpretações preconceituosas e foi feita por um cara que sempre levanta a bandeira do arco-íris… enfim, eu não consigo escrever direito aqui o que eu sinto sempre que lembro dessa maneira gratuita de se referir à homossexualidade nesse filme.
    e eu acho que essa minha bronca se intensificou porque o filme é simplesmente chato demais, cheio de arte demais e todo mundo acha muito legal que ele exista.
    não nego: acho Elefante e Last Days infinitamente mais bonitos que, sei lá, Finding Forrester, mas isso por causa da ‘arte’ toda; as cores, enquadramentos, planos-sequência… mas que os filmes são chatos, são. e com o agravante de terem sido vendidos como biográficos das situações (Columbine/ Kurt Cobain), quando parece que eles serviram pro diretor colocar gratuitamente qualquer tipo de discussão (violência, suicídio, homicídio e, na mesma linha, né Van Sant, homossexualismo. Me incomoda colocar todas essas discussões num saco só. Um saco bonito, colorido, artístico… mas podre).

    revi Elefante, e não achei tão péssimo quanto havia achado na primeira vez; mas não sei se um dia eu chegarei a gostar um pouco, porque sempre vai ter aquela maldita cena do chuveiro…

    e vale sim, Louis, Paranoid Park vale muito. acho que se o Van Sant só tivesse feito esse filme, ele seria certamente meu diretor favorito. acho que ele é meu diretor preferido pra detestar, porque eu não aguento Elefante, Last Days, My Own Private Idaho… mas eu sou capaz de perdoá-lo por tudo isso, só por causa de Paranoid Park!😉
    =**

    (desculpa tomar tanto espaço sendo prolixa. hahahaha. Elefante sucks e vc não está só)

    • 6 julho 2010 às 5:30 am

      Quéroul, seu comentário é muito pertinente e espantosamente lúcido. Ainda que só tenha mencionado essa questão do diretor insinuar a homossexualidade dos psicopatas, este é, de fato, um dos pontos mais incômodos do filme, e aquele que até mesmo os defensores de “Elefante” gaguejam na hora de defender. Parece que Gus Van Sant decide o que quer dizer antes de decidir qual história vai contar, e encaixa esses elementos quer eles caibam bem à trama ou não. Só que em casos como este, que todo mundo sabe que foi baseado em algo real, triste e pesado, não dá pra tratar com essa leviandade. A cena do chuveiro, para alguns, pode arruinar todo o restante do filme (que eu já acho um caso perdido de qualquer maneira). Vou pensar muito se verei ou não Paranoid Park. Mas uma última observação: gosto bastante de My Own Private Idaho, que considero mais interessante e menos chato e embromado que este aqui!

      Faça mais desses comentários extensos!!😉 Beijo.

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