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Archive for julho \31\UTC 2010

Fora do ar

Venho por meio desta informar que o blog ficará sem atualizações até segunda ordem, devido à problemas técnicos (um defeito no monitor do meu estimado MacBook, que tem prazo de cinco a dez dias úteis, mais o custo de algumas centenas de reais, para ser reparado). Retorno assim que possível com a programação normal.

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Categorias:Diversos

Você também já foi banana

Ficou faltando comentar um filme que assisti no avião, na volta para o Brasil. A viagem estava sendo cansativa e quase caótica. Com o vôo de Baltimore para Nova York cancelado por falta de passageiros (faria escala em NY e lá pegaria outro avião para São Paulo), a companhia aérea me encaixou num vôo até Miami, e de lá para o Brasil, após uma espera de sete horas no aeroporto. Só que os vôos que partem de Miami são assumidamente horríveis, porque o local atrai muitos turistas latinos em função da Disney, e a staff não costuma ter o mesmo capricho no atendimento. A única coisa que impediu minha madrugada de se tornar calamitosa foi o filme “O Diário de Um Banana”, que encontrei disponível na telinha da poltrona à frente.

Não é uma comédia que vai revolucionar o gênero ou ficar marcada nos nossos corações, mas é um passatempo válido e despretensioso, que consegue entreter muito bem durante uma hora e meia, e até extrair algumas risadas gostosas. Baseado num bestseller que você certamente já viu em alguma estante de livraria, o longa é sobre um menino que está saindo do primário e entrando no middle-school (que seria o nosso antigo ginásio). Ninguém tem boas lembranças dessa fase da vida – num momento, somos a turma mais velha e experiente do primário, e no outro adentramos em outra realidade, numa escola maior com alunos maiores e situações intimidadoras. Se mesmo depois de adultos já achamos difícil sair de nossa zona de conforto, que dirá quando crianças – ou melhor, quando ainda estamos com um pé na infância e outro na adolescência, reprimindo o desejo genuíno de brincar, porque supostamente não deveríamos mais nos importar com essas trivialidades. E lidar com hormônios aflorando, espinhas aparecendo e pelos surgindo em nossas partes íntimas também não é um passeio no parque para ninguém.

“O Diário de Um Banana” não ignora nada disso: tudo na vida do protagonista mirim é sofrimento. Mas por alguma razão, ele se convence de que, caso se torne popular o suficiente para ter uma foto estampada no livro de fim de ano do colégio, esse sofrimento será abrandado ou no mínimo recompensado. E passa a fazer de tudo para concretizar essa meta – se alistar no clube de luta livre, no grupo de monitores, no jornal da escola etc (cada desventura dá margem à narrativa truncada e episódica, que a recorrente voz em off do garoto nem tenta negar). Percebe, no entanto, que terá de abrir mão do seu melhor amigo, um gordinho extrovertido e sem noção que vive lhe fazendo passar carão.

Só com o tempo ele vai aprender lições básicas sobre o valor da amizade e sobre ser você mesmo em qualquer hipótese, para ser apreciado pelo que é e não pelo que os outros querem que seja. Imagino que a moral vá cair bem a quem esteja passando por situação parecida – e soa ao menos simpática a nós que, pelo contrário, já amadurecemos e estamos bem distantes desta fase. Diferenciado ainda pelo ótimo elenco infantil – alguns moleques realmente esquisitos e desajeitados, capazes de fazer rir pela própria persona -, o filme só perde pontos pelo final abrupto e sem grandes lances, e pelo uso excessivo de animações primitivas como aquelas que ilustram o livro. Mas em geral é bem legal.

.:. O Diário de Um Banana (Diary of a Wimpy Kid, 2010, dirigido por Thor Freudenthal). Cotação: C+

Categorias:Cinema

Weekly Stitches #1

Decidi inaugurar uma coluna semanal no blog com alguns pensamentos rápidos e informais, que aproximem o leitor daquilo que eu tenho feito e que nem sempre dá para abordar em posts mais padronizados. Vou comentar rapidamente sobre uma canção que tenho ouvido, um livro que tenho lido (ou pensado em ler), um filme que peguei passando na TV e parei pra dar uma olhada. Enfim, vão ter várias categorias, que eu irei aperfeiçoando com o tempo. Por enquanto vou começar com uma ideia bem básica, ok? A inspiração veio da minha amiga Rafaella Castello, que fazia algo parecido no blog dela Bring me the Disco King, que agora está abandonado. Vou experimentar e posso continuar com esses posts ou não, dependendo da resposta de vocês!

Canção:

“Fix You Up” – Tegan and Sara
Porque dar voltas de carro por São Paulo ouvindo essas duas lésbicas canadenses foi meio que o ponto alto da minha semana. A música é velhinha e se eu não me engano tocou na primeira temporada de “Grey’s Anatomy”, onde eu as conheci.

Livro:

“Comer, Rezar, Amar” – Elizabeth Gilbert
Em breve um drama de grande orçamento com Julia Roberts. Peguei para folhear e, se não comprar, vou ao menos acabar baixando. São as lembranças de uma jornalista americana do ano que ela passou no exterior – Itália, Índia e Bali -, procurando paz espiritual e conhecendo pessoas especiais no caminho.

Filme:

Arrasta-me Para o Inferno
Peguei passando no TeleCine e não consegui parar de ver. Um “terrir” de primeira, super bem planejado pelo Sam Raimi (remete lindamente à sua trilogia “Evil Dead”). Curti como a Alison Lohman vestiu a camisa do projeto, sem medo de se arriscar em sequências nada glamurosas, ou mesmo nojentas e escatológicas.

Série:

True Blood
Os viciados em série não falaram em outra coisa nos últimos dias – o mais sanguinolento de todos os episódios de “True Blood”, exibido neste Domingo na HBO americana. Também vejo “Mad Men” e “Entourage” das recentes, e degusto “Angel” e “The Wire” a passos de cágado, mas são os vampiros de Bon Temps que ocupam o spotlight desta lista.

Vício:

Billy Elliot – The Musical
Não saiu da minha cabeça desde que o assisti na Broadway, e escrever sobre ele só aflorou minha paixão. Não paro de ouvir a trilha, e mato a saudade vendo uma filmagem amadora (e ilegal) que encontrei no YouTube. Afinal, rever ao vivo seria incrível, mas as chances disso acontecer são caras e remotas.

Por enquanto é só. Deixe sugestões de categorias para a próxima Quinta-feira!

Categorias:Cinema, Literatura, Música, TV

A melhor noite da TV

Para quem, assim como eu, tem o hábito de acompanhar os seriados juntamente com os Estados Unidos, as noites de Domingo são as melhores da semana. Não só porque a esmagadora maioria das séries está de férias, e as poucas que estão com episódios inéditos vão ar no Domingo, mas também porque os principais chamarizes dos dois canais mais conceituados da atualidade – “True Blood” na HBO e “Mad Men” no AMC – competem, neste dia e horário, pela mesma parcela de telespectadores. Cada emissora se esforça para apurar a qualidade – e quem ganha é o público.

“True Blood”, mesmo já não tendo o fator novidade que embalou sua primeira temporada, permanece uma das opções mais interessantes e também corajosas da TV. Alan Ball, o premiado roteirista de “Beleza Americana” e criador de “Six Feet Under”, concebeu um universo muito particular, inspirado numa coleção de livros da escritora Charlaine Harris. Nessa realidade alternativa, os vampiros não só existem, como assumiram sua existência para a sociedade, após a invenção de um revolucionário sangue sintético. Como o sangue pode ser comprado em engradados no supermercado, eles não precisam mais assassinar humanos para se alimentar e sobreviver – exceto que, para grande parcela deles, a carnificina é prazerosa e imprescindível, um direito do qual não querem abrir mão. A protagonista (a atriz bissexual Anna Paquin) é uma garçonete telepata que se apaixona por um vampiro inofensivo e bem intencionado (Stephen Moyer). Através dessa relação, ela se vê envolvida com todos os aspectos do submundo – que inclui macumbeiros, metamorfos, uma mulher-diabo, e até lobisomens nesta terceira temporada. Como a trama se passa numa cidadezinha do sul dos Estados Unidos, os seres fictícios frequentemente servem de metáfora para o racismo e o preconceito tão presentes naquela parcela do país, dominada por conservadores e republicanos. Mas para mim o que há de mais inteligente na série é a maneira acessível que Ball encontrou de transmitir este gênero de difícil apreciação – “True Blood” é pesada e violenta, e ao mesmo tempo altamente divertida e desfrutável. A terceira temporada demorou um pouquinho a engatar, mas já no sexto episódio, exibido esta semana, conseguiu arrebatar e conquistar os espectadores relutantes.

Já a finíssima “Mad Men” é tão bem realizada em todos os pormenores que chega a assustar. Não existe na TV programa mais bem cuidado, seja pela formidável reconstituição de época, seja pela densidade do plot e como cada personagem cumpre seu papel dentro dele. Sem esquecer ainda do momento histórico, já que a série é ambientada no início dos anos 60, uma década de prosperidade econômica nos Estados Unidos – o que, frente à crise atual, torna tudo ainda mais relevante ou, no mínimo, irônico. Se por vezes o programa soa cansativo e enfadonho, saiba que este ritmo vagaroso é intencional e até necessário. Como em “The Sopranos”, “Mad Men” enfatiza um personagem por vez. O protagonista é o publicitário Don Draper (Jon Hamm), mas todos os demais coadjuvantes que lhe fazem companhia, interpretados por atores tão consistentes que se camuflam no cenário e convencem plenamente como homens do passado, também terão um momento só seu. Logo, tramas que demoram para engrenar, e que passam muito tempo sendo apenas sugeridas, irão se concretizar uma hora ou outra. E quando acontecer, será com um texto primoroso e verossímil. Afinal, mesmo seguindo suas fórmulas televisivas, “Mad Men” parece totalmente desprovido de artifícios sensacionalistas (ao contrário de “True Blood”, que usa e abusa desses recursos, encerrando cada episódio com um gancho escancarado para o próximo). Uma observação: a semelhança com “The Sopranos” não é mera coincidência. O criador Matthew Weiner trabalhou como roteirista da série de David Chase, tendo sido contratado pela HBO após propor justamente a produção de “Mad Men”, com base no Piloto que tinha escrito. A HBO adiou a produção, e Weiner engavetou o roteiro para, anos mais tarde, receber carta branca do AMC e levar o projeto adiante. Firmou-se assim a competição mais acirrada da TV paga hoje em dia.

Se você tivesse que optar por um só, com qual ficaria? “Mad Men” ou “True Blood”?

Categorias:TV

Shrek, o Capítulo Final

As pessoas costumam ter boas recordações do primeiro “Shrek” e de sua bem-sucedida continuação lançada em 2004. Afinal, a série foi responsável por alavancar o departamento de animação da DreamWorks, além de ter conquistado o Oscar de Melhor Filme Animado no ano em que a categoria estava sendo inaugurada (uma vitória um tanto injusta sobre o concorrente da Pixar “Monstros S.A.”). Ainda que “Shrek” seja uma boa comédia – muito favorecida pelo Burro Falante cheio de virtuosidade de Eddie Murphy, e no volume seguinte, pelo Gato de Botas de Antonio Banderas -, só é plenamente satisfatório para aqueles de repertório limitado aos cartoons, às novelas, aos reality shows e às fofocas de celebridade, de onde o roteiro extrai todo o seu senso de humor satírico e suas piadas datadas.

É, no máximo, um programa legal, que brinca com as convenções dos contos-de-fada e com a planíssima estrutura narrativa dos filmes em que o cavaleiro resgata a donzela em perigo. Isso, mais o charme dos coadjuvantes pitorescos, explica o sucesso inicial da franquia, embora não justifique alçá-la entre os melhores exemplares do gênero, como fazem seus admiradores mais fervorosos. A própria DreamWorks, que faz animações muito parecidas e não especialmente inteligentes, mostrou-se superior em outros projetos, como “Kung-Fu Panda” e o recente “Como Treinar Seu Dragão”, certamente a obra-prima do estúdio. No terceiro “Shrek”, a fragilidade do plot já não conseguia ser disfarçada – o que ditava a trama não eram os personagens, que não tinham nada de novo e relevante a oferecer, e sim todos os elementos desfavoráveis citados acima: as piadas com cultura descartável, as paródias nada elegantes aos filmes da Disney (aos quais “Shrek” parece se julgar superior), e os truques humorísticos que não rendiam ao seu potencial. Até mesmo a qualidade da animação parecia desleixada.

Como convinha para os cofres do estúdio prosseguir com a saga, mas não havia para onde levar a história, o que se vê neste quarto filme, “Shrek Para Sempre”, em cartaz nos cinemas do Brasil, é pura enrolação. Não havia como dar continuidade ao enredo do protagonista, pois o ogro verde Shrek já dera uma volta completa em seu arco dramático – depois que salvou a Princesa Fiona da guarda de um dragão, eles se casaram, foram conhecer os pais, e tiveram filhos. Agora Shrek é um pai de família, e famoso no mundo dos contos de fada. Já não fogem quando o vêem na rua, e sim param para pedir autógrafo, já que sua aparência monstruosa inspira mais simpatia do que medo. Ou seja, não há conflito que possa ser criado, e por isso decidem começar tudo do zero: infeliz com a tranquilidade de sua rotina, Shrek assina um contrato com o vilão Rumpelstiltskin, que lhe concede um dia para viver como um ogro livre e selvagem. Mas toma no lugar o dia de seu nascimento.

Sem a existência de Shrek, o reino é devastado ao estilo de “A Felicidade Não Se Compra”. O Burro não lhe reconhece e é tratado como um animal indigno; o Gato de Botas está gordo; Fiona nunca fui resgatada de torre e assumiu sua identidade ogra, que só pode manter durante a noite, conduzindo uma aliança rebelde de ogros contra o Rumpelstiltskin, que agora controla o reino com mãos de ferro. Tudo muito banal e esquecível, sendo que as poucas piadas risíveis funcionam graças aos dubladores (conferi no áudio original, mas a versão brasileira também costuma ser boa). Um elogio também para as canções – clássicas ou inéditas – que compõe a trilha. O diretor Mike Mitchell não tinha experiência com animação – de fato, nem nos seus filmes anteriores de live-action dera sinais de competência, o que comprova o descaso da DreamWorks com a qualidade da série. Ou que “Shrek” deveria ter se encerrado na segunda parte, para que o público ficasse apenas com lembranças agradáveis, e a franquia, com sua reputação intacta.

.:. Shrek Para Sempre (Shrek Forever After, 2010, dirigido por Mike Mitchell). Cotação: D+

Categorias:Cinema

Explosão injusta

Não dá para entender as reações negativas à “Encontro Explosivo”. O filme é uma divertida comédia de ação que, quando tomado pelo que se propõe, entrega ao público sequências movimentadas e bem orquestradas, num ritmo rápido e realmente incansável. Se não foi o sucesso de bilheteria que teria sido em outros tempos é porque o prestígio do astro Tom Cruise nunca esteve tão em baixa, graças às palhaçadas que protagonizou na vida pessoal, tentando propagar sua religião, a cientologia, e sua esposa inexpressiva Katie Holmes. Seu par romântico no filme, Cameron Diaz, também já teve mais seguidores – hoje o que faz de relevante é posar para fotos e dublar a Princesa Fiona nas continuações pioradas de “Shrek” (depois que Sofia Coppola a usou como caricatura em “Encontros e Desencontros”, ela também se tornou motivo de piada em muitos círculos). Mas eles não são maus atores, e continuam tendo carisma o suficiente para segurar um filme. Mais ela do que ele, na verdade: Cameron parece ter um entendimento melhor do clima do longa – para não levar a sério e se divertir a valer no processo -, além de permanecer bastante atraente. Os dois já tinham se reunido antes no cinema, em “Vanilla Sky”, onde ela também era o destaque, com uma forte e intensa presença.

Nesta fita, dirigida com estilo por James Mangold (“Johnny & June”, “Os Indomáveis”), Tom é um agente secreto imbatível, perseguido injustamente por todas as forças de autoridade dos Estados Unidos, mas capaz de se esquivar de esquadrões completos. Ele está protegendo uma poderosa fonte de energia e seu inventor genial e precoce – até que Cameron, uma civil bem intencionada, cruza seu caminho no aeroporto e acaba entrando de gaiato nesta perseguição. Não dá para procurar lógica na trama, mas o absurdo ao menos é bem conduzido, com a trama sendo ambientada em vários países diferentes, e os personagens se deslocando de um ponto ao outro como se estivessem indo na esquina. Há muito tiroteio – alguns quase idênticos aos de “Sr. e Sra. Smith”, com o qual este filme tem sido muito comparado -, muito automóvel colidindo em rodovias, e muita correria por cima de telhados, tudo bem coreografado e captado por ótimos planos de câmera. Quem entra no esquema e se envolve não vai dar a mínima para os furos gigantescos do roteiro, nem para os clichês a que ele se rende (como os diálogos auto-explicativos, que contestam o óbvio para o espectador mais lento). Até porque também há boas sacadas, como as cenas em que Cameron é dopada e apenas vislumbra trechos diferentes da ação. O elenco também conta com Peter Sarsgaard, Paul Dano, Marc Blucas, a veterana Celia Weston e a sempre interessante Viola Davis. Uma boa pedida para uma tarde de Domingo.

.:. Encontro Explosivo (Knight and Day, 2010, dirigido por James Mangold). Cotação: B-

Categorias:Cinema

Extra, extra! Gypsy estreia em SP

“Gypsy”, clássico absoluto do teatro musical, foi inspirado na história real de uma stripper estimulada desde criança pela mãe a seguir carreira artística. Como faltava talento ou oportunidade, a moça viu-se relegada, com o passar dos anos, ao teatro burlesco, onde as mulheres se despiam no palco (na verdade mostravam apenas as curvas, o que para a época era um escândalo, igualmente vergonhoso, imoral e condenável). Apelidada de “gypsy” – cigana, em inglês – por ter viajado pelos quatros cantos dos Estados Unidos perseguindo a fama (a mãe sonhava em emplacar um hit no extinto teatro de variedades), a heroína fora de início preterida pela irmã caçula, mimada e desafinada, mas loura e com perfil de show biz. Depois que a pequena – que já não era mais tão pequena assim – cansou de ser pau mandado da mãe e foi viver a própria vida, a mais velha – obediente e de temperamento maleável – foi promovida à estrela de uma atração que nunca engrenou. Resignada, aceitou fazer striptease por falta de coisa melhor, mas foi desabrochando, percebendo o que era se sentir querida e desejada, e se tornando uma referência no ramo. A certo ponto, era a stripper mais requisitada do país, nuns tempos em que a profissão, se não era mais valorizada, ao menos era glamurosa para aquelas que, como Gypsy, sabiam lhe extrair classe e elegância.

A vida de Gypsy e de sua mãe foram inteiramente dedicadas ao sonho do teatro, e não há melhor maneira de retratá-las do que nos palcos. A versão musical vem sendo encenada há décadas na Broadway, com revivals ocasionais, e foi baseada nas memórias da própria Gypsy, que publicou um livro após a morte da mãe escancarando os perrengues que passaram e as artimanhas perpetradas pela matriarca para favorecer as filhas. Mama Rose, como ficou conhecida, se tornou o símbolo absoluto das “stage moms” – aquelas que pressionam Deus e o mundo para impulsionar a carreira artística dos rebentos. E é nela, e não em Gypsy, que a história se concentra. O musical pode ser conferido com o público já ciente da sinopse, mas é igualmente curioso quando visto sem maiores informações sobre a trama, já que esta termina num ponto diametralmente oposto ao que começou. Ao mesmo tempo também é simétrica e coerente, como se nota pela repetição da canção “Rose’s Turn”, entoada com ferocidade pela protagonista, com a letra modificada de acordo com seu estado de espírito.

O desafio de trazer este clássico ao Brasil coube à Charles Moeller e Cláudio Botelho, cuja parceira profissional rendeu alguns dos melhores musicais que o país recebeu nos últimos tempos (“A Noviça Rebelde”, “Avenida Q”, “Beatles num Céu de Diamantes” e o recente “O Despertar da Primavera”). A competência dos trabalhos anteriores da dupla também se faz presente aqui – as versões de Cláudio para músicas que pareciam inconcebíveis em outro idioma impressionam, e a direção de Charles é muito segura para sincronizar os elementos que passam pelo palco durante as três horas de espetáculo. E não são poucos: há incontáveis trocas de cenário e figurino, todos de encher os olhos, e uma iluminação extremamente funcional, com os holofotes agindo em favor da narrativa (como não poderia deixar de ser, parte da trama é metalinguística, com teatro encenado dentro de teatro). Às vezes, para dar tempo do cenário ser modificado ou do elenco trocar de roupa, a orquestra – muito bem regida e situada abaixo do palco – tem de enrolar e fazer firulas excessivas. Incomoda um pouquinho o excesso de canções, em especial no primeiro ato (há duas ou três músicas dedicadas à Mama Rose e seu companheiro profissional e amoroso, Herbie, todas servindo ao mesmo propósito). E por vezes também parece que o texto se estende demais para abrir caminho para as canções, mas nada que comprometa a experiência.

O elenco é, a meu ver, o grande acerto desta montagem. Totia Meirelles dá um show como Mama Rose – “Gypsy” está chegando agora em São Paulo, mas já esteve em cartaz no Rio por três meses, e nesse meio-tempo, ela pode se tornar confortável com a personagem e tudo o que lhe é exigido. Adriana Garambone cresce para o final, tornando crível a transformação da insegura Louise na dama do teatro burlesco Gypsy (há uma sucessão de stripteases em que dá para ver literalmente este amadurecimento). Aliás, quando ela e Totia batem de frente, num embate verbal que deixa a plateia num silêncio sepulcral, não tem como não admirar, também, o duelo de interpretações travado ali, do qual ambas saem ganhadoras (o texto sabe se posicionar muito bem, tornando compreensíveis as motivações tanto de Louise quanto de Mama Rose, que com menos cuidado poderia se transformar em vilã ou caricatura). Dentre os demais atores de destaque temos Eduardo Galvão, numa boa performance, Renata Ricci, que manipula as canções para adequá-las às suas limitações vocais, e André Torquatto, craque no sapateado e uma verdadeira revelação (aliás, o libreto falha em dispensá-lo cedo demais e não explorar por completo o que o personagem poderia significar para Louise).

O restante da trupe é composta por crianças muito bem escolhidas, com maior destaque para as garotas que vivem as protagonistas durante a infância, e outros nomes promissores ou consolidados do teatro musical brasileiro. Menção especial para Liane Maya, Sheila Matos e Ada Chaseliov, espetaculares como um trio de strippers decadentes e responsáveis pelas risadas mais fartas do segundo ato. Não falta graça à “Gypsy”, aliás. O musical é dramaticamente estofado, mas também extremamente bem humorado. Muitas dessas piadas são proferidas por Totia com espontaneidade, como se tivessem sido pensadas no momento, ou como se Mama Rose fosse criada especialmente para ela e por ela. O que confirma que Moeller e Botelho são, na verdade, artífices: seus musicais nunca são réplicas exatas, e sim seguem caminhos diferentes (e melhorados!) àqueles em que se basearam. O que faz as produções dos dois se destacarem no nosso cenário é justamente essa habilidade de imprimir algo pessoal no que poderia ser genérico.

.:. Gypsy – O Musical. Teatro Alfa. Rua Bento Brando de Andrade Filho, 722. Tel (11) 5693-4000. Qui, 21h. Sex, 21h30. Sáb, 20h. Dom, 17h. Até 17/10. Preços: de R$60 a R$120 (quinta e sexta) e de R$80 a R$140 (sábado e domingo). Cotação: A-

Categorias:Teatro