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Essa Rainha é um luxo!

Há um padrão que pode ser percebido entre os últimos vencedores do Oscar de Melhor Figurino. As estatuetas foram para filmes de época, centrados na nobreza europeia, e mais especificamente, numa figura feminina que substancia os costumes e as firulas da vida na Corte. É o caso de “Maria Antonieta”, onde Kirsten Dunst encontrava humanidade numa personagem frívola, que precisava de uma comitiva para lhe botar o espartilho; é o caso também de “Elizabeth – A Era de Ouro”, no qual Cate Blanchett fazia uma Rainha séria e marcial que trajava vestidos tão estufados quanto sua personalidade; e é o caso ainda de “A Duquesa”, em que Keira Knightley se rebelava contra o cotidiano regrado através das combinações ousadas de suas roupas. O exemplar mais recente a se juntar ao grupo é “A Jovem Rainha Vitória”, protagonizado por Emily Blunt com a mesma consistência com que Kirsten, Cate e Keira deram vida às suas soberanas. Premiado com o Oscar da categoria em Março deste ano, o filme estreia agora nos cinemas do Brasil sem muita badalação.

Segundo os leitreiros finais, Vitória foi a monarca mais duradoura da Inglaterra, tendo assumido o trono com 18 anos incompletos, e reinado até sua morte aos 81. O mesmo letreiro indica que ela, junto do marido Príncipe Albert, estimulou a cultura e promoveu melhorias na educação e na condição de vida da classe trabalhadora. Ou seja, o mais relevante de seu governo foi relegado a uma nota de rodapé no desfecho do filme. Tudo o que vem antes disso são os seus anos iniciais, desde quando era criada pelo amante interesseiro de sua mãe (Miranda Richardson). O padrasto (Mark Strong) pretendia reinar a Inglaterra por meio de uma liminar, revogando os privilégios de Vitória em função da pouca idade. Após a morte do seu tio, o Rei (Jim Broadbent), Vitória não dá espaço para que sua autoridade seja contestada. É coroada ainda bastante ingênua e despreparada, e comete erros típicos de principante – como confiar cegamente no primeiro-ministro (Paul Bettany), que pode muito bem está-la usando a seu favor – antes de encontrar sua zona de conforto. O marido, Albert (Rupert Friend), lhe é apresentado com as conveniências típicas do período (o casamento teria vantagens políticas, mais para ele que para ela).

O longa acerta em não romantizar a relação dos dois. Ainda que Albert pareça se importar genuinamente com Vitória, nenhum deles se apaixona à primeira vista, e até o momento em que se casam, tiveram pouco mais que dois encontros comportados e supervisionados. Depois de casados é que encontram a felicidade, com os habituais porvires de qualquer relacionamento. Tampouco a protagonista é mostrada como uma mártir. Vitória é mimada e prepotente, ensinada a acreditar que foi escolhida por Deus para liderar o povo da Inglaterra – mas insiste em subir ao trono mesmo sem estar apta para tal tarefa (não tem qualquer senso administrativo, já que sua instrução se resumiu a ler livros, frequentar bailes e ir à ópera). Na verdade, sua única motivação para se tornar Rainha era se libertar do ambiente opressor em que fora mantida pela mãe nos primeiros dezessete anos de sua vida. Não é, portanto, alguém que desperte a empatia do espectador, que no máximo há de se contentar com a produção bem cuidada de uma novela. A Jovem Vitória descobrindo o amor nós ficamos conhecendo. A Rainha Vitória, nem tanto. Destaque para a maquiagem, que rejuvenesce Blunt até a aparência de uma meninota, e para a esplêndida cenografia. E o figurino, de fato, é um arraso.

.:. A Jovem Rainha Vitória (The Young Victoria, 2009, dirigido por Jean Marc-Vallée). Cotação: B+

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Categorias:Cinema
  1. 25 junho 2010 às 1:29 am

    AMEI este filme! Amei mesmo! E discordo de você no sentido de achar que o roteiro romantiza, sim, o relacionamento entre Albert e Victoria. Beijo!

    • 25 junho 2010 às 1:36 am

      Ka, o filme é convencionalmente um romance, mas o amor de Victoria e Albert não é instantâneo. Ele não surge à primeira vista, mas com o tempo, depois de ela estar madura para tomar uma decisão e de ter flertado com o primeiro-ministro. O filme erraria se tivesse descambado pra água com açucar, colocando trilha incidental quando os dois se veem pela primeira vez ou apelando pra câmera lenta. Beijo!

  2. Frederik Lauridsen
    25 junho 2010 às 3:18 am

    Baixei esse filme na época do Oscar e achei muito chato.. Serio acho que nao passei de meia hora kkkkkk…

    • 25 junho 2010 às 8:03 am

      Frederik, talvez você devesse ter insistido, porque o filme realmente começa devagar e vai ganhando fôlego mais adiante 😉

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