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Profetizo a estreia de um bom filme

“O Profeta” foi um dos finalistas ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro deste ano, e era apontado como o favorito ao prêmio por boa parte da crítica. A estatueta acabou indo para o belíssimo filme argentino “O Segredo dos Seus Olhos”, mas esta produção francesa também tem muito a seu favor. Nada que justifique ser chamado de “épico” ou comparado com a magnitude de “O Poderoso Chefão”, como se vê nas chamadas que entrecortam o trailer. Mas bom o suficiente para ser conferido com interesse, mesmo numa semana de excelentes estreias (os superiores “Toy Story 3” e “Kick-Ass”). Infelizmente entrou em circuito limitado e muito provavelmente passará despecebido ao público brasileiro.

Na trama, Malik, um muçulmano nascido e criado na França, é preso aos dezenove anos. Ainda um moleque inocente e imaturo, pensa com ingenuidade que conseguirá cumprir a pena de seis anos e se manter alheio ao ambiente hostil, inóspito e violento que o rodeia. Ledo engano: ele é logo incumbido por um chefe da máfia local, detido na mesma penitenciária, de matar um prisioneiro que está isolado no seu bloco, para impedí-lo de testemunhar num julgamento. Se não cumprisse a tarefa, Malik é quem seria assassinado à sangue frio. Ele vai em frente, é claro, cometendo o crime mais terrível de sua vida até então, o que lhe assombrará pelos próximos anos (a vítima retorna em aparições que só se dão em seu psicológico).

Mesmo aturando a discriminação por ser árabe, ele persiste fazendo pequenos favores para os mafiosos da prisão e gozando de certos luxos e benefícios. Vai se tornando, também, um homem feito, auto-confiante, esforçado e inteligente – é na prisão, por exemplo, que ele aprende a ler e a escrever algo além de seu nome. Com o tempo, consegue permissão para sair da cadeia por um dia, usando as suas horas em liberdade para fazer serviços externos para a máfia, e também para levar adiante o seu próprio negócio como traficante, que iniciou dentro do presídio. Ou seja, um caso como tantos que ficamos sabendo: de um indivíduo que sai da prisão ainda mais corrompido do que entrou. Com a diferença de que, para Malik, essa transformação foi conveniente e não apenas prejudicial.

É admirável o trabalho do diretor Jacques Audiard, um autêntico cineasta. Para retratar o interior da prisão com o máximo de veracidade, ele contratou ex-condenados como conselheiros ou figurantes. Deu certo: o local que sustenta a ação é crível e visceral, favorecido pela ótima fotografia. Mas nada impressiona mais no trabalho de Audiard do que a habilidade dos seus planos de câmera – pelo menos duas tomadas (o atropelamento de uma gazela e uma sequência de tiroteio dentro de um carro) merecem desde já uma menção entre as melhores da temporada. Outro ponto favorável são as canções em língua inglesa compiladas na trilha sonora, que ajudam a balancear muito bem a narrativa. O grande acerto da obra, porém, foi a escalação do protagonista, o desconhecido Tahar Rahim. Com esta interpretação, ele se prova um ator consistente e promissor, capaz de segurar o filme durante as duas horas e meia de metragem (ele aparece em cada minuto disso) e de ilustrar todas as mudanças que sofre o seu personagem.

Se o filme não é a revolução que prometia ser (não que ele tivesse obrigação alguma de corresponder a isso), é porque a narrativa, que se inicia com perfeição, vai se tornando cansativa e desfocada lá pela metade, para só recobrar o ritmo mais para o final. Também parece desnecessária a divisão do filme em capítulos – volta e meia a imagem é congelada e aparece na tela uma inscrição (o nome de um personagem crucial, por exemplo) que dá à história novas diretrizes. Além de redundante, o artifício é destoante do clima do longa, que em sua essência é bastante convencional, e não um exercício arrojado à la Tarantino. Uma opção do roteiro que pode parecer desvantajosa é manter o personagem principal extremamente neutro. O público não se simpatiza nem se antipatiza por ele – o que pode significar o desligamento emocional de alguns. Resultado: um filme para apreciar com a mente, mas não com o coração.

.:. O Profeta (Un Prophète, 2009, dirigido por Jacques Audiard). Cotação: B+

Categorias:Cinema
  1. 20 junho 2010 às 5:12 pm

    Só tenho lido boas opiniões sobre “O Profeta”. Quero muito assistí-lo.

    • 20 junho 2010 às 11:56 pm

      Ka, imagino que você vá gostar muito do filme, mas que assim como eu, não conseguirá se envolver plenamente com ele.

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