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Toy Story 3, o filme mais aguardado do ano

Quem assistiu aos dois primeiros “Toy Story” sabe exatamente como funciona a vida de um brinquedo: eles tem de se manter inanimados na presença dos humanos, mas são capazes de andar, falar e raciocionar como qualquer pessoa sempre que as crianças deixam o quarto. Porém, a única coisa que pode fazer um brinquedo se sentir realizado é o carinho de quem brinca com ele. A afeição de um brinquedo pelo seu dono é tão ou mais forte que a do dono por ele. A principal diferença é que enquanto as crianças vão crescendo e os deixando para trás, eles continuam fieis, sentindo falta do contato, e esperando ser retirados do baú, armário ou porão em que foram guardados.

Em “Toy Story 3”, que se passa onze anos após o capítulo anterior (o tempo exato que separa a estreia dos dois filmes nos cinemas), Andy, o dono de Woody, Buzz e companhia, é um rapaz crescido prestes a ir para a faculdade. Já não brinca mais com nenhum dos bonecos com que era apegado na infância, mas também não consegue se desligar totalmente deles. Às vésperas de sair de casa, tem de decidir o que fazer: armazená-los numa caixa no sótão, doá-los para uma creche ou jogá-los no lixo. Opta pela primeira opção, com exceção de Woody, com quem tem um vínculo emocional maior, e que decide levar consigo para a faculdade. Só que por um engano, acabam todos indo parar na tal creche – um ambiente aparentemente idílico, onde um brinquedo nunca vai ser deixado de lado. Afinal, sempre haverá uma nova turma de crianças para lhes dar atenção. Não demora para que descubramos, no entanto, que o local tem um lado sombrio, tanto pela turma de crianças bem pequenas, que jogam os brinquedos para tudo que é lado, quanto pelos brinquedos que já se encontravam ali, que vivem sob a ditadura de um amargurado urso violeta (a dona lhe esquecera durante um piquenique, e quando ele conseguiu encontrá-la, os pais já tinham comprado outro urso, novo e idêntico, para substituí-lo). Os brinquedos terão de vencer todas essas adversidades para retornar ao Andy – a responsabilidade deles, diz Woody, será sempre com o dono, quer ele esteja lá para lhes dar carinho ou não.

O mais bacana é que o roteiro de Michael Arndt, premiado por “Pequena Miss Sunshine”, não cai no erro de transformar Andy numa espécie de vilão. O garoto não é indiferente ou desprovido de emoções, e custa pouco – uma expressão hesitante, que os animadores da Pixar sabem ilustrar como ninguém – para que o público perceba o quão dolorosa está sendo para ele a separação dos brinquedos. Essa separação seria o reconhecimento de que ele cresceu, e de que está deixando para trás uma das fases mais felizes da sua vida, para a qual jamais poderá retornar. Uma experiência agridoce pela qual todos nós passamos, e com a qual conseguiremos facilmente nos relacionar. Aliás, é sintomático que quem deve lotar as salas de cinema não são as crianças de hoje acompanhadas dos pais. Quem deve conferir em peso são os jovens adultos, que acompanharam o surgimento de “Toy Story” quando eram pequenos e que reencontrarão os personagens numa faixa etária bem próxima à do Andy. Ainda que os brinquedos não tenham se modificado em nada, Andy é um moço feito, e me pergunto quantos dos fãs da trilogia não estejam passando por situação parecida no presente momento.

Do mesmo modo que o filme é capaz de dar um nó na garganta e de arrancar lágrimas sem esforço e apelação, também consegue se firmar como uma comédia afiada, inteligente e bem executada. O humor é geralmente extraído de situações supostamente banais, que soam como formidáveis aventuras para bonecos de alguns poucos centímetros de altura. Seus hábitos e comportamentos, similares aos dos humanos, divertem pela maneira com que são contextualizados, assim como o desafio de passar despercebidos pelas pessoas ao redor, que dão margem a uma correria desenfreada. As melhores gags se concentram no casal Senhor e Senhora de Batata (ele tem os membros “amputados” da batata de plástico que lhe serve de base, e ela perde um olho que pode enxergar tudo à distância), em Buzz sendo reiniciado em espanhol, e no boneco metrossexual Ken, o par romântico da Barbie. Visto como aventura, o filme é tão criativo quanto. Abre com uma sequência claramente imaginária, em que Andy encena uma perseguição de trem com os brinquedos, e vai prosseguindo com situações que colocam os heróis em perigo real e concreto. De fato, à certo ponto a ação se torna tão aflitiva que tememos de verdade pelo destino dos personagens. E o roteiro investe sem medo na tensão, mostrando de perto a morte – ou o que significaria a morte para os brinquedos – como poucos filmes infantis fizeram.

Não é necessário reforçar a qualidade técnica da animação. Os gênios da Pixar realmente se superam a cada projeto, seja pelos traços impecáveis de cada personagem (notem como os brinquedos mais velhos e surrados parecem encardidos), seja pelo capricho com que ambientam a história. Aqui, a creche que serve de cenário para grande parte da trama pode se tornar convidativa ou ameaçadora, conforme os brinquedos a percebem. O efeito é conquistado pela fotografia, que passa de alegre e solar para lúgubre e tétrica, pelo excelente design de produção, e pela trilha cativante de Randy Newman (que peca somente na pouco memorável canção final). Mas ainda que seja um espetáculo visual, quase nada disso se deve ao 3D, cuja utilização é imperceptível, e que não compensa o preço inflado do ingresso (conferir numa exibição convencional teria o mesmo efeito). Não que, por ser exibido em terceira dimensão, o filme precisasse lançar objetos em direção à plateia para impressionar – mas a animação da concorrente DreamWorks “Como Treinar Seu Dragão” provou que é possível aproveitar essa tecnologia com funcionalidade, não apenas para conferir texturas mínimas às cenas, e sem tampouco apelar para truques.

Esta é a única crítica aberta que consigo fazer ao longa, embora outros pequenos tropeços possam ser apontados. Um deles é o fato da história, apesar de deixar a sensação de frescor e originalidade, repetir o esquema das fitas anteriores e a certo ponto se tornar uma crônica de fuga. No primeiro “Toy Story”, Woody e Buzz tentavam escapar da casa do macabro Sid quando paravam ali por acidente. No segundo, Woody planejava fugir do apartamento do colecionador de brinquedos que o roubara. E neste terceiro, muito tempo é destinado à fuga do grupo da creche regida como uma prisão. A aparente repetição só não incomoda porque convém ao que roteiro quer dizer sobre os personagens – e todos saíram modificados de cada uma dessas experiências (embora sintamos apenas o amadurecimento dos dois principais, Woody e Buzz, da boneca cowgirl Jessie, e claro, do dono Andy, já que os demais são meros alívios cômicos). Só que é difícil reclamar quando tudo é tão bem justificado. Há de se apontar também que este terceiro capítulo é bastante fluido, menos truncado e episódico que o anterior.

Foi uma ótima escolha, aliás, terem convocado para a direção o montador dos outros dois volumes, Lee Unkrich. Ele tinha co-dirigido o segundo “Toy Story”, “Monstros S.A.” e “Procurando Nemo”, e assume as rédeas sozinho pela primeira vez. Por ter estado envolvido com as partes anteriores, Unkrich conhece a série como a palma da mão, e sabe muito bem que decisões tomar para concluir a trilogia com sucesso. Tanto que, assistidos em conjunto, os três filmes originam certamente uma das trincas mais interessantes que já se viu no cinema. A simetria deste terceiro com os dois “Toy Story” que o antecederam é simpática e até importante para a narrativa. Notem como a cena inicial é uma recriação mais “realista” da cena inicial do primeiro filme (Andy brincando de mocinho e bandido com os bonecos), ou como frases antológicas no estilo de “O garra!” e “Salvou nossas vidas, somos eternamente gratos!” ecoam neste capítulo com ótimo resultado. A dublagem original é de Tom Hanks, Tim Allen e Joan Cusack, entre outros, mas a versão brasileira não fica devendo em competência, reservando-se o direito de fazer algumas adaptações (menciona até Osasco e Barretos)! Obviamente não é para perder.

P.S.: Antes das sessões dos filmes da Pixar costuma ser exibido um curta-metragem do estúdio. O desta vez, “Dia e Noite”, se aproveita de animação convencional e é bem agradável e bonitinho.

.:. Toy Story 3 (Idem, 2010, dirigido por Lee Unkrich). Cotação: A+

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Categorias:Cinema
  1. 19 junho 2010 às 1:58 am

    Louis, você falou tão bem, mas tão bem, que não tem como eu não ficar com vontade de ver. Amo os dois primeiros e revi o primeiro no cinema esse ano.

  2. 19 junho 2010 às 2:36 pm

    Tô bem ansioso pelo filme… não me incomodo de ver dublado, afinal em termos de dublagens de desenhos o Brasil tá muito bem servido.

    • 19 junho 2010 às 3:00 pm

      Mark, sim, tem muito que assistir! Já vi duas vezes e sem dúvidas verei por uma terceira. E assim como você, revi o primeiro (e o segundo!) no cinema este ano.

      Bruno, concordo. Vi tanto no áudio original quanto em português, e fica até mais engraçado no nosso idioma! 🙂

  3. 19 junho 2010 às 3:06 pm

    Eu fui ver Toy Story 3 mais por causa do Rotten Tomatoes, que dava 100% de resenhas positivas pro filme. Eu não gosto de TS1 nem 2: meu amor pela Pixar começou com Monstros S.A. e chegou ao ápice com Nemo e Wall-E (e Up!), apesar de rolarem algumas exceções (Carros e Os Incríveis).

    Pra mim, o filme começa com um conflito meio bobo: o Woody acha que um rapaz de 17 anos realmente ainda quer seus brinquedos de infância. Ele não quer mais! Ele pegou os brinquedos velhos e tacou num saco preto de lixo, e tá velho demais pra se importar com eles. Então, no carro e depois na creche, é bobagem querer voltar pro menino. O “conflito” não me convenceu.

    Aí a mágica acontece: a história se configura uma situação relativamente complicada, depois que o Woody se separa dos amigos e Sunnyside mostra seu lado de prisão – e, mais importante, depois que sabemos que o Andy está de fato procurando os brinquedos dele. Você simpatiza com os brinquedos e quer uma situação melhor pra eles, e o menino sente falta deles, então nada resta pra gente a não ser torcer que tudo dê certo.

    E as coisas não dão certo de repente! Os brinquedos sofrem todo tipo de provação, até chegar no clímax e a coisa mais terrível e impensável ficar diante de todos eles. Aliás, foi bom ver que eles usaram em TS3 o que a Pixar aprendeu durante todos esses anos, não apenas em termos de animação como em termos de narrativa, conferindo um tom mais sombrio ao filme, tom que realmente funciona.

    Então TS3 está de parabéns! Só a Pixar mesmo pra fazer a continuação da continuação e criar um filme que (ao contrário de Shrek 3, por exemplo) não precisa de uma ressalva “é bom mais porque é continuação, se fosse um filme avulso não teria tanta graça”. I ♥ TS3

  4. Manbaka Buzz
    19 junho 2010 às 5:23 pm

    Olha, acho engraçado porque, tem muita gente que não gosta dos TS anteriores… bom, talvez meu amor seja tão incondicional assim porque, quando nasci, Toy Story 1 tinha acabado de ser lançado… Amo muito os 2 primeiros e, ontem quando vi o 3, só tinha que amar ainda mais a série!

    Recomendo muito aos adolescente que viram nas suas infâncias as duas primeiras aventuras da turma, é um filme maravilhoso.
    Mas, acho que quem vai gostar mesmo vão ser os fãs, as pessoas que realmente idolatram Toy Story. É uma aventura para fechar a série, botar um ponto final bom e feliz.
    Concordo com o Felipe Ventura, que o terceiro também gastou muito tempo na fuga, e os outros Toy Story também tinha toda essa coisa de “fugir de algum lugar”. Mas, ainda assim, eu amei. Acredito que se eu nunca tivesse visto os outros 2 nunca teria gostado desse 3.

    Gostei muito da sua crítica e comentário, achei muito bons.

    • 20 junho 2010 às 2:54 am

      Felipe, não tinha ideia que você desgostava dos primeiros Toy Story! Amo todos os três (aliás, os dois primeiros tem 100% no Rotten, e esse terceiro caiu um pouquinho por causa de uma ou outra crítica negativa). Concordo com as suas observações em geral, com a diferença de que não achei o ponto de partida bobo. Dá pra entender porque é difícil pros brinquedos se desapegarem do dono e vice-versa!

      Manbaka, obrigado pela visita e comentário. Acho que TS 3 tem um alcance de público muito amplo, mas que será visto com mais desvelo e carinho por quem conheceu a série na época em que ela foi lançada 😉

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