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Você vai dar uma chance?

Como o título nacional indica, “Em Busca de Uma Nova Chance”, que estreia nesta Sexta-feira nos cinemas do país, é um melodrama com M maiúsculo. A começar por sua premissa básica e surrada: frente à morte do filho mais velho (Aaron Johnson) num acidente de carro, uma família será forçada a encarar o luto e a se reestruturar. Superar a perda parece impossível, e conviver com o vazio é um fardo doloroso demais para carregar. Fechados dentro de si mesmos, cada qual vai lidar com a situação à sua maneira.

A mãe (Susan Sarandon) cai em prantos assim que acorda pela manhã. Só o que poderia confortá-la era saber que o filho não sofreu em seus minutos finais – e como os paramédicos não podem lhe dar esta garantia, ela passa a fazer plantão no hospital, onde o homem que dirigia o outro veículo está internado em coma, na esperança de entender como as coisas aconteceram. O pai (Pierce Brosnan, também produtor executivo do longa) é mais contido, consciente de que a sua postura firme é o que dá segurança aos demais membros da família. Mas como não se permite sentir a dor, vai apenas armazenando o sofrimento, afastando o filho dos pensamentos e desconversando sempre que o nome do garoto é mencionado.

O filho caçula (Johnny Simmons) acaba previsivelmente negligenciado pela desorientação dos pais. Fica trancado em seu quarto na maior parte do tempo, tragando maconha e saindo apenas para a reunião de um grupo de apoio, ao qual se juntou por conta própria, mesmo não tendo confiança para se pronunciar sobre o que o levou lá. Para completar, a namorada do primogênito (Carey Mulligan), que saiu ilesa do mesmo acidente que o matou, aparece grávida na soleira da família. A notícia de que um neto está à caminho serve de conforto ao patriarca – mas a esposa não vê a moça com bons olhos, tampouco acha que uma nova vida compensará aquela que perdeu.

Todos os desdobramentos deste cenário se dão como era de se esperar – sem surpresas, com o ritmo delineado mais pelo intrusivo pianinho da trilha sonora do que pelo roteiro. Roteiro, aliás, que segue à risca a cartilha dos folhetins. Escrito pela diretora Shana Feste, o texto fermenta os conflitos que já conhecemos das novelas da Globo, e os apresenta sem alterar um único ingrediente na receita. O público consegue entender a dor dos personagens, mas em nenhum momento se torna cúmplice dela. É mais provável que acabe indiferente, achando cada reação seca e exageradamente calculada. Até mesmo as pequenas catarses, espalhadas em pontos estratégicos, podem ser previstas com antecedência, e dão margem à cenas de gritante cafonice (como quando Brosnan arrasta a esposa até o mar, momento que estampa o pôster). Feste ainda deixa evidente sua falta de familiaridade com as câmeras. Mesmo angariando atores de certa credibilidade, é uma cineasta imatura, e seu filme resulta pobre, mal enquadrado e mal estruturado (os flashbacks que complementam a relação do falecido com a garota são calamitosos, enfiados entre as cenas sem considerar a simetria da narrativa).

As atuações também são discutíveis. Sarandon facilmente se sobressai ao restante do elenco, mas não chega a ser um grande destaque por si só. Não é a primeira vez que ela interpreta uma mãe em luto – foi o que fez, por exemplo, em “No Vale das Sombras”, onde marcou muito mais com muito menos. Nesta ocasião, não atinge a mesma voltagem, embora tenha uma e outra oportunidade de mostrar serviço (caso da ótima cena que divide com o ator característico Michael Shannon, o homem que colidiu com seu filho). Brosnan é esforçado, assim como os dois rapazes que interpretam os filhos (um deles é o protagonista de “Kick-Ass – Quebrando Tudo”, outra estreia da semana no Brasil). A maior decepção talvez seja Carey Mulligan. Paralelamente à radiante performance em “Educação”, pela qual concorreu ao Oscar, ela pegou outro papel de adolescente (tem 25 anos na vida real), e dessa vez não conseguiu incrementá-lo. E ainda vacilou no sotaque, deixando a dicção britânica escapar sempre que a personagem (americana) tem de ser mais entusiástica.

Dizem que perder um filho é o ápice do sofrimento humano, e realmente deve ser. É difícil imaginar algo mais aterrador e desconcertante do que constatar que a pessoa mais importante das nossas vidas não existe mais. Por isso é tão frustrante que uma obra que dispõe da mais intensa das emoções soe tão banal, esquecível e desnecessária em seu balanço final. Apesar da história concluir o ciclo direitinho, com os personagens completando seus respectivos arcos, o espectador experiente não se dará por satisfeito.

.:. Em Busca de Uma Nova Chance (The Greatest, 2009, dirigido por Shana Feste). Cotação: C-

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Categorias:Cinema
  1. 17 junho 2010 às 11:45 pm

    Eu dou uma chance na boa para esse filme. Li ótimos elogios às atuações de Sarandon e Mulligan e a trama do longa muito me interessa. Acho que pode resultar num lindo filme. Beijo!

    • 18 junho 2010 às 1:46 am

      Ka, eu fui ver o filme indiferente, sem esperar gostar ou desgostar. E mesmo assim achei que ficou devendo bastante. Beijo!

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