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Ghost Writer

Dizem que nos julgamentos existem três versões para um mesmo caso: a da acusação, a da defesa, e a verdade. De acordo com “O Escritor Fantasma”, o novo trabalho de Roman Polanski, chegar a este terceiro quociente é algo que raramente acontece. Os escândalos mais variados estouram em nossa cara diariamente, mas por mais que a mídia vasculhe e especule, dificilmente viremos a compreender por completo as circunstâncias que levaram àquilo. Não é preciso dizer que o tema é muito próximo do diretor, visto que recentemente trouxeram à tona uma indiscrição de seu passado – o fato de, na década de 70, ele ter feito sexo com uma garota de treze anos, e de estar foragido da justiça americana desde então. Em Setembro do ano passado, Polanski foi detido por este mesmo crime na Suíça, que tem um acordo de extradição com os Estados Unidos, e atualmente se encontra em prisão domiciliar. Até onde foi noticiado, ele deverá retornar à América para responder o processo, mas todos os fatores cruciais para que o caso seja esclarecido se diluíram ao longo dos anos. À essa verdade, dificilmente chegaremos.

O protagonista de seu novo filme, interpretado por Ewan McGregor, se encontra numa situação similar. Como o título indica, ele é um “ghost writer”, ou seja, um profissional que escreve livros por uma determinada quantia, mas que não recebe os créditos pelo trabalho. Na trama, o personagem trabalharia redigindo as memórias do ex-primeiro ministro da Inglaterra (Pierce Brosnan), que fez um acordo milionário com a editora. O livro, por sua vez, é considerado um projeto de extrema prioridade, e está trancafiado a sete chaves para evitar que trechos importantes vazem antes da hora. Ao mesmo tempo em que Ewan aceita o trabalho, acusações de que este mesmo ministro teria colaborado com crimes de guerra começam a pipocar. Para completar, o escritor que tinha se incumbido da mesma tarefa anteriormente se suicidou em circunstâncias suspeitas. Como não é difícil de adivinhar, a vida de Ewan ficará mais e mais ameaçada, à medida em que ele se aprofunda na intimidade do primeiro ministro. Desdobra-se, a partir daí, um thriller inteligente e bem estruturado, realizado pelo diretor com a habitual competência (reparem como ele sempre parece imprimir algo de pessoal em seus projetos, ou mesmo fazer o filme certo na hora certa).

A conclusão não é especialmente genial, mas traz uma reviravolta de última hora que reforça a impotência do público em descobrir a verdade. Ainda que o ritmo não seja ágil, o filme não dá sinais de cansaço em suas mais de duas horas de metragem. Pelo contrário: é inquietante e incômodo, atmosfera que o fotógrafo – que torna os interiores tão nublados e lúgubres quanto o tempo lá fora – soube captar muito bem. Em cena durante todos os minutos, McGregor segura o papel com o talento que poucos parecem notar que ele possui. Infelizmente, dos outros três personagens de maior destaque, apenas a esposa do primeiro-ministro, vivida pela sempre confiável Olivia Williams, faz jus ao protagonista. A escalação de Pierce Brosnan para um tipo que deveria nos deixar intrigados é de um equívoco sem tamanho. Ele é um assumido canastrão e mais do que frequentemente descamba para os mesmos cacoetes. Kim Cattrall também faz muito pouco como a secretária e amante – sem contar que as plásticas excessivas a deixaram esticada e inexpressiva, algo que só cai bem à perua que interpreta em “Sex and the City”. O roteiro também deixa de desenvolver cenas em que o escritor seja visto na labuta – todo o seu trabalho como ghost writer se resume a sublinhar palavras, riscar parágrafos e soltar bufas de impaciência frente ao texto. Resumo da ópera: o ponto de vista do longa fica muito claro para o espectador. Apenas a execução, aqui e ali, dá seus tropeços.

.:. O Escritor Fantasma (The Ghost Writer, 2010, dirigido por Roman Polanski). Cotação: A-

Categorias:Cinema
  1. Lucy
    14 junho 2010 às 9:20 pm

    Como boa fã do Ewan, esse filme está no topo da minha lista – deve ser o próximo que eu vou assistir, logo depois de Runaways, que está me esperando aqui no PC…

    Posso fazer um comentário off topic? Tô olhando ali do lado no seu twitter sobre a apresentação da Lea no Tony e, sim, ficou bem off mesmo, totalmente diferente de todas as apresentações que ela fez da mesma música na Glee Tour… Pelo que eu li por aí, a banda não estava tocando da mesma forma que ela estava acostumada e ela não conseguiu acompanhar direito – só qdo chegou no palco que eles estavam mais ou menos no mesmo ritmo. Fiquei triste por ela, mas fiquei feliz q ela manteve a pose e, como sempre, arrasou nas notas finais…

    • 15 junho 2010 às 12:03 am

      Lucy, os fãs do Ewan não terão do que se queixar. Este é um bom momento dele como ator, com direito a uma breve cena de nudez (ele adora aparecer pelado nos filmes, já reparou??).

      Escrevi um texto sobre o Tony e o publicarei logo mais. Nele comento melhor sobre o fiasco da apresentação da Lea!

      • Lucy
        15 junho 2010 às 10:22 pm

        Sim, já reparei sobre como ele vira e mexe aparece sem roupa – já vi entrevistas dele falando sobre isso até. Ele muito não se importa e eu, claro, não reclamo. =-P

        Estou indo lá ler o texto – e provavelmente comentar, já que eu peguei mania agora. =-P

      • 16 junho 2010 às 2:12 am

        Nada como ser europeu, né Lucy? rsrsrs…

  2. 15 junho 2010 às 9:03 pm

    Olivia Wilde?

    • 15 junho 2010 às 10:01 pm

      Bem lembrado, Pedro! É Olivia Williams! Confundi o sobrenome com uma das atrizes de House!🙂 Devidamente corrigido.

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