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Sex and the City sem sexo e sem cidade

Em “Sex and the City 2”, as amigas Carrie, Charlotte, Miranda e Samantha usam uma expressão recorrente – the terrible twos. O termo designaria os péssimos dois anos de idade (fase em que a filha caçula de Charlotte não para de chorar) e a crise dos dois anos de compromisso (como Carrie e Big, que depois de tantas idas e vindas, se assentaram numa rotina qualquer de marido e mulher, para o enorme desespero dela). Mas é como se o roteiro entregasse essa mesma expressão para os detratores descerem a lenha no filme. “The terrible twos” seria um rótulo perfeito para as continuações mequetrefes, que surgem atreladas à boa bilheteria dos filmes originais e sem qualquer propósito além de converter a franquia em mais dinheiro para o estúdio.

Com a qualidade quem se importa? E olha que o filme nem precisaria fazer muito para superar o anterior, lançado em 2008, que só poderia ser encarado como mediano se visto com muita boa vontade por aqueles que já conheciam – e de preferência gostavam – da série da HBO. O programa em si nunca esteve entre os meus favoritos, mas tinha seus méritos. Por exemplo, retratar Nova York como a capital do mundo, e mais do que glamourizar a metrópole, transformá-la numa quinta personagem. As personagens em si não eram ricas ou matizadas, mas tinham intérpretes competentes e possuíam traços marcantes nas personalidades que acabaram por cativar os espectadores. Isso até foi reforçado no primeiro filme, mas ele acabou prejudicado pela falta de conflitos. Como não havia para onde levar a história, forçaram a separação de três casais, somente para reunir dois deles no final. O resultado foi uma narrativa truncada, episódica, que parecia não um filme auto-suficiente, e sim uma temporada irregular comprimida em duas horas e cacetada.

Neste aqui, a banalidade dos conflitos e o tom episódico se mantém. Com a diferença de que tudo está ainda mais exagerado e caricato. “Mais” parece ser a palavra de ordem desta sequência. Mais roupas extravagantes, mais cenários luxuosos, mais purpurina (o filme, aliás, começa com um tributo ao público gay, numa cena estereotipada, desmunhecada e quase ofensiva de casamento homossexual). Ah, também tem mais celebridades em pontas irrelevantes – dessa vez com Liza Minelli pagando mico numa personificação de Beyoncé, Miley Cyrus como ela mesma no tapete vermelho, e Penélope Cruz como executiva numa festa. Por vezes me pareceu um daqueles filmes da Xuxa ou do Didi, onde eles convidam uma penca artistas famosos pra dar um “oi” e transformam o cinema num programa de auditório vagabundo.

A trama é praticamente inexistente, com questões fúteis e inaceitáveis para quem tem um pingo de maturidade. Veja só que coisa: Carrie acha que o casamento está ficando estagnado porque, pobre coitada, o marido não quer sair todas as noites da semana! Prefere ficar em casa sossegado no sofá por pelo menos duas noites, e pedir comida à domicílio, porque Carrie, como uma mulher moderna, independente e sem cabrestos, obviamente não sabe cozinhar. Me diga se esse problema não faria qualquer mulher perder a cabeça? E quanto à Charlotte, que teme que o marido esteja de olho nos peitos da babá que se recusa a usar sutiã? Conflito sem solução, né? O fato é que já não se sente em nenhuma das personagens a força que exalava das mesmas nos melhores episódios da série. Em algumas cenas, temos vislumbres do que elas costumavam ser – como quando Miranda levanta a mão para calar o chefe chauvinista durante a reunião, ou quando Charlotte e Miranda discutem as dificuldades de criar os filhos pequenos. Mas esses momentos surgem isolados em meio à sucessão de esquetes de baixíssimo calão que compõe o longa (em que se inclui uma apresentação cafona no karaokê e piadas sobre a menopausa que não ficam devendo em classe para a cena da diarreia no filme anterior).

É inexplicável, também, que o segundo volume de “Sex and the City” tenha muito pouco de sexo e quase nenhuma cidade. Do primeiro, tem duas cenas, ambas protagonizadas por Samantha (claro). Do segundo, tem praticamente nada. As amigas passam a maior parte da projeção nos Emirados Árabes, convidadas ao Oriente Médio por um Sheik que pretende fazer negócios com a Samantha. E nos instantes que passam em Nova York, nada na cidade – da fotogenia à brilhante arquitetura – é realçado. O filme abre com os prédios reluzentes e o refrão de “Empire State of Mind”, da Alicia Keys, tocando ao fundo – mas a introdução é completamente destoante do restante da projeção. O único ponto positivo de terem despachado as quatro para o exterior foi possibilitarem a interação do grupo. E não faltam aqueles momentos “ai, amiga” que tanta gente gosta.

Devo confessar ainda que estou pegando birra de Sarah Jessica Parker, cada vez mais metida e ambiciosa. Faz questão de ter seu nome em destaque nos pôsteres e aparece sozinha em praticamente todo material de divulgação. Mas ela nunca teve o protagonismo. Na série de TV e nos dois filmes, Sarah divide a quantidade de tempo em cena com as outras três atrizes, e as situações criadas para as demais personagens são muito mais interessantes que as desenvolvidas para a sua Carrie Bradshaw (ou pelo menos costumavam ser na televisão, já que no cinema, num filme de duas horas e meia, a opacidade que um show semanal consegue disfarçar se torna bem perceptível). Não é segredo pra ninguém que Kim Catrall, por exemplo, nunca aturou a atitude “estrela” da outra. Para a sorte de Kim, o público prefere mesmo a personagem dela – Samantha sempre teve as melhores atitudes, piadas e reações. E o mesmo acontece aqui. Os poucos risos gostosos e prazerosos são graças à Sam. E os poucos momentos mais intimistas são devidos à Miranda e Charlotte. E Carrie, aonde fica? Sendo o elo mais fraco de um vergonhoso “terrible two”.

.:. Sex and the City 2 (Idem, 2010, dirigido por Michael Patrick King). Cotação: D-

Categorias:Cinema
  1. 2 junho 2010 às 5:50 pm

    Eu sempre preferi a Carrie. A Samantha as vezes exagera quando fala de sexo, em alguns momentos eu nem consigo me divertir exatamente por não ser piadas que surgem de vez em quando, mas sim a todo momento. Sobre o filme, o primeiro foi bem fraco, mas ainda sim consegui me divertir porque foi esperado pra mim ver cenas inéditas delas juntas novamente, esse segundo está me deixando cada vez mais desanimado pra ver, até porque não quero perder a imagem que tenho da série, que provavelmente está sendo banalizada por esses longas, principalmente por esse que parece ser difícil de assistir.

  2. 2 junho 2010 às 6:05 pm

    É bom ver que não fui o único que achou esse filme um desastre!

    • 2 junho 2010 às 8:39 pm

      Mark, você é total exceção à regra. Carrie é odiada por 9 em 10 fãs de Sex and the City! Quanto ao filme manchar a memória da série, isso pode acontecer mesmo. Aliás, a série se encerrou para o roteiro não ter que chegar ao nível dos deste filme.

      Matheus, não. A esmagadora maioria está metralhando o filme!

  3. 2 junho 2010 às 10:17 pm

    Miranda sempre foi a melhor personagem. E eu só engoli Carrie numa maratona (nem sei se terceira ou quarta), quando minha vida estava beeeem diferente de quando vi pela primeira vez, e me vi sendo imbecil que nem Carrie em tantos momentos.
    Mas sempre me senti mais Miranda.
    (sim, até hj me comparo com as personagens, porque SATC foi uma das minhas (tardias) séries favoritas).

    mas ainda assim, não tenho um pingo de vontade de ver o filme – mas sei que vou. como foi o primeiro. não queria, vi – brigada com o namorado no momento – e não me lembro se gostei ou não.
    lembro só que achei desnecessário; um episodião de duas horas que não precisava ser feito.
    esse, então, com essa coisa colorida no saara me deu um troço.

    e eu SEMPRE detestei Jessica Parker, desde footlose. não entendo até hj ela ser ícone da moda, aquela brega…

  4. 3 junho 2010 às 12:13 am

    Olha, eu também estou no time das pessoas que não achou esta sequência esse desastre todo. Eu diria até que gostei mais da continuação do que do primeiro filme, porque ele colocou o foco naquilo que eu mais gostava de ver na série: aventuras das quatro amigas, sem ter que vê-las enfrentando “problemas de adultos”. Beijo!

  5. Caroline®
    3 junho 2010 às 1:46 am

    Eu também prefiro Miranda e Samantha à Carrie. As atitudes dela davam muita raiva, ô mulher tonta!!! Amo a série, mas vou deixar pra ver o filme em DVD mesmo…

    • 4 junho 2010 às 2:15 am

      Quéroul, não sei se considero Miranda a melhor personagem (talvez seja a mais fácil de se identificar), mas acho que Cynthia Nixon é incontestavelmente a melhor atriz! Guarde o segundo filme pra ver sem compromisso, num momento em que estiver bem desapegada da série original. Daí não vai sentir como se estivessem manchando suas boas lembranças. E a Sarah é SUPER JECA mesmo! huahuahuahua…

      Ka, eu te entendo. Acho que os momentos “ai, amiga!” são legais, mas precisamos de mais. Afinal elas são adultas e precisam se portar como tal em algum momento. Beijo.

      Caroline, Carrie era mesmo uma tragédia. E não esquente se não puder ver no cinema, o filme tem escopo de episódio esticado e cairá melhor em DVD.

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