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Archive for junho \30\UTC 2010

Retrospectiva Crepúsculo

Ainda não tive a chance de conferir “Eclipse”, o novo capítulo da saga “Crepúsculo” que está estreando nos cinemas mundiais. Aliás, até prefiro deixar a poeira baixar e assistir quando as salas já estiverem vazias e as fãs histéricas que berram durante as sessões tiverem desencanado do filme. Só para não passar em branco, relembro os dois filmes anteriores, e deixo as minhas impressões sobre a franquia milionária criada por Stephenie Meyer.

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– Crepúsculo –

A minha brava tentativa de ler “Crepúsculo”, numa tarde sem muito o que fazer na Livraria Cultura, não persistiu além da página 30. Cheguei logo à conclusão de que vendagem não é sinônimo de qualidade, e confirmei a sensação de que a autora Stephenie escreve muito, mas muito mal mesmo.

O livro, narrado em primeira pessoa por uma adolescente bem chatinha, é um troço inexplicável. A menina é intragável e só faz reclamar – fica nessas primeiras páginas dizendo coisas do tipo “ai, eu não me dou com o meu pai”, “ai, que camionete horrível ele deve ter comprado pra mim”, “ai, que cidadezinha ridícula”, “ai, meu primeiro dia de aula vai ser uma merda”, “ai, o povo da minha escola me olha esquisito” e daí em diante. Não cheguei na parte em que a garota, Bella, conhece um vampiro emo e cai de quatro por ele, mas já tinha visto o filme homônimo e sabia o que me esperava. Tenho certeza de que se esse fosse o melhor romance teen dos meus tempos de moleque eu teria me emancipado.

O status quo do teen movie atual é sinistro. O grosso dos fãs de “Crepúsculo” é a mesma galerinha que decora as músicas de “High School Musical” e que canta junto da TV em cenas como aquela em que as castas sociais do colégio aceitam alegremente a forma com que os mais populares as percebem. Aliás, já que o high school se firmou como palco para as mesmas receitas requentadas (e não requintadas), é justo que “Crepúsculo – The Movie” tenha sua cota de cenas nesse ambiente (este é o absurdo número 1: a cidadezinha é escondida no meio das coníferas e tem um par de milhares de habitantes, mas a escola é mega povoada e agrupa todos as etnias do planeta).

E se você vier dizendo que não dá para esperar lógica de uma fantasia, vá ver o filme antes para saber do que eu estou falando. Você não sabe como dói uma mordida no pau até a sua prostituta resolver espirrar durante o emprego. E mediocridade não é mais opção, agora que Alan Ball está redefinindo o gênero vampiresco com “True Blood”, a série da HBO que, com um texto singular e anárquico, transforma o bizarro em banal, tudo dentro de limites aceitáveis como críveis. Os absurdos seguintes envolvem o insosso casal central (o vampiro Edward diz que os dois precisam se afastar para a segurança de Bella, mas é sempre ele quem vai procurá-la), e o vilão que só é introduzido no terço final e que inicia uma caçada à mocinha sem motivo aparente.

Difícil é entender como Catherine Hardwicke, que fez um debut tão promissor com “Aos Treze” (onde arrancou desempenhos formidáveis de seu elenco juvenil), acabou se envolvendo com um negócio tão ruim – e deixou passar atuações dolorosamente sofríveis. Robert Pattinson (Edward) é uma desgraça e Kristen Stewart (Bella) não é Evan Rachel Wood. Eles não conseguem recitar uma frase sem cair na canastrice, coitados. E meu amigo, como o roteiro é ruim! Eu poderia jurar que foi escrito num teclado com coraçõezinhos nos pingos dos “I”s. Não tem nem vergonha de assumir a postura machista, quando a menina se dispõe a ser mordida e a abrir mão de tudo para acompanhar seu homem por toda eternidade (mas antes isso do que ser uma caixa de bombons como “Sex and the City”, que de feminista e moderno só tem a pose e cuja moral é a mesma dos discursos mais retrógrados: nenhuma mulher é plena sem um homem ao lado). Encurtando a história, este é um romance água com açucar, sem conflitos dramáticos e ponderado por efeitos vergonhosos (como na sequência calamitosa de jogo de beisebol).

.:. Crepúsculo (Twilight, 2008, dirigido por Catherine Hardwicke). Cotação: D+

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– Lua Nova –

A Bela, de “A Bela e a Fera”, sempre foi a minha princesa favorita da Disney. Enquanto suas colegas de profissão ficam inertes durante filmes inteiros, Bela não deita e dorme à espera de um Príncipe Encantado que a resgate. Feminista, ela recusa as investidas do machão Gaston, o cara mais gato da aldeia, simplesmente porque não quer ser definida pelos homens com quem sai. Corajosa, ela se oferece para ficar presa no castelo da Fera no lugar do pai. E genuinamente apaixonada, ela se envolve com a Fera sem um pingo de interesse (porque não sabia que ele era um lindo Príncipe enfeitiçado, e estaria disposta a dar para um monstro peludo). Isso, meus amigos, é uma mocinha de respeito!

Pode-se dizer que a xará da saga “Crepúsculo”, Bella Swan, não possui nenhuma dessas virtudes. Como já tínhamos descoberto no primeiro volume, ela é uma mosca morta, passiva e submissa, disposta a renunciar à sua família, à seus amigos, e à si mesma para seguir o namoradinho – o vampiro embonecado Edward – por toda eternidade. Quando a coisa aperta, é Edward, ou o nativo americano fortinho Jacob, que tem de vir ao auxílio. Parafraseando Regina Duarte, “eu tenho medo”. Medo pelas milhões de garotas mundo afora, que devoram os livros da série e que acampam na porta do cinema para conferir esta nova adaptação. Garotas que se espelham na protagonista e que sonham em encontrar um dia o seu par ideal, para serem devotas a ele com a mesma intensidade. Que exemplo a senhora Stephenie Meyer está dando a elas? “Ame o seu macho mais do que a você mesma”? E o amor próprio, aonde fica? Dignidade já! Talvez por isso o papel tenha caído como uma luva à cada vez mais insossa Kristen Stewart.

No entanto, relevando a moral misógina, retrógrada e ofensiva, devo fazer coro ao restante da crítica. “Lua Nova” é sim um pouquinho melhor do que o antecessor. Mas só um pouquinho. Não que a nossa avaliação faça qualquer diferença – filmes como este são inatacáveis. Os fãs vão ver de qualquer jeito, independente do que as publicações tem a dizer, ou mesmo de quem está no comando (dessa vez a direção ficou à cargo de Chris Weitz, de “Um Grande Garoto” e “A Bússola de Ouro”). A quem desdenha do poder de fogo da franquia, basta dar uma olhada nos números de abertura. As sessões de “Lua Nova” à meia-noite quebraram os recordes estipulados por “O Cavaleiro das Trevas” e “Harry Potter e o Enigma do Príncipe”, a arrecadação no final de semana chegou na casa dos U$140 milhões só nos Estados Unidos, e o lançamento no Brasil foi o segundo maior da década (atrás apenas de “Homem Aranha 3″). Nada mal. Ainda mais considerando que o pioneiro “Crepúsculo”, que deu origem a toda essa febre, nada mais era que uma reles fitinha B, bancada pelo estúdio pobretão Summit (que graças à saga está subindo de nível, mais ou menos como a New Line depois de “O Senhor dos Anéis”).

Neste aqui o investimento foi evidentemente maior. Apesar da maquiagem continuar constrangedora, os efeitos estão mais caprichadinhos, a direção de arte é quase boa, e a trilha tem canções bacanas e composições originais de qualidade. E não dá pra dizer que eles não se esforçaram. Todo mundo ficou sabendo, por exemplo, dos problemas que tiveram para criar os lobos por computação – primeiro não estavam grandes ou assustadores o bastante, e mesmo depois de uma série de mudanças ainda ficaram artificiais no resultado final. Até aí tudo bem, que seja, foi o melhor que conseguiram fazer. Só não acredito que não tenha dado para melhorar o roteiro chinfrim e as atuações amadoras. Não que se pudesse esperar grandes coisas do texto, visto que já se baseia numa fonte muito fraca. Não imaginava, porém, que a roteirista Melissa Rosenberg fosse forçar tanto a barra para povoar os sonhos eróticos (“wet dreams”) das pré-adolescentes. Dessa forma, tudo é desculpa para que os dois heróis, Edward e Jacob (Robert Pattinson e Taylor Lautner), tirem a camisa. Aliás, deixe-me aproveitar para dizer que esse Pattinson é um frangote, magrelo e quase desnutrido. E para quem duvida que o moleque Taylor tenha tomado bola para ficar com o peitoral tão bem definido, é só prestar atenção nas piadas internas da equipe (logo numa das primeiras cenas, Bella comenta: “Que esteroides você andou tomando? Tem só 16 anos, isso não é normal!”).

Já que estamos falando das forçadas do roteiro, o que dizer do ridículo pretexto para que Bella e Edward terminem na Itália, enfrentando um clã antigo de vampiros? (Os motivos que levam a isso estão no trailer, de modo que, ao me aprofundar neste ponto, não estou quebrando nenhuma surpresa que já não tenha sido anulada pelo estúdio.) Edward julga que a amada está morta (porque ela, hã, pulou de um penhasco, já que não se importava em arriscar a própria vida, desde que tivesse um vislumbre do seu charmoso vampiro no processo); liga na casa dela para garantir que está tudo certo e um mal entendido confirma suas suspeitas (um paralelo pobre com “Romeu e Julieta”, citado no comecinho do filme). Mas, gente, em que mundo nós vivemos? A Bella tem que correr pra Itália pra desfazer a confusão? Será que o telefone dela não tem bina? Era só ligar de volta, oras. Ou se a chamada não pudesse ser identificada, bastava a vampira que vê o futuro descobrir o número. Ela não é sensitiva? Tá, eu sei, era pra ficar mais emocionante… Quanto ao show de horrores que testemunhamos na Itália, onde aparecem o – geralmente ótimo – Michael Sheen pagando o mico de sua carreira e uma Dakota Fanning torta e esquista, prefiro não comentar. O pessoal pode começar achar que estou com implicância gratuita!

O fato é que, apesar de banal e ordinário, “Lua Nova” agrada seu público-alvo. Uma audiência que está se lixando se a mensagem é discutível ou não, desde que a história deixe os ganchos certos. Em mim, as pontas soltas a serem resolvidas posteriormente não surtiram efeito. Nas piriguetes que estavam na mesma sessão que eu, que ovularam e aplaudiram nos segundos finais, sim. E ao que me consta, a reação tem sido a mesma nos cinemas de toda parte. Como lutar contra isso? Me diga?

.:. Lua Nova (The Twilight Saga: New Moon, 2009, dirigido por Chris Weitz). Cotação: C-

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– O final da saga –

Os fãs costumam dizer que “Eclipse”, a base deste filme que estreia agora nos cinemas, é o melhor livro da saga. Não saberia dizer, já que minha experiência enquanto leitor se resume às páginas iniciais do primeiro livro, e ao último volume, “Breaking Dawn”. Lançado no Brasil sob o título “Amanhecer”, o livro deveria concluir a saga dos vampiros embonecados, dos lobisomens sarados e da mocinha machista. Parece ainda que a autora está reescrevendo “Crepúsculo”, desta vez sob o ponto de vista do Edward. Que sono…

Enfim, acabei lendo “Breaking Dawn” durante três dias de muito ócio numa chácara e absolutamente nenhuma outra opção de leitura. Não é, de maneira alguma, um livro bom. Aliás reforçou minha impressão de que Stephenie Meyer é o Paulo Coelho dos Estados Unidos. Mas também não chegou a ser torturante como o início de “Crepúsculo”, que me dá pesadelos só de lembrar. Um dos pontos altos é que a narração é dividida entre Bella, que consegue ser ainda mais irritante nos livros, e Jacob Black, que é de longe o mais interessante do trio de protagonistas. Vou comentar a trama em detalhes deste ponto em diante. Das duas uma: ou você já leu o livro e sabe o desfecho, ou você odeia tudo que tenha a ver com “Crepúsculo” e não vai se importar de saber. Em todo caso, fica avisado de que vem spoilers por aí.

O moralismo prevalece, com Edward e Bella finalmente se casando, virgens e imaculados (ele com 109 anos, e ela com 18, o que deixa um gosto amargo de pedofilia que a autora ignora). Os dois teriam de se casar virgens porque Stephenie é mórmon e, obviamente, oposta ao sexo antes do casamento. O que explica porque ela foge do assunto como o diabo da cruz. Tanto que o relato da primeira vez dos dois (que estão passando a lua-de-mel no Brasil, onde a família Cullen, que é über rica, tem uma ilha!) é esparso. Os dois se aconchegam e, pula uma linha, já estão conversando no pós-sexo – aqueles diálogos açucarados que provocam revertério em qualquer pessoa com um mínimo de testosterona. São páginas e mais páginas de nada, de “Não devíamos ter feito isso” da parte dele, rebatidos com “Pare com isso, eu estou bem” da parte dela, e replicados com um “Não, eu te machuquei” da parte dele. E assim continua por um tempo incalculável. Tudo em nome da propaganda nojenta da senhora Meyer e seus ideais.

Dito isso, acho que a autora finalmente inseriu na série alguns elementos autênticos de vampiro. Afinal ela subvertera as convenções desta raça, tornando os vampiros tolerantes à luz do sol (que apenas os faria brilhar, como se tivessem a pele revestida por diamantes – ai!) e limando qualquer indício mais forte de violência. Dessa vez, percebemos que há algo de bizarro e, apesar de mal escrito, vagamente interessante. Por exemplo: Bella engravida de um bebê meio-humano, meio-vampiro, que eles cogitam que possa ser o anti-cristo (uma ideia por si só ousada para o que a série vinha apresentando). Fora que isso de bebê híbrido lembra muito o cruzamento de humanos com ET’s ou humanos com máquinas, coisas que a gente sempre encontra nesses seriados tão queridos de ficção científica. Enfim, a gravidez da Bella dura cerca de um mês, porque o feto vai se desenvolvendo em proporções anormais, e quando finalmente nasce, a menininha tem o tamanho de um bebê de dois meses! À beira da morte, pois o bebê sugou todas as suas energias durante a gestação, Bella é finalmente transformada em vampira.

Para as pré-adolescentes que estavam acostumadas com a melação dos volumes anteriores, estas opções podem parecer fortíssimas (mesmo que sejam brincadeira de criança perto do que “True Blood” faz em meio episódio). O fato é que não me simpatizo com a saga “Crepúsculo”, sequer acho que tenha extensão para se auto-denominar “saga”, visto que nada de muito relevante acontece. Mas devo reconhecer que, abandonando tudo o que já foi visto antes, “Breaking Dawn” pode originar um filme legal. Este “Eclipse”, que eu verei sabe-se lá quando, ao menos foi encarado pela crítica com mais boa vontade. Será possível que “Crepúsculo” tenha salvação?

.:. Amanhecer (Breaking Dawn, escrito por Stephenie Meyer). Cotação: C-

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Categorias:Cinema, Literatura

O aguardado trailer de Harry Potter

Houve uma época, dos meus 11 aos 14 anos de idade, em que eu vivia por “Harry Potter”. Lia e relia cada livro publicado, esperava com ansiedade pelos próximos volumes, comprava todo e qualquer produto afiliado à saga (meu caderno e minha mochila na sexta série eram do Harry), e devorava qualquer notícia a respeito das adaptações cinematográficas. Cheguei até a fazer um blog sobre o universo Potter, onde compilava tudo que encontrava em outros sites, junto de um amigo virtual que hoje nem sei por onde anda (Mau, se você estiver lendo isto, um abraço pra você!).

Sempre que um novo livro era lançado, eu comprava primeiro em inglês – quando ainda nem era fluente no idioma – e lia com muito sacrifício, porque esperar uns meses a mais pela tradução era inconcebível. E ao mesmo tempo em que queria terminar logo pra saber o que aconteceria com meus personagens tão queridos, também evitava ler rápido demais, porque sabia que ia me sentir meio vazio quando acabasse. Não ligo (e não ligo mesmo) para os leitores pretensiosos que atacam a série enquanto literatura. Sei que J.K. Rowling ainda era imatura quando começou a escrever, mas teve uma boa ideia e soube explorá-la como poucos. À medida em que a qualidade de sua escrita vai melhorando a partir do terceiro livro, a série também vai ficando mais consistente e menos infantil, como se os personagens estivessem crescendo junto dos leitores e continuando a cativá-los. De fato, Rowling é muito elogiada por pais e professores por ter fidelizado leitores tão jovens, numa fase em que só querem saber de computador e videogames.

O lançamento do sétimo e último volume, “Harry Potter e as Relíquias da Morte”, foi um dos maiores eventos da minha vida no ano de 2007. Claro que eu chorei horrores, não com o epílogo em si – que relata um encontro casual dos sobreviventes de um jeito bem novela da Globo -, e sim com as perdas inestimáveis que a batalha deixou. Acho que, como livro, “As Relíquias da Morte” foi o que mais me agradou. Não é tão bom quanto “O Prisioneiro de Azkaban” ou “O Cálice de Fogo”, mas é o que deixa mais evidente que  Rowling tem muito domínio sobre aquilo que faz. Percebemos que a trama estava orquestrada desde o primeiro livro, e é um prazer para os fãs ir amarrando essas pontas junto da escritora, reencontrando personagens antigos e descobrindo qual papel eles vão exercer no plano maior – o confronto entre Harry e o bruxo das trevas Lord Voldemort. Também é o livro em que a gente sente que tem mais coisas acontecendo. Ao contrário de “A Câmara Secreta” e “O Enigma do Príncipe”, onde a inação do herói chega a irritar, aqui o enredo é mais movimentado – literalmente, porque o trio de protagonistas está sempre se deslocando pelos quatro cantos da Inglaterra (é o primeiro livro a não ser ambientado na Escola Hogwarts).

Ou seja, tem tudo para render enquanto Cinema – até porque pouca coisa deve ser comprimida, já que optaram por dividir o livro em dois filmes diferentes. Não que alguém vá pensar que essa divisão foi feita em consideração aos fãs: a Warner quer prolongar ao máximo a franquia mais bem-sucedida que já passou por suas mãos. E não há dúvidas de que as duas partes vão arrecadar milhões, e quem sabe até chegar à marca do bilhão, ao redor do mundo. Se os dois primeiros filmes foram insatisfatórios, o terceiro, dirigido pelo Alfonso Cuarón, foi bem interessante, e o sexto, lançado no ano passado com direção de David Yates, chega a ser muito bom. Só o que tem em comum é que todos foram sucesso absoluto de bilheteria em seus respectivos anos. A razão deste post é o lançamento do trailer de “Harry Potter e as Relíquias da Morte”, divulgado ontem à noite. E aí está:

Alguém pensa em não assistir?

Categorias:Cinema, Literatura

Séries para o midseason #3: Freaks and Geeks

A próxima dica para passar o midseason bem acompanhado é “Freaks and Geeks”, uma série de reputação impecável que lançou ao mundo gente como Seth Rogen, Jason Segel, James Franco e Judd Apatow. O grupo se reúne até hoje nos cinemas, mas por mais bacanas que sejam essas parcerias, ainda ficam devendo para o seriado que deu início a tudo. Trata-se de uma comédia dramática ambientada nos anos 80, sobre uma adolescente, seu irmão, e o diferenciado grupo de amigos com quem eles se relacionam (os freaks e os geeks do título). Durou 18 episódios e já é um clássico instantâneo da televisão americana.

O grande diferencial da série era se comunicar de igual para igual com o público-alvo, os jovens impopulares que enfrentam o ostracismo no colégio. Também pode ser encarada como nostálgica pelos que cresceram na década de 80, ou aqueles que, como eu, gostariam de ter crescido. Apesar de formidável, o enredo de “Freaks and Geeks” reciclava alguns recursos básicos das séries teen – a formação de casais, as trocas de par, as pequenas contravenções. Só que, ao contrário de se acomodar nesses clichês, o roteiro extraía o melhor das situações, utilizando-as para explorar a fundo os personagens.

É surpreendente, aliás, que a série tenha sido feita com tanto carinho e otimismo, já que se volta para problemas sérios e atuais, sendo o bullying o mais recorrente. “Freaks and Geeks” é muito instrutivo para que entendamos, por exemplo, por que tragédias como aquela em Columbine – onde dois alunos do ensino médio metralharam onze colegas e um professor antes de cometerem suicídio – são tão habituais nos Estados Unidos. Numa comunidade tão superficial, obcecada pelo sucesso pessoal e profissional, qualquer indivíduo que não se encaixe no padrão físico ou intelectual acaba sendo desacreditado.

Lindsay, a protagonista interpretada por Linda Cardellini, é taxada de aberração por vestir sempre o mesmo casaco do Exército e por andar com o bando de desgarrados que fuma debaixo das arquibancadas da escola. Seu irmão caçula (John Francis Daley) é um nerd magricela e sem atrativos, para quem as aulas de Educação Física com meninos mais fortes e atléticos são um verdadeiro suplício. O que “Freaks and Geeks” tenta mostrar, no entanto, é como o sofrimento que parece inacabável na nossa adolescência pode ser muito mais tolerável quando temos com quem dividí-lo – mesmo que com outras pessoas na mesma posição. Mostra, também, que o colégio é apenas uma das muitas fases da nossa vida. Temos que aproveitar ao máximo enquanto dura, saber que um dia tudo aquilo ficará para trás, e que as lembranças – boas e ruins – não voltarão mais.

Fica então recomendado “Freaks and Geeks”, uma série teen espetacular e um dos programas mais incisivos que você verá sobre o valor da amizade. Corra atrás!

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Séries para o midseason #2: Buffy A Caça-Vampiros

Dando continuidade aos posts sobre as séries que recomendo para o midseason, falo sobre a minha favorita absoluta, “Buffy, A Caça-Vampiros”. Para muitos uma série teen, “Buffy” era, na verdade, muito mais do que isso. Era uma homenagem honesta a gêneros subestimados e incompreendidos – que vão das fitas de terror B às comédias de colegial -, amparada por um roteiro esperto, por um elenco talentoso e pelos moldes de série de exportação, que condensava nos episódios todos os artifícios sensacionalistas que a TV possibilita.

Criação de Joss Whedon, um dos nomes mais requisitados da indústria do entretenimento, “Buffy” costumava usar monstros lendários como metáfora para a angústia juvenil. Mas por mais que essa carta fosse utilizada, o resultado jamais soava pretensioso, chato ou repetitivo. Ainda que a cada temporada nós acompanhássemos o fortalecimento de uma força maligna (que a protagonista e seus amigos refreariam no desfecho), não nos desligávamos ou bocejávamos por já ter visto aquilo antes. Pelo contrário: ficávamos com o coração na mão como se fosse um caso totalmente inédito.

“Buffy” era, em resumo, uma série sobre adolescentes desajustados tentando encontrar o seu lugar no mundo, e eventualmente salvando-o da destruição. Precisa ser vista, no entanto, de coração aberto, para captar o valor artístico e não sair botando defeitos em elementos que, na verdade, funcionam como um charme adicional (como a precariedade dos efeitos). Foi baseada num filme homônimo de 1992, escrito pelo próprio Whedon. O longa em questão serve como prólogo para a série, embora Joss nunca tenha ficado satisfeito com o resultado, já que muito de seu texto foi modificado para se aproximar do público médio. No entanto, quando o extinto canal WB (que hoje é o CW) comprou a ideia para uma série de TV, ele teve total liberdade criativa para contar essa história como bem entendesse.

Segue um resumo individual das sete temporadas do programa:

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– Primeira Temporada –

Estreou em 97 sem muito a seu favor e acabou se tornando um cult instantâneo. Ainda assim, os doze episódios do primeiro ano são alguns dos mais fracos do repertório (há um consenso entre os fãs de que Whedon só firmou o ritmo a partir da segunda temporada). A estrela, Sarah Michelle Gellar, testou originalmente para a personagem Cordelia e acabou conquistando o papel-título. Outras atrizes que testaram para Buffy acabaram sendo reaproveitadas no elenco (como Charisma Carpenter, que acabou sendo Cordelia, e Mercedes McNab, que seria a vampira Harmony). Também foi o primeiro papel de destaque de David Boreanaz, como o bem intencionado vampiro Angel – no entanto ele não seria creditado como regular até a temporada seguinte. Já o personagem de Eric Balfour, que morre no Piloto, era planejado para ser um dos membros da gangue do Scooby (como os amigos que auxiliam Buffy se autodenominam), mas foi descartado pelos roteiristas.

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– Segunda Temporada –

A série começa a ganhar fôlego, com a paixão entre Angel e Buffy se intensificando e a presença de vilões muito mais fortes. O que melhor define esta temporada é a introdução do casal de vampiros Spike (James Marsters) e Drusilla (Juliet Landau, filha de Martin Landau), que além de aterrorizar a cidade de Sunnydale, também protagoniza grandes momentos de comédia. Xander e Cordelia formam par romântico e Willow, a melhor amiga de Buffy, se apaixona por um lobisomem (Seth Green, que seria fixo no elenco da temporada seguinte). O grande conflito envolve Angel perdendo sua alma e se tornando uma ameaça para Buffy, os amigos e o restante do mundo. Para muitos a melhor temporada de “Buffy”, está disponível em DVD no Brasil, em box individual ou conjunto com os episódios do ano anterior.

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– Terceira Temporada –

A saída de Spike, que só retorna na próxima temporada, é sentida pelo público. Também foi prejudicial a ausência de Angel, que foi mandado ao inferno e passa uma leva de episódios aparecendo apenas nos sonhos de Buffy. No final desta temporada, o personagem deixa Sunnydale para originar um spin-off, do qual fazem parte Cordelia, Wesley, Drusilla, Darla e outros tantos personagens de “Buffy”. Ainda assim, este terceiro ano é memorável por muitos motivos. Primeiro pela presença de Faith (Eliza Dushku), uma outra Caça-Vampiros que acaba se aliando ao Mal. Depois pelos problemas de Buffy com o Conselho, que envia um novo Sentinela para ficar responsável por ela. E finalmente pelo belo episódio de formatura, no qual a protagonista é homenageada pelos colegas de sala, a quem protegeu nos anos que se passaram.

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– Quarta Temporada –

A primeira temporada de “Buffy” a não ser ambientada no colégio. Os personagens cresceram e cada qual seguiu seu caminho. O guardião Giles foi despedido pelo Conselho. Willow foi para a faculdade e tem um romance lésbico. Xander faz trabalhos temporários, se dá mal com os pais e namora Anyanka, um ex-demônio que não está acostumada com as regras do mundo humano. E Buffy descobre uma organização do governo especializada no mesmo serviço que ela: a caça de seres das trevas. A entrada de Spike como personagem fixo é um dos pontos altos. O que melhor representa este quarto ano, porém, é o episódio “Hush”, apontado por muitos como o melhor de toda a série. Para rebater as críticas de que se apoiava demais em diálogos sarcásticos e cheios de referência à cultura pop, Whedon escreveu e dirigiu um episódio quase inteiramente mudo – e nada menos que fantástico.

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– Quinta Temporada –

Minha favorita pessoal. Começa de maneira ousada, apresentando uma irmã caçula de Buffy que todos parecem acreditar ser real, embora os espectadores das temporadas anteriores saibam que a personagem não existia. A vilã é a melhor já criada para a série: uma semi-deusa banida de sua dimensão, que tem de dividir o corpo com um enfermeiro humano! Ela pretende abrir um portal que trará dimensões demoníacas para a Terra – um desafio que parece estar acima da capacidade de nossa heroína. O final da temporada marca o centésimo episódio da série, e conclui de maneira inacreditável. Mais memorável ainda é o capítulo “The Body”, onde a morte inesperada de uma personagem relevante rende momentos dramáticos intensos. Um episódio seco, sóbrio e realista (sequer tem trilha sonora – as músicas sempre vem de algum lugar, como o rádio), escrito e dirigido pelo mestre Joss.

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– Sexta Temporada –

Whedon se afastou da posição de show-runner, e outro roteirista passou a ditar os rumos da série. Isso e a mudança de canal – a série foi transferida do WB para o UPN – podem justificar algumas inconstâncias dessa sexta temporada, que começa mal (a forma que eles encontram de trazer Buffy de volta à vida não é nem um pouco criativa) e tropeça por todo o caminho (o erro mais evidente talvez seja uma mal-sucedida cerimônia de casamento). Anthony Head, que interpretava Giles, pediu para se afastar da série e passou a fazer apenas participações ocasionais. Já o trio de vilões – nerds de Sunnydale com a ambição de dominar o mundo – acaba surpreendendo. Por si só eles não representam uma ameaça, mas são o estopim da coerente revolta de Willow, que se torna adepta da magia negra. O episódio mais memorável é “Once More With Feeling”, encenado como um grande musical da Broadway.

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– Sétima Temporada –

A menos satisfatória de todas as temporadas do programa. Há muitas especulações sobre o que levou a série ao fim, e a mais popular é a de que Sarah Michelle Gellar não topou renovar o contrato (a equipe em si tinha interesse em prosseguir, tanto que deram continuidade à saga de Buffy numa série de HQ’s). Outros culpam a emissora pelo término. Seja como for, talvez estivesse mesmo na hora de dar adeus. Este sétimo ano passou por perrengues evidentes – como a trama das caçadoras em potencial e a introdução de uma renca de meninas irritantes – e nos deu a certeza de que não tinham mais para onde levar a trama. Mas ainda teve bastante a seu favor, como o episódio concentrado em conversas dos personagens com espíritos e demônios, a aproximação de Buffy e Spike, o retorno de muita gente importante, e um episódio final redondinho e emotivo. Chegar ao final da batalha com Buffy e a gangue do Scooby é uma sensação incomparável!

Aproveitem “Buffy”! Enquanto isso, vou me esforçar para ficar em dia com o spin-off “Angel”.

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Séries para o midseason #1: Six Feet Under

Os posts sobre cinema tem abarrotado o blog nos últimos dias, e a tendência é continuar assim durante o midseason, quando a grande maioria das séries de TV entra em recesso. De fato, “True Blood” é a única das que eu acompanho que está com episódios inéditos, sendo que é exibida apenas nas noites de Domingo. Costumo aproveitar a agenda vazia para ficar em dia com aquelas séries que sempre quis assistir, mas que nunca tive oportunidade. Optei por ver, com atenção e seriedade, “Dead Like Me” e “The Wire”, que já admirava pelos episódios avulsos que peguei (a primeira durou duas temporadas curtas, e a segunda cinco). Se você pretende fazer o mesmo nesse período de ócio, vou recomendar algumas séries que já conheço e aprovo, num conjunto de posts que inicio a partir de agora.

A primeira sugestão é “Six Feet Under”, do mesmo criador de “True Blood”, Alan Ball. Ele tinha acabado de vencer o Oscar pelo roteiro de “Beleza Americana” quando desenvolveu para a HBO este programa com os mesmos elementos que tornaram o filme um sucesso. Ou seja, drama intenso, humor negro e doses moderadas de fantasia (no caso com a figura do patriarca, que morre no primeiro episódio e continua aparecendo em alucinações). A família Fisher cuida de uma casa funerária na Califórnia, preparando os defuntos – muitas vezes reconstruindo suas feições, quando a morte é causada por acidentes graves – e confortando os familiares em luto. Um trabalho pra lá de delicado, especialmente nos Estados Unidos, onde os velórios costumam acontecer dias após o falecimento, dando aos amigos e parentes um senso de conclusão.

Os personagens eram um primor, assim como os atores que os interpretavam. O protagonista (Peter Krause), que andara afastado do clã, retorna ao lar após a morte do pai para assumir os negócios junto do irmão (Michael C. Hall), um gay enrustido que esconde seu romance com um policial (Matthew St Patrick). A caçula (Lauren Ambrose) é uma adolescente típica: incompreendida e insegura, tem problemas em se sociabilizar e usa drogas ocasionalmente. A matriarca (Frances Conroy) é obsessiva, controladora e sufocante, mas aproveita a viuvez para se libertar destes defeitos e se tornar mais senhora de si. Completam este leque o funcionário latino que os assessora na organização dos funerais (Freddy Rodriguez) e uma mulher complicada que se envolve com o personagem principal (Rachel Griffiths).

Todas essas tramas são exploradas por completo, e bem interligadas numa narrativa balanceada, capaz de sumarizar questões profundas – a mortalidade, obviamente, é uma fonte constante de discussões – sem aborrecer ou irritar. Na verdade, o cotidiano daquelas pessoas é tão carregado de emoções que diálogos inesquecíveis, daqueles que precisamos pausar para anotar e guardar para o resto da vida, são disparados em conversas banais no café da manhã. A série foi ao ar de 2002 a 2005 e totalizou 63 episódios em cinco temporadas, todas as quais disponíveis em DVD no Brasil. Teve nesse tempo participações ilustres de Patricia Clarkson (duas vezes premiada com o Emmy de Atriz Convidada), Kathy Bates, James Cromwell, Catherine O’Hara e Ben Foster, dentre outros. As temporadas intermediárias cumpriram sua cota de tropeços, mas o começo e, em especial, o fim são alguns dos momentos mais sublimes que você verá na TV. “Six Feet Under” fica sendo a dica número 1 para passar o midseason bem acompanhado.

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Essa Rainha é um luxo!

Há um padrão que pode ser percebido entre os últimos vencedores do Oscar de Melhor Figurino. As estatuetas foram para filmes de época, centrados na nobreza europeia, e mais especificamente, numa figura feminina que substancia os costumes e as firulas da vida na Corte. É o caso de “Maria Antonieta”, onde Kirsten Dunst encontrava humanidade numa personagem frívola, que precisava de uma comitiva para lhe botar o espartilho; é o caso também de “Elizabeth – A Era de Ouro”, no qual Cate Blanchett fazia uma Rainha séria e marcial que trajava vestidos tão estufados quanto sua personalidade; e é o caso ainda de “A Duquesa”, em que Keira Knightley se rebelava contra o cotidiano regrado através das combinações ousadas de suas roupas. O exemplar mais recente a se juntar ao grupo é “A Jovem Rainha Vitória”, protagonizado por Emily Blunt com a mesma consistência com que Kirsten, Cate e Keira deram vida às suas soberanas. Premiado com o Oscar da categoria em Março deste ano, o filme estreia agora nos cinemas do Brasil sem muita badalação.

Segundo os leitreiros finais, Vitória foi a monarca mais duradoura da Inglaterra, tendo assumido o trono com 18 anos incompletos, e reinado até sua morte aos 81. O mesmo letreiro indica que ela, junto do marido Príncipe Albert, estimulou a cultura e promoveu melhorias na educação e na condição de vida da classe trabalhadora. Ou seja, o mais relevante de seu governo foi relegado a uma nota de rodapé no desfecho do filme. Tudo o que vem antes disso são os seus anos iniciais, desde quando era criada pelo amante interesseiro de sua mãe (Miranda Richardson). O padrasto (Mark Strong) pretendia reinar a Inglaterra por meio de uma liminar, revogando os privilégios de Vitória em função da pouca idade. Após a morte do seu tio, o Rei (Jim Broadbent), Vitória não dá espaço para que sua autoridade seja contestada. É coroada ainda bastante ingênua e despreparada, e comete erros típicos de principante – como confiar cegamente no primeiro-ministro (Paul Bettany), que pode muito bem está-la usando a seu favor – antes de encontrar sua zona de conforto. O marido, Albert (Rupert Friend), lhe é apresentado com as conveniências típicas do período (o casamento teria vantagens políticas, mais para ele que para ela).

O longa acerta em não romantizar a relação dos dois. Ainda que Albert pareça se importar genuinamente com Vitória, nenhum deles se apaixona à primeira vista, e até o momento em que se casam, tiveram pouco mais que dois encontros comportados e supervisionados. Depois de casados é que encontram a felicidade, com os habituais porvires de qualquer relacionamento. Tampouco a protagonista é mostrada como uma mártir. Vitória é mimada e prepotente, ensinada a acreditar que foi escolhida por Deus para liderar o povo da Inglaterra – mas insiste em subir ao trono mesmo sem estar apta para tal tarefa (não tem qualquer senso administrativo, já que sua instrução se resumiu a ler livros, frequentar bailes e ir à ópera). Na verdade, sua única motivação para se tornar Rainha era se libertar do ambiente opressor em que fora mantida pela mãe nos primeiros dezessete anos de sua vida. Não é, portanto, alguém que desperte a empatia do espectador, que no máximo há de se contentar com a produção bem cuidada de uma novela. A Jovem Vitória descobrindo o amor nós ficamos conhecendo. A Rainha Vitória, nem tanto. Destaque para a maquiagem, que rejuvenesce Blunt até a aparência de uma meninota, e para a esplêndida cenografia. E o figurino, de fato, é um arraso.

.:. A Jovem Rainha Vitória (The Young Victoria, 2009, dirigido por Jean Marc-Vallée). Cotação: B+

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Enfim, Robin Hood

Ridley Scott é um dos poucos diretores que ainda insiste em trabalhar com Russell Crowe, um ator de temperamento explosivo e difícil de lidar. Depois de “Gladiador”, os dois fizeram juntos outros quatro filmes, sendo este “Robin Hood”, em cartaz há alguns meses nos nossos cinemas, a parceria mais recente. Tendo sido tão exposto na mídia como um sujeito antipático, anti-profissional e grosseiro, fica difícil para o público encarar Russell com bons olhos, ou enxergá-lo plenamente como o personagem e nem por um segundo imaginar se ele teria retalhado alguém no set de filmagens naquele dia. Sem mencionar que, para o papel-título, Russell está velho demais – um ator na faixa dos 25 anos estaria mais de acordo com a expectativa de vida na Inglaterra do século XII.

Ainda mais se considerarmos que a trama é, na verdade, um “prequel”. Leva quase duas horas e meia para mostrar como Robin Hood se tornou um justiceiro fora de lei, que numa época de pobreza e tirania cometia furtos contra a Coroa e distribuía os ganhos entre os menos favorecidos. Tudo isso o filme deixa para a imaginação do espectador, através dos letreiros que puxam os créditos finais. O que acontece antes é um extenso prólogo sobre o passado de Robin nas Cruzadas, e sobre como, ao voltar da guerra, fez-se passar por um homem assassinado nos campos de batalha. A família deste homem, mesmo detendo um título de nobreza, se encontra à falência na paupérrima região rural de Londres, e estimula a farsa para que Robin possa cuidar dos negócios após a morte do patriarca (o veterano Max Von Sydow). A esposa que ele acaba ganhando por tabela é interpretada por Cate Blanchett – mas a personagem não é passiva, como era de se esperar, e sim uma quase heroína, cheia de garra e atitude. Entrementes, o trono inglês fica ameaçado depois da morte do Rei Ricardo, quando seu irmão herda a coroa e contrata como conselheiro um salafrário que está mancomunado com os franceses (o vilão é interpretado por Mark Strong, que está se especializando na figura de antagonista).

Se Russell não favorece em nada o projeto, o restante do elenco ao menos não compromete. Além de Blanchett e Von Sydow, há boas participações de William Hurt, como o conselheiro de boa índole, e Eilleen Atkins, como a Rainha. O roteiro nunca tenta se levar a sério, e deixa atestado desde que o princípio que o um filme não terá a pompa de um “Gladiador”. Pelo contrário: é para ser encarado como entretenimento fácil e corriqueiro. Inclusive as piadas são bem modernas para o período em que a história se passa, e as cenas de batalha, filmadas com o truque de edição acelerada, tem caráter pop. Não é, portanto, a aventura aborrecida que pode parecer (razão de eu ter evitado assistir ao filme até última instância), apesar de também não provocar maiores reações. Destaque para a extraordinária reconstituição de época – dos figurinos sujos e encardidos às casas dos camponeses, rústicas e sem requintes. Não tenho na lembrança grandes filmes sobre Robin Hood, mas imagino que este exemplar não seja o pior que iremos encontrar.

.:. Robin Hood (Idem, 2010, dirigido por Ridley Scott). Cotação: B-

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