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Lost, o final

* O texto a seguir tenta se esquivar de SPOILERS, mas pode ser expositivo para um bom entendedor *

Terminou ontem nos Estados Unidos a série que se manteve pelos últimos seis anos como a mais cultuada do planeta. Refiro-me, é claro, à “Lost”, uma mistura de ficção científica com drama de personagem que deu uma nova definição à obsessão que os fãs podem nutrir por um programa de TV. No Brasil, “Lost” estimulou e popularizou os downloads de episódios, tornou-se o grande trunfo do canal pago AXN (que, aliás, transmite o capítulo final nesta Terça, apenas dois dias após a exibição original), e ganhou mais seguidores do que qualquer outro seriado em território nacional após ter sido comprado pela Rede Globo. O efeito foi similar em toda parte: é comum encontrar “Lost” liderando a lista das séries mais assistidas do mundo, ainda que sua audiência na ABC, emissora em que vai ao ar, não seja um estouro. O canal, porém, lucra muito com a venda para os outros países, além de DVD’s e produtos derivados. Sem mencionar que o episódio final, composto por duas partes, foi um dos grandes eventos do ano na televisão americana – e os anunciantes tiveram de desembolsar uma quantia farta por um espaço nos blocos comerciais.

Quando teve início nos remotos 2004, “Lost” passava por uma aventura divertida sobre os sobreviventes de um desastre de avião. Isolados numa ilha deserta, um grupo de personagens sem muito em comum iria se conhecendo melhor, e descobrindo aos poucos que as conexões entre eles datavam de muito antes do acidente. Enquanto seguia uma fórmula fixa – o foco em um personagem por vez, com flashs do passado que explicavam como ele chegou ali e se tornou a pessoa que é –, o roteiro desenvolvia um suspense consistente envolvendo a própria ilha em que os protagonistas se encontravam. Um lugar idílico, sem dúvidas, mas repleto de mistérios. Em pouco tempo, “Lost” foi ganhando ares de mitologia, virando mote de paródias e imitações e se tornando assunto obrigatório de conversa. Firmou-se também como uma série de notável padrão de qualidade, com elenco carismático e bem entrosado, autênticas locações havaianas e excelente trilha musical. O nome de J.J. Abrams – criador de “Felicity” e “Alias” – à frente dos créditos também colaborou para o prestígio. E depois que Abrams resolveu dar prioridade ao cinema (foi o diretor de “Missão Impossível 3” e “Star Trek”), os roteiristas Damon Lindelof e Carlton Cuse passaram a ditar os rumos da trama.

A sexta temporada estreou subvertendo a estrutura narrativa. Dessa vez, a realidade na ilha não seria alternada com saltos no tempo para o futuro ou o passado, e sim com uma realidade paralela, na qual a queda do avião nunca aconteceu e os personagens seguiram seus caminhos normalmente. Mas esses caminhos estão levemente alterados, já que representam a vida de cada um sem a influência de Jacob, o guardião da ilha apresentado no final da quinta temporada. As decisões diferentes transformaram cada um deles em pessoas diferentes – mas as conexões não param de surgir, com um esbarrando no outro e descobrindo, por meios distintos, a afinidade e a familiaridade de que não se recordam. Os fãs que persistiram até então (muitos espectadores foram se irritando ao longo dos anos com o acúmulo de perguntas não-respondidas) tiveram que dispor de um pouco mais de paciência. Não só porque os mistérios pareciam longe de uma solução, mas também porque esse novo esquema narrativo não dizia a que veio. De fato, só nesse último episódio a realidade paralela ganhou um propósito, explicado de maneira convincente e comovente.

Tomando a trajetória dos personagens como referência, pode-se dizer que “Lost” foi encerrado com glórias. No último episódio, todos os personagens originais tiveram um momento só seu, quando cenas das temporadas passadas ecoaram com admirável simetria nos acontecimentos da realidade paralela. Já os fãs que dão prioridade aos mistérios podem se frustrar com o desfecho. O essencial foi explicado, mesmo que de uma maneira não muito satisfatória. Foi o caso do episódio dedicado ao Jacob e a seu antagonista – o capítulo em questão foi vilipendiado por boa parte do público, que não aceitava que a série apelasse para a fantasia ao responder suas perguntas mais elementares. Contudo, dentro da realidade de linguagem da série, as soluções são aceitáveis. Fica óbvio também que os roteiristas sempre imaginaram esse escopo alegórico como a base de tudo o que acontece em “Lost”. O problema é que as pontas que ficaram soltas, apesar de não importarem muito no quadro geral, escancaram que muitas das brechas de “Lost” – que, diga-se de passagem, deixaram muitos fanáticos quebrando a cabeça e formulando teorias – foram inseridas sem um propósito. Estavam ali só para gerar mais história enquanto os roteiristas não sabiam muito bem para onde conduzi-la.

Ou seja, a recepção do final de “Lost” vai depender muito de como cada espectador sempre encarou a série. Se você está mais interessado em respostas fartas e sensatas para os mistérios que se estenderam por esses seis anos, certamente vai ficar a ver navios. Mas se, acima de tudo, você se importa com o destino dos personagens, com como as escolhas e as ações de cada um afeta os demais, e com as mudanças profundas que eles sofreram desde que os conhecemos até esse ponto, então há de abandonar o criticismo e se emocionar. Ou quem sabe ainda, depois de deixar o final assentar, pegar todas as temporadas em DVD e rever numa maratona particular, captando os detalhes que deixou passar ou de que se esqueceu. Com personagens tão ricos e matizados, estará em boa companhia.

Categorias:TV
  1. markhewes
    24 maio 2010 às 3:40 pm

    Eu sempre achei Lost uma série muito boa, até mesmo na temporada em que me via com preguiça de assistr, a terceira. Abandonei mesmo pelo fato de que estava cansado de tantas perguntas sem respostas, mas nunca cheguei achar a série ruim, apenas ficava com medo de perder tempo vendo uma série que talvez nem os criadores soubessem para onde estava levando. Vou acompanhar o capitulo final, assim como acompanhei o da quarta temporada. Mas um dia, em DVD eu gostaria de ver as 3 temporadas que perdi.

    • 24 maio 2010 às 5:12 pm

      Mark, as três primeiras temporadas de Lost foram as melhores da série, mas teve muita coisa válida mais adiante. Eu sempre encarei Lost como uma série de momentos, que valeu mais pela viagem em si do que pelo destino, numa definição bem cafona. Corra atrás, mas só depois de botar Buffy em dia!😉

  2. 24 maio 2010 às 8:22 pm

    meu saldo final ao ver os episódios: uma enxaqueca da porra.

    chorei desde os créditos até após o final (acabando o episódio, quando a equipe que pirateia tudo par nói deixou de mensagem algo como ‘agradecemos a todos pelos 6 anos de madrugadas compartilhadas’ eu tive mais duas síncopes).
    foi o final mais lindo que poderiam ter feito.

    mas como vc disse: dependeria de como cada um assistia a série. pra mim, foi tudo lindo. um final bonito e grandioso como a série sempre foi.
    claro que, em seis temporadas, teve coisa ruim mesmo. mas no geral, Lost se vai pra ficar pra sempre no MEU coraçãozinho.
    nunca sofri tanto por algo assim, hahaha.

    achei belíssimo. valeu a saga que foi baixar e assistir duma vez.
    valeu, Louis. ainda tô chorando aqui. hahaha. tô fraquíssima.
    =***

  3. 24 maio 2010 às 9:27 pm

    e não dá pra se esquivar do spoiler iconográfico, hehehe.
    mas nessa, eu ganhei de vc. taquei uma foto no meu blog total desrespeitando a humanidade, em pagamento a TUDO que sofri de spoilers ao longo da vida lostiana.

    (y)
    evil.

  4. 24 maio 2010 às 11:49 pm

    Desisti da enrolação chamada “Lost” há muito tempo, mas quero levantar minha plaquinha de EU JÁ SABIA para o final. Sempre soube e sempre apostei na versão que acabou sendo a revelada. Tava na cara. Beijo!

    • 25 maio 2010 às 4:04 pm

      Quéroul, concordo plenamente. Achei o final sensacional, emocionante, edificante. Chorei bicas vendo da primeira vez e chorei mais ainda revendo os minutos finais. Essa percepção depende muito de como cada um sempre viu a série. Quanto à foto, eu não resisti. Tive que colocar um registro de uma das cenas mais bonitas do ano!🙂 E já que pus um avisinho antes, ninguém pode reclamar rsrs…

      Ka, não acho que Lost foi pura enrolação, porque como respondi no outro comentário, valeu mais a viagem em si do que o destino. Me empolguei com a série, me envolvi com os personagens. E isso valeu muito a pena por esses seis anos em que acompanhei o programa! Beijo.

  5. 25 maio 2010 às 10:30 pm

    Eu não consigo acreditar que alguém viu o episódio e depois saiu pensando que a ilha é o purgatório e que todos morreram na queda do avião no começo da série…

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