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Filmes que ficam

Uma tia fonoaudióloga me perguntou se eu já tinha assistido a “Meu Pé Esquerdo”, e à medida em que fui puxando detalhes do filme da memória, me dei conta do quanto tinha gostado dele, e do quanto tinha permanecido comigo. À pedido dela anotei algumas das minhas impressões, que compartilho agora com vocês:

“Meu Pé Esquerdo” é mais lembrado pelo excelente desempenho de Daniel Day-Lewis, pelo qual ele ganhou o primeiro Oscar de Melhor Ator (o segundo seria conquistado dois anos atrás, por “Sangue Negro”). Mas o longa dirigido por Jim Sheridan em 1989 tem qualidades mais extensivas. Para começar, o diretor aborda a história edificante que se propõe a narrar com sobriedade espantosa, sendo que poderia ter caído facilmente em apelações, considerando o material altamente emocional que tinha em mãos. Esse respeito pelo caso é sentido pelo espectador, que se importa com o protagonista não pela sua deficiência, mas pela pessoa que ele é além disso.

No filme, acompanhamos como Christy Brown superou as adversidades para se tornar um pintor e um escritor de sucesso. Ele era um dos muitos filhos de uma família operária irlandesa – gente simples e humilde, que bebe demais e tem expectativas de menos, e que não compreende porque suas trajetórias se desenrolam de maneira precária. Christy também não tinha ambições de se alçar deste ambiente paupérrimo. Na verdade, nem tinha condições de fazê-lo, porque tinha uma desvantagem considerável em relação a todos os outros: nasceu com paralisia cerebral, e nem mesmo os médicos lhe davam mais do que alguns meses de vida. Pois os anos foram se passando, e Christy persistiu. Até um estágio avançado da infância, só comunicava com a família através de grunhidos e batendo o pé esquerdo no chão – só desse pé ele tinha domínio, já que por ter os músculos contraídos não conseguira controlar qualquer outro movimento do corpo.

Mas era um bom observador, e foi com esse pé que certo dia escreveu, com um pedaço de giz no chão de madeira, a palavra “Mommy” (Mamãe), para o imenso assombro dos familiares (muitos deles inteiramente analfabetos). A cena em questão é uma das mais memoráveis do filme, muito favorecida pelas extraordinárias interpretações do ator mirim (que carrega o personagem pelo primeiro ato, antes de Day-Lewis assumí-lo) e de Brenda Fricker (que como a matriarca da família Brown comove e convence, tendo sido premiada com o Oscar de Atriz Coadjuvante). Foi a mãe quem estimulou as conquistas e avanços de Christy, tratando-lhe com a dignidade que os outros membros da família – que o viam mais como um animal de estimação – não lhe reservavam. Com o tempo, Christy aprendeu a falar, ainda que muito mal e só compreensível aos que conviviam sempre com ele. Até que um médico local ouviu sobre este rapaz e foi conhecer a família. Ele ensinou Christy a se articular melhor e ajudou a promovê-lo como o artista que ele já estava se tornando. Foram poucas, ou nenhuma, as melhoras físicas de Christy ao longo dos anos, mas ele se tornou capaz de se expressar habilmente pela fala e pelo pé esquerdo, da mesma forma em que se tornou um exemplo de vida, primeiro para sua comunidade, e depois para todo o país (ou ainda para o mundo, através do filme).

“Meu Pé Esquerdo” acompanha Christy até seu casamento, com uma das enfermeiras que o auxiliava. A essa altura, ele já tinha construído uma vida melhor para si e para os familiares (é bem bacana também a cumplicidade que existe entre ele e os irmãos, que nas cenas iniciais são vistos empurrando o garoto por toda parte numa carriola, para inclui-lo nas brincadeiras). O filme termina com informações sobre a morte de Christy – faleceu em 1981, aos 49 anos, em Dublin, vítima de um acidente aparentemente inofensivo (sufocou com a comida na hora da refeição). Deixou, além das pinturas, sete livros publicados, alguns deles com poesias originais. Sua auto-biografia serviu de base para o filme em questão – e todos os envolvidos no projeto se esforçaram ao máximo para fazer jus a esse verdadeiro milagre que testemunhou a família Brown.

.:. Meu Pé Esquerdo (My Left Foot, 1989, dirigido por Jim Sheridan). Cotação: B+

Categorias:Cinema
  1. 20 maio 2010 às 5:50 pm

    eu tb tenho como forte referência a esse filme, o soberbo Day-Lewis – também não poderia ser diferente.
    recomecei a assistir há pouco tempo atrás, mas não sei porque parei; me lembro bem da cena dele escrevendo com giz no chão, e os irmãos carregando ele pra cima e pra baixo no carrinho.
    sei, do fundo do coração, que é um filme lindo, mas pouco me lembro. gostaria sim de rever.
    (assim como ‘Em nome do pai’, outra coisa linda com Daniel meu amor, e que também me escapa um pouco da memória…).

    Daniel Day-Lewis é um absurdo, não?
    =*

    • 21 maio 2010 às 6:14 am

      Quéroul, Day-Lewis é demais! Errou com Nine, é verdade, mas tem uma carreira completamente invejável, com pelo menos três desempenhos pra serem alçados à História. E este é o primeiro deles. Filme muito bonito, bem realizado nos mínimos detalhes! Beijo!

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