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Enfim, Alice!

Não fiz questão de ver “Alice no País das Maravilhas” logo na estreia, e foi quase sem expectativas que conferi o filme agora, depois de duas semanas em cartaz nos cinemas brasileiros. Obviamente tem sido um sucesso de bilheteria, ainda mais considerando que está em exibição em várias salas 3D, onde o preço do ingresso é mais elevado (ver na sala IMAX, que tem a maior tela do mundo, é uma pequena fortuna, com exceção das Quintas-feiras promocionais, dia em que assisti).

Mas não é de agora que um filme com o nome de Tim Burton à frente dos créditos é sinônimo de público. O diretor é famoso por ter concebido um universo muito particular, com elementos vívidos, diferentes e idiossincráticos que volta e meia resgata. Ainda que nem sempre tenha uma história interessante para contar, Burton sabe caprichar na identidade visual, deslumbrar o público e conquistar novos e fervorosos admiradores. Graças à sua união profissional com o astro Johnny Depp, que também está neste filme, Burton conseguiu ainda deixar a imprensa em cima dos seus projetos – e a expectativa que rondava a estreia de “Alice”, aqui e em qualquer outra parte do planeta, era quase imprescindível. Não à toa, esta já é a maior bilheteria da carreira do diretor, e uma das maiores de todos os tempos.

Como o título indica, esta é uma adaptação dos livros de Lewis Carroll, que já foram levados ao Cinema e à TV inúmeras vezes antes (inclusive pela própria Disney, estúdio que patrocina este aqui, numa animação de 1952). Trata-se de uma história cheia de alegorias e viagens de ácido, onde uma garotinha, Alice, cai num buraco perseguindo um coelho branco, e depois de despencar pelo que parecem ser milhares de quilômetros, chega no País das Maravilhas. É um lugar que não conhece a definição de “absurdo”, onde se pode encolher bebendo uma poção e crescer vários metros comendo um pedaço de bolo. Também é uma terra cujas belezas naturais não se equiparam a nada que existe no mundo real. Um pedaço de paraíso onde até mesmo os animais falam e os gatos sorriem. Mas isso está ameaçado pelo reinado da tirana Rainha Vermelha, que pune os súditos que lhe negam obediência ordenando que os carrascos lhes cortem a cabeça.

Dizem as más línguas, porém, que Carroll era inclinado à pedofilia, e que teria escrito tanto o primeiro volume de “Alice” quanto a continuação “Alice Através do Espelho” para uma garotinha por quem era apaixonado. A produção optou por cortar a polêmica pela raiz, utilizando um truque que já tinha dado errado em “Hook – A Volta do Capitão Gancho”. Ou seja, assim como Steven Spielberg envelheceu Peter Pan no longa tido como o pior de sua carreira, Burton transforma Alice numa mocinha já na faixa dos 20 anos. Tudo o que se conhece dos livros teria pertencido à um sonho que ela teve quando criança, e que só depois de retornar ao País das Maravilhas percebe ter sido real. Quem ficou com o papel, disputado também por Lindsay Lohan e Amanda Seyfried, foi Mia Wasikowska, que só era conhecida pelos espectadores da série da HBO “In Treatment” (no programa, ela interpretava com brilhantismo uma ginasta com tendências suicidas). Não é nenhum pouco desafiada pelo raso roteiro de Linda Woolverton, mas ao menos vai se tornar um rosto conhecido, para quem surgirão oportunidades válidas no futuro.

A história tem essa desculpa para seguir um caminho diferente do proposto por Carroll, mas se mantém fiel a muitas passagens e obstáculos, reutilizando os mesmos personagens, dentre coadjuvantes engraçadinhos e vilões. Faz de tudo, no entanto, para aumentar a presença do Chapeleiro (“Mad Hatter”, que se tornaria expressão recorrente na língua inglesa), papel que ficou com Johnny Depp. Desde o primeiro trailer, Depp tem sido promovido como a grande estrela do projeto, e de certa forma merece. A caracterização ficou legal, e mesmo que o tenhamos visto fazendo o tipo amalucado muitas vezes antes, ele consegue se renovar e encontrar um tom diferente. Só poderia ter sido poupado de certas micagens, como uma dancinha que é obrigado a fazer próximo ao final, simplesmente constrangedora para si e para o espectador. Seja como for, a maior presença é mesmo de Helena Bonham Carter, mulher de Burton, que rouba a cena como a mimada, histérica e hilária Rainha Vermelha. Em oposição, Anne Hathaway é a sílfide Rainha Branca. Crispin Glover é um comparsa da vilã, e atores ingleses do calibre de Stephen Fry, Alan Rickman, Michael Sheen e Timothy Spall dão voz e vida aos personagens computadorizados.

Os efeitos, no entanto, são discutíveis, e ritmo da ação bastante irregular, cansativo em algumas ocasiões e sonolento em outras. Mas não é novidade que o diretor não sabe coreografar sequências grandiosas e monumentais de aventura. Estas soam quase banais, até mesmo na batalha que serve como clímax, da qual muito se fala para o pouco que acontece. Também não é eficiente o uso do 3D, inserido na pós-produção. Há alguns truques de objetos voando em direção ao espectador, mas não se nota aquele cuidado em conferir textura e profundidade às cenas (algo inadimissível depois de “Avatar” e “Como Treinar Seu Dragão” terem provado o que já é possível atingir com essa tecnologia). Não há desculpa para a falta de foco em segundo plano, por exemplo, e isso acontece praticamente o tempo todo. Mas de acordo com o que foi mencionado acima, Burton compensa suas deficiências com seus conceitos visuais muito inventivos – e parece haver um consenso de que o que faz “Alice” valer a pena é sua sensacional direção de arte, planejada com detalhes riquíssimos, e a fotografia linda e saturada de cores. Certamente vai encher os olhos de quem for conferir – e a essa altura, quem ainda não foi?

.:. Alice no País das Maravilhas (Alice in Wonderland, 2010, dirigido por Tim Burton). Cotação: C+

Categorias:Cinema
  1. 14 maio 2010 às 1:07 am

    eu juro que esperava uma crítica bem pesadona… acho que vc foi bonzinho. hehehe.
    bem, eu não sou parâmetro mesmo, porque amei o filme, mas todo mundo que conheço achou de médio pra baixo, beeeem baixo.
    não é um filme que mudou minha vida – eu não saí pulando feliz e sorridente, como aconteceu com a Fábrica de Chocolate. mas fiquei bem satisfeita e ainda saí elogiando Bonham Carter.
    ou seja…

    se eu desse nota pra filme, a minha seria B++.😉

    • 14 maio 2010 às 10:38 pm

      Quéroul, não achei o filme uma perda total pra ser tão agressivo na crítica rsrs… Só de você ter saído elogiando a Helena, atriz que já confessou não gostar, é um grande avanço e prova de que o filme te tocou mesmo. Ainda que tenha problemas, se ele foi eficaz pra você, merece muito sua cotação positiva🙂

  2. Frederik Lauridsen
    15 maio 2010 às 4:58 am

    Vi em 3D convencional e achei meio chatinho, concordo com vc que o johny depp podia ter sido poupado dessas pagações de mico. Mas adorei a Helena, achei digna de indicação ao Oscar =)

    • 15 maio 2010 às 5:30 pm

      Frederik, a Helena manda MUITO mesmo. Não deve ter fôlego pra chegar ao Oscar, mas não deixa de ser uma interpretação memorável da carreira dela.

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