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Canções de Amor

O musical é a única forma dramática criada nos Estados Unidos, e sintomaticamente, um gênero aproveitado quase que exclusivamente pelo cinema do próprio país. O cinema francês, que como tudo mais na França, não é muito receptivo às regras e convenções americanas, raramente sugou desta fonte – e é nessa porção mínima da estatística que “Canções de Amor” se encaixa.

Não se trata, porém, de um musical extravagante com viagens de ácido monumentais. Não é um pastiche retrô coreografado com cafonice e ponderado por uma trilha tradicional. As canções que os personagens volta e meia desatam a entoar correspondem a um som suave, cheio de texturas e indissoluvelmente francês. E os números de dança são inexistentes. Mas ainda que siga seu próprio esquema, o diretor Christophe Honoré deixa evidente seu distanciamento do gênero (ou o distanciamento da França como um todo), já que a história que está sendo contada se sustentaria tão bem quanto (e de repente até melhor) sem o auxílio das músicas. As melodias são agradáveis e até tocantes, mas distribuem-se pela trama de maneira irregular – por vezes, passa-se um longo período de tempo sem uma única canção, só para várias serem interpretadas em sucessão. Pior: fica a sensação de que o enredo se movimenta melhor quando as músicas são suprimidas, e de que as canções, ao invés de motivar a trama, apenas reforçam sentimentos internos dos personagens que o público já captara por conta própria.

Todavia, não é difícil apontar porque uma fita que estaciona entre o mediano e o satisfatório tenha aderido tantos seguidores. Um desses motivos é o escopo homossexual: o protagonista perde a namorada de longa data e encontra conforto inesperado num rapaz mais jovem que ele. Não é comum situações desse tipo envolverem homens – no cinema e na televisão, é muito mais habitual vermos retratos de mulheres que se relacionaram com o sexo oposto durante toda a vida, e que diante de um término difícil ou de um trauma não-resolvido, investem num relacionamento com alguém do mesmo sexo. Enquanto as mulheres, gays ou hétero, são efusivas para demonstrar seus sentimentos umas pelas outras, os homens que se dizem “com H” mantém uma distância rigorosa do semelhante, como se um cumprimento além do aperto de mão pudesse causar a impressão errada e despertar desejos adormecidos. Por abordar essa outra face da moeda, “Canções de Amor” conseguiu o aval da comunidade GLBTS, e veio com a chancela de produto de consumo obrigatório.

O outro motivo para o longa ter sido tão disseminado foi, é claro, a presença de Louis Garrel. Desde que foi revelado para o mundo em “Os Sonhadores”, de Bertolucci, Garrel se tornou protagonista dos sonhos molhados de moças e rapazes por toda parte. Seu nome à frente de um projeto em sua própria nacionalidade é garantia de que o filme será avaliado com interesse, e muito possivelmente comprado pelos estúdios e exibido em outros países. Ele não chega a ser um ator extraordinário, mas é charmoso, despojado e, quando realçados seus atributos, hipnotizante. Quando eu o conheci há alguns anos, achei que essa formosura era fruto do Cinema. Pessoalmente, Louis é desleixado, calado, tem os dentes amarelados pelo tabaco e jeito de quem está sempre de ressaca. Bem francês, enfim. E desse mesmo modo, sem tirar nem por, ele consegue utilizar trejeitos de sua personalidade nos personagens que interpreta. Na maioria dos casos, como este personagem central de “Canções de Amor”, dá muito certo!

.:. Canções de Amor (Las chansons d’amour, 2007, dirigido por Christophe Honoré). Cotação: C+

Categorias:Cinema
  1. Frederik Lauridsen
    10 maio 2010 às 11:28 pm

    Fala Louis, tudo bem? Baixei o filme depois de ver seu post, já tinha ouvido falar mas não sabia do que se tratava. Gostei bastante, inclusive achei a trilha linda. E como foi que voce conheceu o Louis Garrel??

    • 11 maio 2010 às 9:17 am

      Frederik, foi durante uma edição da Mostra de Cinema de SP! Acho que ele tinha vindo pra divulgar justamente esse filme. O encontrei de bobeira no Conjunto Nacional… Mas eu, bobinho, nem o conhecia direito. Lembrava de Os Sonhadores, mas nem sabia o nome dele rsrs…

  2. Lelo
    11 maio 2010 às 1:54 pm

    eh um dos meus filmes preferidos, e discordo totalmente de que seja gay. tem sim esse tema mas nao eh unico, aborda mt mais coisas.. enfim, nao concordo.

  3. 12 maio 2010 às 5:22 pm

    Vi esse filme ano passado e de certo modo concordo com a sua opinião. Como musical é muito falho, mas como cinema não achei ruim.

    • 12 maio 2010 às 10:39 pm

      Lelo, o filme não é exclusivamente gay, mas aborda esse assunto com certa significância e se tornou referência e culto entre muitos homossexuais. Por isso fiz essa observação. O que não quer dizer que héteros não possam se atrair e se envolver com a história, é claro!

      Jô, acho que tanto como musical quanto como cinema Canções de Amor tem problemas.

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