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Damages, um adeus?

“Damages” chegou perto de ser a série perfeita. Com o encerramento da terceira e possivelmente última temporada, o drama jurídico pode se orgulhar de ter dado à Glenn Close, talvez a melhor atriz americana de sua geração, uma das personagens mais consistentes de toda a carreira. Na trama, ela interpreta a fria e calculista Patty Hewes, uma advogada ambiciosa que se envolve de modo nada ético com os casos que aceita. Para solucioná-los de acordo com os seus interesses, a própria Patty vai recorrer à ilegalidade – se os processados quebram a lei, ela lhes dá o troco em espécie.

A figura da pupila Ellen Parsons (a eficiente Rose Byrne) vai se opor simetricamente à esse monstro: de início, ela se junta à firma de advocacia sem saber o que lhe espera, mas vai perdendo a ingenuidade, moldando seu caráter e aprendendo as regras do jogo (ou sendo forçada a isso por sacrifícios pessoais). Essa evolução é convincente e contínua, ao ponto de, na segunda temporada, termos visto a aluna passar a perna na mestra. Neste terceiro ano, as co-protagonistas não tiveram a mesma interação doentia. Na verdade, para fins de roteiro, foram deixadas de lado em mais de uma ocasião. Enquanto isso, o sócio Tom Shayes (Tate Donovan) foi ganhando mais importância, e novas peças foram adicionadas a esse tabuleiro de xadrez – mais especificamente, uma família que cometeu uma das maiores fraudes já vistas no país (a mãe é interpretada por Lily Tomlin, e o filho por Campbell Scott) e o advogado que ajuda a encobrir as falcatruas (papel de Martin Short, que se desvencilhou por completo da imagem de comediante).

Não é em qualquer lugar que se vê um elenco desse naipe sendo tão bem aproveitado. A conversão em estatuetas é sintomática: Close já ganhou um Globo de Ouro e dois Emmys pela personagem; Zeljko Ivanek, que participou da primeira temporada como regular, também levou prêmio de Coadjuvante. Ted Danson, que de certa maneira esteve presente nesses três anos de “Damages”, teve aqui seu melhor momento em tempos. Os oscarizados William Hurt e Marcia Gay Harden foram convidados de luxo da temporada anterior. Todos trabalhando com um texto nada menos que fantástico. A narrativa fragmentada é de difícil estruturação: em todo início de temporada, somos apresentados a algum evento bombástico que acontecerá alguns meses à frente. Tudo o que vemos na leva de episódios que se segue conduz a esse ponto crítico. Na temporada inicial, esse ápice era o assassinato do noivo de Ellen; na seguinte, um embate entre Ellen e Patty que terminava com a primeira disparando um revólver. Nessa terceira, foi algo ainda mais tenso e inacreditável. Mas não se desespere: todas as pontas serão retomadas e explicadas.

Caso “Damages” não ganhe uma sobrevida em outro canal (seu lar inicial, o FX, dispensou a série porque as despesas com a produção não compensavam os lucros), estaremos nos despedindo de um dos programas mais assombrosos da década passada. Poucas vezes vimos na TV uma trama tão enganosa, cheia de ramificações e reviravoltas bem orquestradas. E nunca antes um seriado tinha retratado a cidade de Nova York de maneira tão magistral. Em “Damages”, os edifícios pontiagudos, os parques gélidos e as superfícies reluzentes fazem parte de uma arquitetura deslumbrante. Um palco onde nada é o que parece ser – um espetáculo encenado com brilhantismo, para ser aplaudido de pé durante os créditos finais.

Categorias:TV
  1. 25 abril 2010 às 6:24 pm

    Eu me recuso a acreditar que “Damages” foi cancelada, porque a série, na minha opinião, é um dos sopros criativos da tevê atual nos Estados Unidos. Concordo com muito do que você escreveu no seu texto e espero que o AXN não desista de exibir a última temporada do programa, já que ele foi “cancelado” – uma vez que ainda existe a esperança da série ser aproveitada em outro canal. Beijo!

    • 25 abril 2010 às 11:35 pm

      Ka, eu tb! Só vou lamentar o cancelamento quando todas as chances de renovação em outros canais tiverem se esgotado. O AXN tem muito que exibir a terceira temporada no Brasil – apesar desses canais de TV paga terem enorme descaso com seus assinantes. Beijo!

  2. Lucas Alves
    26 abril 2010 às 7:14 am

    Oi Louis!!!!

    Seu texto sobre Damages está IMPECÁVEL! Comecei a assistir Damages depois de ler tantos elogios pra série – inclusive aqui. Tenho um gosto muito limitado (preciso ser mais eclético), e por isso baixei o piloto cheio de desconfianças. Pois logo na primeira cena, aquela da Ellen saindo do elevador, a série prendeu a minha atenção. Desde então viciei. Adorava a oposição entre Hewes e Ellen, o personagem do Ted Danson, a forma como tudo começava a fazer sentido a medida que a temporada se aproximava do episódio final… Enfim, Damages foi um show.

    E já que o assunto é séries… Vc abandonou Breaking Bad? Hã? Como assim? Ok, eu sei q vc assiste o q quer, tudo bem… Mas estamos falando de Breaking Bad. Reconheço q a primeira temporada foi fraca, porém a segunda evoluiu surpreendentemente, e acho que a terceira está com a faca e o queijo nas mãos para apresentar um ótimo resultado. Isso por causa das tramas desenvolvidas até aqui (exemplos: a vingança da família do Turco, a separação de Walter e Skyler, o cunhado do DEA, etc). A série ainda conta com uma fotografia linda e uma edição muito competente em quase todos os episódios. E é desnecessário falar o quanto Bryan Cranston atua bem. Ainda não vi os dois últimos episódios pq estou atrasado, mas por enquanto Breaking Bad me pareceu estar nos trinques. Diz aí qual foi o motivo do abandono.

    AINDA falando de séries: Estou impressionadíssimo com a sua rapidez pra alcançar os inéditos de Supernatural! Vc devorou 4 temporadas e meia em um tapa. Eu sei q a notícia de que o Kripke deixará a chefia é velha, mas ainda não sei o q pensar sobre. Talvez seja melhor nem pensar. Mas fico com medo da série perder com isso, pois, afinal, por mais q eu ame Supernatural com todo o meu coração, devo reconhecer q tem suas falhas, e uma mudança mal feita pode por tudo ralo abaixo.

    Puuuuutz… o q está acontecendo com United States of Tara? Os episódios 2 e 3 lançaram ótimos ganchos, mas o desenvolvimento deles nos episódios posteriores deixou muito a desejar.

    Com fé em “SeriesGod” vou conseguir tempo pra retomar todas as séries que fui obrigado a adiar. Mas por hora, só está dando pra recuperar o atraso de Mad Men – estou no meio da terceira temporada. Nem sei qual palavra eu uso pra expressar o quanto estou embasbacado com a altíssima qualidade dessa série. Principalmente pelo seu texto brilhante. É uma pena q tanta gente a considere chata.

    Abraços!!!

  3. 26 abril 2010 às 2:29 pm

    Ah fez o post que pedi né? haha Obrigado Louis. Então, Damages é genial. Esse formato da série onde o que vai acontecer é mostrado alguns meses antes e a cada episódio vamos tendo mais detalhes até chegar no final conclusivo que fecha tudo sem deixar buracos não tem como não pegar alguém de jeito, haha. O elenco é o melhor da TV. A trama é muito bem elaborada. A Patty Hewes é uma das melhores personagens da TV, se não a melhor. Rose Byrne é uma atriz de sorte por fazer parte desse elenco. O final da terceira temporada foi incrivel. A primeira temporada pra mim foi impecável, a segunda foi excelente, mas não vi toda a perfeição da primeira, já o terceiro ano foi bem desanimador pra mim no comecinho da temporada, mas quando me empolguei vi que estava diante de uma grande temporada e o final foi o melhor da série. É por isso que se tiver acabado aqui, Damages fez um excelente trabalho.

    • 26 abril 2010 às 5:40 pm

      E aí, Lucas, como vai? Saudade dos seus comentários!🙂 Fico feliz que tenha apreciado este verdadeiro primor que é Damages. Quanto a Breaking Bad, sei que a série é muito boa. A primeira temporada foi meio café com leite porque teve poucos episódios e nenhuma chance de provar a que veio (com exceção do desempenho excepcional de Bryan Cranston). Mas é uma série pra ver com muita paciência (igual a Mad Men, que você menciona mais adiante), e que as vezes me cansa um pouquinho. Ou seja, depende muito do meu estado de espírito para ser apreciada. Por enquanto não estou com cabeça pra assisti-la como deveria, mas não descarto a chance de retomá-la em breve (na verdade é bem capaz que eu faça isso, já que também dei um tempinho no meio da segunda temporada antes de concluí-la). Eu fiquei viciadão em Supernatural, mas pode acreditar, já devorei temporadas de outras séries num ritmo ainda mais frenético rsrs… Não sei bem o que pensar da sexta temporada. Buffy teve uma trajetória parecida, e seu criador Joss Whedon se afastou na transição da quinta pra sexta – e ainda assim se manteve como um dos shows mais interessantes da TV! Abraço.

      Mark, sim, foi especialmente pra vc!😉 Você sabe que compartilho de todo o seu entusiasmo pela série. Assino embaixo do seu comentário.

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