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As Melhores Coisas do Cinema Brasileiro

É simplesmente encantador este novo filme de Laís Bodanzki, “As Melhores Coisas do Mundo”. Talvez o melhor da carreira da diretora, que já tinha acertado com “Bicho de Sete Cabeças” e “Chega de Saudade”. O que ela consegue fazer aqui é retratar com muita precisão a vida dos adolescentes brasileiros – ou mais especificamente, suas rotinas conturbadas nas salas de aula, quando o convívio em meio àquele turbilhão de hormônios pode resultar em atitudes cruéis. Ainda assim, não é forte e impiedoso como os filmes que costumam abordar o bullying (que está presente na trama, mas não no centro da ação). É caloroso e humano, doce e positivo, verossímel e bem humorado.

Bodanzki buscou essa veracidade em jovens da vida real, moleques imperfeitos e esquisitos que seguram as pontas e convencem (embora tenha incluído também o galã Fiuk, filho de Fábio Jr. e protagonista de “Malhação”, que tem mais cara de modelo de pasta de dente – o que não o impede de funcionar dentro da proposta, é claro). Foram testados milhares de jovens, sendo que pelo menos trezentos amadores acabaram selecionados para contracenar com profissionais, em papeis coadjuvantes ou como figurantes. Inclusive nas cenas das reuniões escolares estiveram presentes os pais dos garotos que participaram do filme. Coisa parecida fizera o francês Laurent Cantet em “Entre os Muros da Escola”, com resultado igualmente satisfatório. E graças a essa técnica, Bodanzki chega perto de extrapolar os limites da ficção.

O enredo é inspirado na série de livros “Mano”, escritos por Gilberto Dimenstein e Heloísa Prieto. Basicamente fala sobre um menino de quinze anos (o ótimo estreante Francisco Miguez) que terá de lidar com vários baques de uma só vez. Primeiro ele descobre que os pais estão se separando. Depois percebe que o pai deixou a mãe por outro homem, e terá de avaliar seus próprios preconceitos. Daí em diante, passa a viver no medo constante dos colegas ficarem sabendo disso. Também sonha em perder a virgindade com a garota mais popular da escola, para quem ensaia solos de violão na tentativa de impressionar. Entrementes, sua melhor amiga tem uma queda pelo professor de Física, e seu irmão é largado pela namorada de longa data. Todas essas brechas são exploradas e bem contadas.

Não é perfeito, porém. Tem o ritmo muito marcado em algumas cenas, momentos forçados ou gratuitos (como um ataque violento que acontece na escola numa determinada circunstância), e um final um tanto abrupto. Por vezes também tem cara de videoclipe, com o uso intrusivo de canções geralmente arranhadas no violão – o efeito é bonitinho e agradável, mas não funcional para a narrativa. Em algumas tomadas, Bodanzky chega a pecar pela obviedade – como a câmera lenta numa das cenas mais tensas do filme, próxima ao desfecho. Nada, no entanto, que comprometa a experiência, em especial dos adolescentes, que vão se identificar com as situações e encontrar a si mesmos em riqueza de detalhes.

Sei o quanto é difícil tirar de casa o pessoal dessa faixa etária, mais interessado em passar o dia na frente do computador, do Orkut, do Twitter, do iTunes e do PS3. Mas esse programa realmente vale a pena, e seu desempenho inicial nas bilheterias é importante para mantê-lo em cartaz por mais tempo. Resumo da ópera: corra pra ver!

.:. As Melhores Coisas do Mundo (Nacional, 2010, dirigido por Laís Bodanzky). Cotação: B+

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Categorias:Cinema
  1. 18 abril 2010 às 7:54 pm

    Gosto da Bodanzky e pretendo ver este filme. Espero que ele estreie em breve por aqui! Beijo!

  2. Frederik Lauridsen
    20 abril 2010 às 8:52 pm

    Assisti no Domingo meio que contrariado e acabei curtindo muito. Concordo com tudo no seu texto. Ótimo blog!

    • 20 abril 2010 às 9:04 pm

      Que bom que gostou, Frederik. Bora recomendar pra todo mundo pra que o filme continue em cartaz por mais tempo! E obrigado pelo elogio. 😉

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