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Top 10: Motivos para ver O Despertar da Primavera

Nós fomos ensinados a odiar o pecado e a amar o pecador. Em “O Despertar da Primavera” – que, como não me canso de dizer e recomendar, é uma das experiências mais superlativas que já tive no teatro -, esta teoria é posta a prova na sufocante sociedade germânica do final do século XIX. Vítimas dos conceitos e preconceitos de um mundo tétrico e infeliz, um grupo de jovens terá de fazer as pazes com seus hormônios em ebulição (o mais bacana: as canções em que esses conflitos se convertem tem um pé fincado no rock, técnica infalível para se comunicar com os jovens dessa geração). Aos paulistanos que ainda não conferiram, por preguiça ou falta de informação, tentarei destrinchar um pouquinho da trama e dos personagens. Cada qual carrega certa verdade, ou traços de fácil identificação em suas personalidades. E todos, sem exceção, são responsáveis pelo verdadeiro amor que passei a nutrir pelo musical. Os dados cruciais você já viu no blog: foi importado da Broadway pelos craques Charles Moeller e Cláudio Botelho, e está em cartaz em São Paulo, de Sexta a Domingo no Teatro Sérgio Cardoso (saiba mais aqui). Pela falta de patrocínio, deve encerrar a temporada em 02 de Maio, apesar da recepção do público estar sendo boa. Você que ainda não viu, a chance é esta, o momento é já! Sem mais delongas, aí vão dez motivos para amar “O Despertar da Primavera” (em ordem aleatória):

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– Melchior –

Pierre Baitelli, de 26 anos, vive Melchior, um garoto de 15, extremamente inteligente e avançado para a idade. O que ninguém lhe explicou ele aprendeu por conta própria, sempre tendo os livros como mentores. No processo, passou a desacreditar em Deus, a compreender questões de teor sexual que seus colegas apenas desconfiam, e a ter uma visão muito clara das hipocrisias que o rodeiam. Mas não tem para onde canalizar esse potencial. Anota seus pensamentos num diário particular que carrega para todo canto, mas não pode dividi-los com mais ninguém. Vez ou outra tem a petulância de contradizer um professor, e acaba sendo repreendido, impedido de expressar as opiniões e privado do direito de uma vida plena. Todo o conhecimento que possui também não o impede de ser ingênuo, e de tomar pelo menos duas atitudes mal pensadas, que terão consequências graves e irreversíveis. Ao final, Melchior está mais amargo, porém não mais duro. Ele carrega fardos que ninguém deveria ter que carregar, mas essas, digamos, “cicatrizes de guerra” são o que o motivam a prosseguir e a lutar por um futuro melhor. E sem cair no clichê.

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– Wendla –

Quando conhecemos Wendla, uma garota de boa família na faixa dos 14 anos, ela está explorando com curiosidade as novas curvas de seu corpo. Segundo a mãe, Wendla está “desabrochando”, o que significa que terá de mudar o vestuário, e abandonar os vestidos leves e folgados em pró dos mais fechados e comportados. Mas com a idade vem também questionamentos, quando o mundo que nos foi apresentado quando éramos crianças parece ir muito mais além do que nos foi dito. Ao descobrir que se tornou tia, Wendla resolve perguntar à mãe de onde vem os bebês (a justificativa da matriarca – de que os recém-nascidos eram trazidos por cegonhas – não colava mais). Encabulada, a mãe inventa outra explicação tão irreal quanto a anterior para encobrir o assunto. Tudo para preservar este universo de conto-de-fadas em que Wendla parece viver. Só que isso já não basta para a menina. Ela sente um vazio interno, ainda mais quando confrontada com problemas de uma seriedade que desconhece (como quando descobre que uma amiga apanha do pai). Para completar, vai se aproximar de Melchior Gabor, com quem brincava desde pequena, mas a quem passou a ver com outros olhos depois de mocinha. Diante de Melchior, Wendla se vê surpresa por um sentimento que não compreende e que não sabe administrar – mas do qual também não consegue se desligar. Basta uma imprudência para que as coisas que Wendla não sabe voltem para assombrá-la. E uma heroína que tinha tudo para ser banal e irritante passa a importar para o público num nível pessoal. Aplausos para Malu Rodrigues, de 16 anos, que encontrou o tom e se entregou corajosamente ao papel.

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– Moritz –

O personagem rendeu a John Galagher Jr, o intérprete original, o prêmio Tony de Melhor Coadjuvante, e também está garantindo reconhecimento ao intérprete brasileiro. É um grande momento de Rodrigo Pandolfo, que chega a roubar a cena com seus histrionismos bem calculados. Pudera: Mortiz é o sonho de qualquer ator. É um rapaz ansioso e histérico, que tem dificuldade de articular seus sentimentos em palavras, e que não está preparado para ingressar no mundo adulto, tampouco para lidar com as cobranças que lhe fazem. É um aluno irregular, daqueles que cochilam na aula de Latim, e acima de tudo, um garoto que não entende o que os seus hormônios querem lhe dizer. Ele se assusta com os sonhos eróticos, com as ereções involuntárias e com o gozo que chega quando menos espera. Quando Melchior lhe explica a absoluta normalidade desses casos, Moritz não se tranquiliza – só se apavora ainda mais. Foi criado para acreditar que contato carnal é pecado, e a ideia de se aproximar de uma mulher dessa maneira está acima da sua capacidade. Ele periga sucumbir à pressão dos pais, dos educadores e da Igreja, no que tudo indica ser um desfecho trágico. O que nos faz pensar que, por mais voltas que o mundo tenha dado desde então, ainda existem milhares de Moritz por aí – jovens incompreendidos e taciturnos, que só precisam de alguém para lhes assegurar que vai ficar tudo bem.

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– Ilse –

Acuada pelos abusos físicos e sexuais que sofria por parte do pai, Ilse saiu de casa com uma mão na frente e outra atrás (ou cobrindo os seios, como o momento é encenado nessa versão). Passou a viver na rua, dormindo em sarjetas e se refugiando ocasionalmente com artistas e outros estorvos sociais da época. Apesar de transparecer a vulnerabilidade, encontrou forças para se rebelar, dar um basta na violência doméstica e encarar as consequências disso. A alternativa é igualmente sofrida, tortuosa e impiedosa, mas ela consegue – quase que por milagre – preservar intacta a sua humanidade, a sua ternura e seu calor. Um papel complexo e matizado, com emoções que Leticia Colin sabe transmitir com precisão.

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– Ernst & Hanschen –

Num dos pontos altos do musical, tanto pela abordagem intimista quanto pelas investidas cômicas, dois rapazes – o prepotente e arrogante Hanschen e o tímido e afeminado Ernst (Thiago Amaral e Felipe de Carolis, respectivamente) – trocam beijos e carícias sob o céu estrelado. É um momento pessoal e único, que ambos sabem que não poderá se repetir (“Vamos lembrar desta noite daqui há 30 anos”, diz Hanschen). Obviamente um relacionamento homossexual seria inadmissível naquela sociedade, e Hanschen deixa muito claro que é um homem vendido ao sistema (uma vez que aqueles que lutavam contra ele, como Moritz e Melchior, estavam fadados ao ostracismo). Neste instante de intimidade, ao menos um deles – Ernst – baixa totalmente a guarda e expõe seus sentimentos mais profundos. Já o outro é mais resistente. Hanschen tem uma lucidez muito grande a respeito de suas opções (ou da falta delas), e dirige-se ao amigo com superioridade, quase lhe tratando como criança. Seria fácil nos antipatizarmos com ele, mas tudo é tão bem conduzido que acabamos entendendo a armadilha em que se encontra, e os mecanismos de defesa que usa para se encaixar no mundo. Ao final, percebemos que Hanschen não é digno de ódio – é digno de pena.

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– Martha –

De todas as ramificações de “O Despertar”, a história de Martha deve ser a mais arrebatadora. Assim como Ilse, ela apanha do pai e é em seguida molestada por ele (um abuso constante, ao qual a mãe alcoólatra é alheia ou indiferente). Só que Martha não tem a auto-confiança de Ilse, ou coragem de tomar qualquer atitude. Denunciar o pai só poderia prejudicá-la ainda mais. Sem o apoio da mãe, e sendo os castigos físicos habituais naquela época, as chances eram de que o pai acabaria inocentado, e ela expulsa de casa. Estagnada nesta aspiral de caos e violência, Martha se retrai, se envergonha pela situação em que se encontra e reluta em compartilhá-la com as amigas (elas só saberão da verdade quando Martha deixa escapar num impulso). Fica, porém, a esperança de que aquela menina tão judiada possa ter conservado certa pureza e inocência – como quando a vemos brincando e conversando frivolidades com as outras garotas, parecendo tão intacta quanto todas as demais de sua idade (embora não fosse). A atriz Laura Lobo talvez seja o maior achado do elenco. Magrela e baixinha, ela parece a externalização da fragilidade, mas chega com força impressionante em seu número “Um Escuro Sem Fim”. E não se engane pela aparência: Laura constrói Martha de dentro para fora, e não ao contrário.

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– Os Adultos –

Os ilustres Eduardo Semerjian e Débora Olivieri se revezam entre todos os papeis adultos do musical (nove para ele, cinco para ela). Esse artifício foi mantido da montagem original na Broadway, e é uma sacada bem eficiente e interessante. Ao usar dois intérpretes para substanciar as várias figuras de autoridade, atestam que nenhum deles conseguia se comunicar com os jovens (em outras palavras, que são farinha do mesmo saco). Mas vão além, dando a cada qual motivações próprias e impedindo que se tornem arquétipos. Ora, os pais de Melchior pareciam inteiramente bem-intencionados, dando ao menino espaço para fazer descobertas e tirar suas conclusões. Infelizmente, aquele ambiente opressor não estava preparado para uma relação aberta entre pais e filhos, e Melchior acabará pagando por isso. Em pensar que hoje há essa possibilidade de diálogo, e que muitas vezes não aproveitamos… A mãe de Wendla também tem bom coração, embora peque pela ignorância. Por mais que tenha sido embaraçoso ouvir a filha lhe perguntar sobre sexo, enganá-la para não ter de explicar a verdade revela um terrível grau de imaturidade da parte da mãe – e também será a Wendla que pagará pelo erro. Já os professores que se sentem ameaçados pelas liberdades que a nova geração está tomando simbolizam um conservadorismo surpreendentemente atual. Quantos se queixam em pleno século XXI da falta de valores dessa molecada, sem fazer o mínimo esforço para entendê-la?

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– Os Outros –

Ainda que nem todos os personagens tenham tempo em cena para serem conhecidos a fundo, todos os membros do elenco de apoio estão dentro da proposta. Não dá pra dizer que um esteja mais afiado que o outro – todos estão conscientes da sua responsabilidade no espetáculo, inclusive os três protagonistas, que sequer tentam ofuscá-los (aliás, eles também terão seus momentos de coadjuvantes e figurantes, conforme o exigido). É um trabalho de equipe, enfim. Graças à liberdade criativa de que os diretores usufruíram, novos personagens puderam ser inseridos, e além daqueles interpretados por André Loddi, Bruno Sigrist, Estrela Blanco e Mariah Viamonte entraram os de Alice Motta, Clara Verdier, Eline Porto, Lua Blanco, Danilo Timm, Felipe Tavolaro, Gabriel Falcão e Thiago Marinho (alguns deles ensaiaram como substitutos dos personagens principais). Guarde esses nomes!

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– As Canções –

As músicas originais de Steven Sater e Duncan Sheik ganharam o Tony e o Grammy em 2007. Pode se orgulhar de ser uma das únicas trilhas recentes a partir da Broadway tendo em sua raiz pop e rock da melhor qualidade (logo, não espere por aqueles floreios ultrapassados das operetas convencionais). Justamente por isso é tão agradável aos ouvidos dos mais jovens, que encontram a si mesmos nas letras (caso haja dúvidas, também é eficaz aos mais velhos). A versão nacional ganhou excelentes traduções de Cláudio Botelho, que manteve a sonoridade, o ritmo e a rima. O elenco chegou a gravar um CD, com resultado bastante profissional. Destaco “Um Escuro Sem Fim”, “Vento Triste”, “O Que Ficou Para Trás” e “Canção de Um Verão Vermelho”, a meu ver superiores às originais. Já as irreverentes “Nessa Merda de Vida”, “Se Fodeu” e a reprise de “Mama Me Explica” são as mais contagiantes e, sintomaticamente, as mais aplaudidas nas apresentações (as coreografias bem ensaiadas também contribuem).

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– A Banda –

Das treze apresentações de “O Despertar” que assisti até agora, a banda foi sempre a mais aplaudida. E não é pra menos: os músicos ficam escondidos ao fundo do palco, revelados logo no comecinho e depois no número final. Incansáveis e sempre atentos às marcações, são alguns dos responsáveis por fazer a mágica acontecer!

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Poderia falar ainda do cenário maravilhoso pelo qual eles se locomovem de maneira funcional, da iluminação genial que venceu o prêmio Shell nesta semana ou das comodidades do teatro. Mas acho que a essa altura, depois do mais longo post já publicado por este blog, já deu pra sacar o apreço que tenho por este musical. Recomendo como o programa obrigatório das próximas semanas para os leitores que ainda não viram – os que eu já consegui levar para uma sessão ficaram igualmente deslumbrados e até voltaram levando mais gente em busca de novas emoções. Esse é o efeito único de “O Despertar da Primavera” – uma peça que traz à tona o melhor de nós, com seu texto espetacular, seus personagens bem desenvolvidos, seus atores preciosos e suas canções que vamos saber de cor.

Categorias:Teatro, Top 10
  1. 9 abril 2010 às 3:53 pm

    olha, de ler seus posts e de ouvir comentários de amigos, eu me morro de vontade de assistir, e me rasgo de tristeza em não poder.
    meu problema, infelizmente, é dos piores da nação: verba! eu sei que não é a entrada mais cara do Brasil, mas eu tô sem meia entrada pra nada e sem verba mesmo. conta corrente? zero.
    então é com muita dor no coração que eu vou ver chegar maio e dizer tchau àquilo que não assisti.
    uma pena mesmo. e uma pena que a temporada não possa ser estendida por falta de patrocínio. teatro aqui no país só consegue se sustentar quando tem global no elenco, não é? e olhe lá…
    que triste.😦

  2. Rafaella Sousa
    9 abril 2010 às 5:46 pm

    Cada vez mais eu sinto vontade de assistir à peça, mas quando estava aqui no Rio eu não tinha dinheiro. E agora que eu tenho dinheiro (consegui uma bolsa do CNPQ), a peça não vai voltar pra cá. Oh dó. =/

    • 10 abril 2010 às 5:00 am

      Quéroul, para, amiga, se o problema é mesmo esse eu posso te descolar um plus one! Desde que você recomende com muito afinco pros seus amigos (ou pros inimigos se não gostar, mas isso é quase impossível), tá valendo!!!😉 E é triste mesmo essa noção que o grande público tem de teatro. Fazer o que…

      Rafaella, acho que antes de pensar em voltar pro Rio (o que é difícil de acontecer), eles deviam se focar em fazer estourar aqui em SP!

  3. 10 abril 2010 às 11:44 pm

    Só por curiosidade: quantas pessoas você já conseguiu convencer a assistir a este musical?🙂 Beijo!

  4. Tiago
    11 abril 2010 às 1:45 am

    Queria que o musical continuasse e sem essa palhaçada de falta de patrocinio, se puder ver será em Julho, quando vou pra SP…:/

    • 11 abril 2010 às 3:56 am

      Ka, já fui quinze vezes e sempre arrastando gente nova – e como todo mundo ama, eles voltam outras vezes levando mais gente! Cá entre nós, já devo ter lotado uns 60 lugares do Despertar! huahua… Agora só falta você!

      Tiago, os planos originais eram de ficar até Julho mesmo! Se rolasse patrocínio, poderiam ficar tranquilamente. Uma pena!!!😦 Mas se a casa lotar, eles não saem perdendo, e quem sabe a temporada ganhe uma sobrevida…

  5. 11 abril 2010 às 6:04 pm

    😮

    vou torcer como nunca pra que nessas próximas duas semanas Santa Fapesp me responda sobre um negocinho – aí eu posso ir e levar a galëre.

    brigada, Louis, não posso ler essas coisas que emotivo, sério. mas só fica até maio, pois??? :/

  6. Rodrigo
    12 abril 2010 às 4:31 pm

    Gostei muito da descrição de tudo… realmente é fiel a tudo que o musical quer nos transmitir. Já vi duas vezes… e claro que estarei no dia 02/05 para acompanhar a última apresentação com um aperto no peito… você estará lá? Abraços…

    • 12 abril 2010 às 5:51 pm

      Quéroul, se programe pra ver, é imperdível! Eu ajudarei no que puder pra tornar isso possível… E fica só até 2 de Maio mesmo!😦

      Rodrigo, obrigado! E claro que estarei lá no dia 2 rsrsrs… Ingresso comprado e tudo! Espero te encontrar por lá. Abraço.

  7. 7 outubro 2011 às 3:27 pm

    eles são muito bom. mas quem quiser assistir o despertar da primavera, esta em exibição no cottal na escola tarcizio alvares lobo, na fregesia do ó todas as sextas, sabados são as 8:30 da noite e de domingo as 4:00 da tarde contamos com sua presença obrigado.

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