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Sede de Sangue

O romeno “Deixa Ela Entrar” tinha me causado uma impressão fortíssima anos atrás, por subverter a lenda dos vampiros num filme intrigante e perturbador, sem as banalidades com que as fitas americanas costumam tratar o tema. Pois a Coréia do Sul rebateu com um exemplar ainda mais eficaz. “Sede de Sangue” é melhor que “Deixa Ela Entrar”. Também é totalmente isento de elementos joviais, sustos fáceis e carnificina barata. Por mais estranho que possa parecer (e o filme é, sim, bastante estranho), tudo funciona nesse suspense, ou ao menos colabora para que ele resulte maduro, denso e até bem-humorado! É uma combinação perfeita de ritmos, que certamente contribuiu para sua vitória em Cannes, de onde saiu com o Prêmio do Júri.

A sinopse é curiosa. Um padre coreano (Kang-ho Song) se oferece para um experimento polêmico, onde um grupo de médicos testa voluntários na esperança de encontrar a cura para uma doença fatal. Dos 500 testados, apenas o tal padre sobrevive, o que naturalmente leva a população a idolatrá-lo, como se ele fosse de fato um favorecido por Deus. Na verdade, a sobrevivência se deve ao sangue com que lhe fizeram uma transfusão: nada menos que sangue de vampiro! Infectado, o padre recua para a escuridão e passa a viver como uma dessas criaturas da noite. Mas continua apegado aos valores cristãos e tenta resistir aos impulsos primitivos de ferir outro ser humano. Para se alimentar, invade hospitais na calada da noite e suga através do cateter o sangue dos pacientes em coma.

O plano, porém, encontrará percalços com a chegada de uma moça aparentemente frágil e mal-tratada pela família que a adotou (a atriz que a interpreta, Ok-bin Kim, tem desempenho brilhante). O padre se aproxima dela, os dois mantém relações sexuais e não demora para que esse relacionamento se intensifique, com ambos testando seus limites morais. É fácil prever que essa desventura deixará o saldo de pelo menos um assassinato. Mas a trama é bem bolada e a conclusão não peca pela obviedade. Há indícios errôneos de que a história está chegando ao seu desfecho, só para descobrirmos em seguida que há muito mais para acontecer, novas cartas na manga e surpresas escondidas (a metragem ultrapassa as duas horas).

Quem dirigiu foi Park Chan Wook, do cultuado “Old Boy”. Sem dúvida um dos mais interessantes cineastas em atividade, ele filma de maneira sensacional, com recursos visuais bem sacados (só vendo pra crer) e uso extremo de violência (sem contanto cair no gratuito). Igualmente importantes são as ponderações morais que o filme faz com a plateia – tão pungentes que ao final fica a sensação de que poderia estar narrando uma história qualquer. Uma trama muito bem amarrada, onde o elemento vampiresco é mero detalhe, e onde o clima tétrico se deve mais ao psicológico distorcido dos personagens do que ao fato de um deles ser um morto-vivo. Imperdível!

.:. Sede de Sangue (Bakjwi, 2009, dirigido por Park Chan Wook). Cotação: A+

Categorias:Cinema
  1. Frederik Lauridsen
    8 abril 2010 às 11:00 pm

    Ta passando aqui perto de casa mas nem tinha ficado tão curioso até ler o seu texto.. Vou assim que der, ou quando essa chuva deixar ahaha!

    • 8 abril 2010 às 11:38 pm

      Frederik, boa sorte com a chuva! Eu enfrentaria tempestades pra ver este filme! rsrsrs…

  2. 9 abril 2010 às 12:04 am

    Gosto do Chanwook Park e já tinha lido um texto elogiando este “Sede de Sangue”. com seu texto agora era a confirmação que eu precisava para ver este filme, quando tiver a oportunidade. Beijo!

    • 9 abril 2010 às 12:09 am

      Ka, sim, você como a cinéfila que é não pode perder! Beijo.

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