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Salvem O Despertar da Primavera!

Ao que parece, a temporada de “O Despertar da Primavera” nos teatros paulistanos pode ser mais curta do que se esperava. Manter uma produção deste nível custa caro. Não é como cinema, onde basta levar o rolo de uma cidade pra outra. Sempre que uma peça é deslocada (no caso, “O Despertar” tinha passado com muito sucesso pelo Rio), tem de levar bagagem grande: cenários, figurinos, acessórios, a equipe extensa, os atores, pagar transporte, estadia e alimentação, aluguel do espaço físico e daí por diante. Acontece que as opções de lazer na cidade de São Paulo são inúmeras. Como não temos praia para espairecer, nos voltamos para a cultura. Esse excesso nem sempre é positivo. Muita coisa boa se perde no emaranhado de programas, e ainda que o público de arte seja representativo, ninguém dá conta de ver tudo.

Só que você não está entendendo: “O Despertar” tem que estar na sua lista de coisas obrigatórias do ano. Você tem que ver. Mesmo se não curte musical. Mesmo se teatro não está na sua linha de entretenimento. Mesmo se você está na pindaíba financeira. A peça é simplesmente imperdível. É uma daquelas histórias que nos deixam extasiados, que falam intimamente com cada um de nós e que nos enriquecem como seres humanos. O preço do ingresso está super suave, bem de acordo com o bolso dos jovens, que vão se identificar especialmente com o enredo. Precisamos deste público disposto a expandir os horizontes para que o Brasil fortifique sua tradição no teatro musical. Isso tem acontecido através de importações constantes de sucessos da Broadway, com nível de profissionalismo equivalente ao internacional.

Moeller e Botelho

Nenhuma dessas importações, porém, se compara às conduzidas por Charles Moeller e Cláudio Botelho, responsáveis por “O Despertar”. Os dois entendem do gênero como poucos no país, e devem ser creditados pela criação desse cenário positivo. Estiveram envolvidos ultimamente com a produção de “Avenida Q”, “A Noviça Rebelde” e “Sweet Charity”, além de um projeto de sua autoria, “7 – O Musical”. Também estão ensaiando “Gypsy” e fecharam contrato para encenar a nova versão de “Hair”. Na TV, conceberam os números do Cassino da Urca na minissérie global “Dalva & Herivelto”. Para oficializar de vez o prestígio, a coleção Aplauso lançou em Janeiro o livro “O Rei dos Musicais”, focado exclusivamente em suas realizações. Sem dúvidas, Moeller e Botelho são os maiores representantes da Broadway brasileira, numa época em que esta se prova tão completa quanto a estrangeira.

Uma introdução ao formato de fora: a Broadway corresponde a um ambiente altamente competitivo. Anualmente são lançados por lá os mais variados musicais, de conteúdo original ou adaptado – e todos devem apresentar um retorno financeiro imediato (grande parte advindo dos turistas de passagem pela metrópole). As regras são claras: se um musical não lota a casa, perde a vaga nos teatros maiores, e com sorte encontrará refúgio na Off-Broadway, com seus palcos menores e pressão mais moderada. A trajetória de “Spring Awakening”, que serviu de base para o nosso “Despertar da Primavera”, deu-se dentro dessas regras implícitas. Começou na Off-Broadway em 2006, e devido à excelente recepção de público e crítica, foi promovido para a primeira divisão ainda no mesmo ano. Já na Broadway, ganhou em 2007 oito dos principais Tony Awards, o dito Oscar do teatro americano, dentre os quais o de Melhor Musical.

O que as pessoas perceberam foi que “Spring Awakening” era um musical inteiramente novo. Dele exalava um frescor que não se encontrava em nenhum outro lugar na safra recente, abarrotada de pastiches retrôs e convenções cafonas. Um verdadeiro triunfo dos palcos contemporâneos, conseguiu ressuscitar uma controversa peça alemã, escrita por Frank Wedekind em 1891, e censurada por parte das décadas seguintes. Na trama, os jovens são vítimas da repreensão dos pais, dos educadores e da Igreja. Envoltos nas formalidades e hipocrisias da opressora sociedade germânica, são deixados no escuro à respeito de questões triviais, como as dúvidas sobre a própria sexualidade. Assim, um grupo de meninos e meninas terá de fazer todas as descobertas deste cunho por conta própria. Dessas inseguranças se distendem temas como masturbação, homossexualismo, incesto, suicídio e prostituição, coisas que o libreto de Steven Sater explora com sensatez.

Ainda mais dignas são as conversões desses assuntos espinhosos em música – a trilha, assinada por Sater em companhia de Duncan Sheik, aborda o inevitável sem apelações e sensacionalismos. Consegue um perfeito equilíbrio entre não amenizar os tópicos e não deixá-los cair no grotesco. E sempre com um diferencial: as canções tem um pé fincado no rock, estilo que só seria desenvolvido pelo menos meio século após aquele em que a história se passa. Não é inédito colocar os personagens entoando baladas futurísticas (foi o que Baz Luhrmann fez nos cinemas com o vigoroso “Moulin Rouge!”, por exemplo). Mas é uma técnica que, quando bem empregada, se revela charmosa, eficaz e irresistível. Note ainda que, dos musicais originais da Broadway, quase nenhum é bem-sucedido em lançar um álbum de pop e rock da melhor qualidade, que se enquadre no contexto da peça e que ao mesmo tempo escape dos floreios ultrapassados e das operetas tradicionais (o álbum em questão ganhou o Grammy, e as versões traduzidas por Cláudio Botelho – ótimas, por sinal – também foram gravadas em estúdio pelo elenco nacional).

Se o resultado final da montagem nova-iorquina já era esplendoroso, a roupagem brasileira o enriqueceu ainda mais. Isso porque Moeller e Botelho não tiveram, por contrato, a obrigatoriedade de fazer uma réplica do original, e gozando de liberdade criativa, incrementaram o que parecia intocável, com soluções ainda mais satisfatórias. Dentre as modificações, está o aumento do número de personagens – originalmente havia uma dúzia de jovens, seis garotas e seis rapazes; agora há quase o dobro, sendo que as novas aquisições fazem parte do coro e das novas coreografias, boladas por Alonso Barros. Também há diferenças na concepção do cenário, planejado por Rogério Falcão para esconder a orquestra (na Broadway os músicos ficavam visíveis ao fundo), e para que os atores se locomovam de maneira funcional. O primoroso trabalho de iluminação de Paulo César Medeiros complementa as mudanças. Esses voos criativos não só são válidos, como também importantes. Eles permitem que elementos próximos da nossa cultura sejam inseridos em algo pré-estabelecido, e – quando feitos por quem entende do ramo, como é o caso – não comprometem a reputação da fonte de inspiração. Pelo contrário: levam o padrão antigo um degrau acima.

Para que tudo funcione à risca, é indispensável ainda que o elenco esteja em sintonia – o que inclui encontrar dezenas de jovens com suficiente preparo para cantar e representar pelas mais de duas horas de espetáculo. Lá fora deu certo. Aqui, graças à bem conduzida peneira de testes, também. Através de cuidadosa seleção, foram descobertos rapazes e moças bastante proficientes, com acerto especial na escalação do trio principal. Malu Rodrigues, linda e com excelente controle vocal, ficou sendo a inocente Wendla; Pierre Baitelli é nosso Melchior, um rapaz que vive contestando o inconstestável; e Rodrigo Pandolfo é o trágico e desajustado Moritz. Há apenas dois adultos entre os integrantes, Eduardo Semerjian e Débora Olivieri, ambos substanciando todas as figuras de autoridade (ou seja, mostrando que em cada aspecto da vida daqueles garotos, a incapacidade de se comunicar com os mais velhos é a mesma). Com cada qual muito consciente de sua responsabilidade no espetáculo – e com as mãos santas de Charles Moeller e Cláudio Botelho no comando -, “O Despertar da Primavera” foi êxito no Rio durante os cinco meses em que ficou em cartaz. Comunicou-se especialmente bem com os jovens, mesmo com os que não costumavam frequentar teatro (alguns afirmam ter assistido a mais de dez sessões).

Os paulistanos dessa mesma faixa etária tem tudo para se identificar da mesma maneira. Mas o apelo não é restrito, e o musical é adequado a qualquer um, dos 14 aos 90 anos. Se você é de São Paulo, faça esse favor a você mesmo: vá ver “O Despertar da Primavera”. Idem para quem só está de passagem pela cidade. Não tem exemplar mais digno a ser conferido atualmente. Eu já vi sete vezes, e vou pelo menos outras catorze. Se algum leitor quiser esbarrar comigo na vida real, é só passar pelo Teatro Sérgio Cardoso, nas noites de Sexta a Domingo (a sessão de Quinta aparentemente foi cancelada). Estarei lá! Aliás, se você quiser marcar direitinho, eu vou pra lhe fazer companhia. Tente esse programa diferente. Balada já era! Você já foi uma porção de vezes e sempre fica de ressaca do dia seguinte. Vai lá, confira “O Despertar” e vá fazer uso daquele bordão dos palcos: “Se gostar, chame os amigos; se não gostar, chame os inimigos”. Com a diferença de que são quase nulas as chances de você ficar no segundo grupo.

.:. Teatro Sérgio Cardoso, Rua Rui Barbosa, 153 – Bela Vista. (11) 3288-0136 ou (11) 3285-6092

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Categorias:Teatro
  1. Bel
    26 março 2010 às 5:17 am

    Devidamente linkado esse post!

    #despertar !!!!

  2. 26 março 2010 às 5:40 am

    Galera, quem quiser ir assistir no dia 2 de abril com desconto, envie e-mail para despertar.primavera.sp@gmail.com para nos organizarmos!

    • 26 março 2010 às 7:28 pm

      Bel, vamos colocar a peça em evidência!!

      Guilherme, estarei lá no dia 2! Essa apresentação vai ser legendária!!!🙂

  3. 27 março 2010 às 12:00 am

    Se eu morasse em São Paulo, estaria participando dessa tua campanha e faria de tudo pra ver o espetáculo. Beijo!

  4. Vinicius Dias
    27 março 2010 às 5:53 am

    Seu texto é espetacular! Todos juntos nessa corrente pelo Despertar em São Paulo!

    • 27 março 2010 às 5:49 pm

      Ka, não seja por isso, venha JÁ pra SP assistir! Você pode ficar na minha casa!😉 Beijo.

      Vinicius, obrigado! Tudo em nome do Despertar.

  5. 31 março 2010 às 2:45 am

    maravilhoso!!!

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