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Enfim, Shutter Island!

Não tinha muita informação sobre “Ilha do Medo”, o novo trabalho de Martin Scorsese. Não tinha lido o livro que o inspirou – “Paciente 67”, de Dennis Lehane -, não tinha ido atrás de detalhes da produção, e com exceção de um trailer liberado meses atrás, sequer vislumbrara trechos do resultado. Com nada além da vaga sinopse fornecida pelo folheto do cinema, fui ter meu primeiro contato com o filme na sala de projeção, totalmente às cegas. Fica evidente, logo de cara, que estamos diante de uma narrativa bem elaborada, construída com um cuidado teatral, onde cada ator está muito seguro de sua marcação, e o diretor em pleno controle da composição cênica. Nesse jogo planejado com astúcia e executado à beira da perfeição, o público é convidado a raciocinar do começo ao fim (surpreendente, aliás), na tentativa de antever as reviravoltas escondidas numa trama que parece não ter pé nem cabeça.

A premissa é envolvente: em 1954, um agente federal (Leonardo DiCaprio) chega com o parceiro (Mark Ruffallo) a um manicômio isolado numa ilha. Lá são mantidos pacientes desequilibrados e perigosos, no que deveria ser um programa humanitário, de equilíbrio entre a aplicação da lei e o tratamento médico. Mas não custa muito para que eles percebam (e para que a plateia faça a mesma descoberta junto deles) que algo de sinistro acontece por lá. A princípio, deveriam investigar o desaparecimento de uma das detentas, que sumiu de sua cela de segurança máxima, sem deixar vestígios e sem justificativas para como teria orquestrado a fuga. São acessorados pelo médico encarregado (Ben Kingsley), e no curto período de tempo que passam na ilha (impedidos de retornar ao continente por uma tempestade violenta), irão ter contato com funcionáros, enfermeiros e outros pacientes perturbados (interpretados, em nada mais que pontas, por atores do calibre de Max Von Sydow, Patricia Clarkson, Jackie Earle Haley e Emily Mortimer). Essas aparições, contudo, apenas deixarão o quebra-cabeças mais embaralhado. As intenções de cada um serão postas em xeque, e a verdade e a mentira vão se misturar. Afinal de contas, o que se passa naquele lugar?

Os traumas constantes do personagem de Leonardo correm tangenciais à investigação, mas são muito relevantes num plano geral. Ele servira na Segunda Guerra, onde ajudara a fuzilar os nazistas encarregados de um campo de concentração (a tomada em questão deve ser a mais impressionante do filme, concebida com maestria por Scorsese). Depois, já de volta aos Estados Unidos, perdera a esposa (Michele Williams) num incêndio mal explicado. E ao que tudo indica, o incendiário que provocou essa tragédia está retido nessa mesma ilha que Leo agora investiga. Daí em diante, é fácil adivinhar o rumo para o qual a história caminha (o espectador atento notará uma deixa bem indicativa nos minutos iniciais). Mas a extensão desse desfecho talvez seja difícil de sacar. O bacana é que conhecer a reviravolta não anula o prazer da experiência – só desperta o interesse de rever já conhecendo a resolução, para constatar os indícios que foram sendo plantados.

Nesse ponto, o clima de claustrofobia e confusão é muito bem atestado em todos os aspectos. Não só a direção e o roteiro (assinado por Laeta Kalogridis) tem um conceito muito claro do que querem atingir. A edição e a fotografia também são bastante funcionais – parecem brincar com a nossa percepção, provocando incômodo e estranheza com alterações propositais (reparem como logo na primeira cena parece haver pulo de eixo, quando os cigarros que eles seguram mudam ora em ora de posição). Envolto na atmosfera, “Ilha do Medo” parece irretocável. Numa análise mais fria, porém, nota-se que o filme tem tropeços. O protagonista se embrenha por tantas ramificações que algumas delas soam puramente cansativas, e as alucinações que tem com a morte da mulher são ilustradas de maneira discutível, em sequências de enorme plasticidade, mas emocionalmente opacas. Também temo que parte do público não conseguirá se conectar, já que o trailer – aquele que eu mencionei ter visto lá em cima – vendia um suspense convencional e quase juvenil. Quem for esperando por algo do tipo ficará a ver navios, e terá que dispor de uma paciência que talvez não esteja preparado para exercitar. Mas considerando o nível das estreias das últimas semanas, esta aqui é certamente a mais interessante.

.:. Ilha do Medo (Shutter Island, 2010, dirigido por Martin Scorsese). Cotação: B+

Categorias:Cinema
  1. 17 março 2010 às 3:13 pm

    tô muito no aguardo desse (talvez vá no cinema em breve)… e não li a postagem inteira… eu sei que vc é cuidadoso e não spoilera, mas eu sou chatíssima.🙂

    =*

    • 18 março 2010 às 1:40 am

      Quéroul, o filme é facílimo de “spoilar”, mas fiz o possível para me conter!😉 Veja assim que possível! Beijo.

  2. Frederik Lauridsen
    20 março 2010 às 11:21 am

    Vi o filme ontem e concordo plenamente com tudo o que voce disse!

  1. 17 março 2010 às 10:51 am

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