Início > Teatro > O novo fruto da Broadway brasileira

O novo fruto da Broadway brasileira

Gostei muito da montagem brasileira de “Spring Awakening” – ou “Despertar da Primavera”, como está sendo chamado. Já comentei sobre a versão original em outro post, mas recapitulando, é possivelmente o meu musical favorito da Broadway, e talvez o mais ousado e diferente a partir dos palcos nova-iorquinos na última década. Trata-se da adaptação de uma polêmica peça alemã, escrita no final do século XIX, mas controversa até os dias de hoje. A trama é ambientada numa sociedade opressora, cheia de não-me-toques, onde os jovens eram repreendidos pelos pais, pelos educadores e pela Igreja. Deixados no escuro à respeito de questões comuns – como as dúvidas sobre a sexualidade -, faziam todas as descobertas deste cunho por conta própria, inclusive com certa ingenuidade. É a deixa para que o libreto aborde temas como masturbação, homossexualidade, abusos domésticos, suicídio e prostituição. Ou melhor: para que tudo seja convertido em música, em letras que passam por assuntos espinhosos com graça e delicadeza, sem sensacionalismos e apelações. O fato da trilha ter um pé fincado no rock, estilo que só seria concebido décadas após aquela em que a história se situa, funciona como charme extra.

Na teoria é perfeito. Na prática nem tanto. Para que tudo funcione à risca, é indispensável que o elenco esteja em sintonia – o que inclui encontrar dezenas de jovens com suficiente preparo para cantar e representar pelas mais de duas horas de espetáculo. Lá fora deu certo. Aqui, graças à dupla Charles Moeller e Cláudio Botelho, também (como vocês sabem, os dois assinam a maior parte das transposições da Broadway para o cenário nacional, sempre com preparo inigualável). Acharam, através de uma peneira de testes, moças e rapazes bastante proficientes, acertando especialmente na escalação do trio principal. Malu Rodrigues, linda e com excelente controle vocal, ficou sendo a inocente Wendla; Pierre Baitelli é nosso Melchior, um rapaz que vive contestando o inconstestável; e Rodrigo Pandolfo é o trágico e desajustado Moritz. Há apenas dois adultos entre os integrantes, um homem e uma mulher, ambos substanciando todas as figuras de autoridade (ou seja, mostrando que em cada aspecto da vida daqueles garotos, a incapacidade de se comunicar com os mais velhos é a mesma). Não é à toa que todos temiam se tornar como os pais, ou que num momento específico as meninas sonham com as permissões que darão para as próprias filhas quando se tornarem mães.

Sem mexer no texto mais do que o necessário, Moeller e Botelho tomaram certas liberdades, como aumentar o número de personagens (originalmente havia uma dúzia, seis garotas e seis rapazes; as novas aquisições são parte do coro e incrementam as coreografias, que aliás sofrem modificações positivas). Também há diferenças na concepção do cenário, que foi planejado para esconder a orquestra (na Broadway os músicos ficavam visíveis ao fundo), e para exibir fotografias do elenco. O primoroso trabalho de iluminação complementa as mudanças. Acho esses voos criativos não só válidos, mas também importantes. Eles permitem que elementos próximos da nossa cultura sejam inseridos num material previamente estabelecido, e – quando feitos por quem entende do ramo, como é o caso – sem manchar a reputação da fonte de inspiração. Pelo contrário: leva o padrão antigo um degrau acima. Quando baixei a trilha da versão brasileira, as traduções de algumas canções não me soaram agradáveis a uma primeira audição (Cláudio Botelho ficou encarregado da tarefa). Ouvindo dentro do contexto, porém, apreciei bem mais. Não tenho qualquer queixa a fazer – a não ser a algo que parte do original, as subtramas múltiplas que poderiam ter sido exploradas mais a fundo. Mas isso é porque todos os personagens são tão bons que ficamos com vontade de conhecê-los melhor. E quem não gostaria de receber uma crítica assim? Os leitores paulistanos já tem um programa obrigatório para as próximas semanas.

.:. O Despertar da Primavera. Qui. e sáb., às 21h; 6ª, às 21h30; Dom., às 18h. Até 2/5. Teatro Sérgio Cardoso: Rua Rui Barbosa, 153. 3288-0136. R$ 50 (qui.) e R$ 60. 14 anos. 856 lugares. 120 minutos (com intervalo). Cotação: A+

Categorias:Teatro
  1. Bruno
    13 março 2010 às 4:00 pm

    Vi no Rio umas dez vezes, daria tudo pra ver pelo menos mais uma!

  2. 14 março 2010 às 1:10 am

    Um dia, eu ainda assisto a uma montagem brasileira de musicais da Broadway! Beijo!

    • 14 março 2010 às 2:06 am

      Bruno, se tiver oportunidade, vou ver pelo menos esse tanto de vezes em SP tb!🙂 Na comunidade do Orkut, vejo que muitos cariocas estão se organizando pra vir assistir mais uma vez, pq não tenta vir com eles?

      Ka, não perca as esperanças! Avenida Q, que também é divino, está pra fazer uma turnê nacional – quem sabe passe perto da sua cidade? Beijo!

  3. 14 março 2010 às 5:26 am

    Eu adoro seus posts sobre teatro! Só que morando em Curitiba, fica difícil ver essas peças que não saem do eixo Rio-SP. Talvez eu vá pra SP em Abril, e aí com certeza verei Despertar.

  4. Luísa
    14 março 2010 às 11:22 am

    Nossa, queria tanto assistir O despertar da primavera. Amo musicais.

  5. Frederik Lauridsen
    14 março 2010 às 3:12 pm

    Nossa, não conhecia a história da peça antes do seu texto, deve ser o máximo! Vou tentar assistir na semana que vem, esse Teatro é perto da minha casa.

    • 14 março 2010 às 4:09 pm

      Jô, claro, o programa é obrigatório não só pros paulistanos de residência, mas pra qualquer um que estiver de passagem pela cidade!😉

      Luísa, então não tenha dúvidas de que vai amar este aqui.

      Frederik, antes de mais nada, adorei o seu nome! huahuahua… Se mora perto do Sergio Cardoso melhor ainda, não tem desculpa pra não ver. Leve os amigos!

  1. 13 março 2010 às 2:12 pm

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: